1 A PESQUISA EDUCACIONAL E A ATUAÇÃO DO INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS PEDAGÓGICOS
1.1 Os antecedentes históricos do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos
1.1.1 O contexto sociocultural da Primeira República
O início do séc. XX, nos primeiros anos do regime republicano, herdou as consequências de profundas mudanças políticas e econômicas ocorridas no final do séc. XIX, como afirma Fernando de Azevedo (1971):
Em nenhuma época do século XX, depois da Independência, se prepararam e se produziram acontecimentos tão importantes para a vida nacional como no último quartel dêsse (sic) século em que se verificou o primeiro surto industrial, se estabeleceu uma política migratória, se aboliu o regime da escravidão, se iniciou a organização do trabalho livre e se inaugurou, com a queda do Império, a experiência de um nôvo (sic) regime político. (AZEVEDO, 1971, p. 615)
A implantação do regime republicano foi o resultado do encontro de dois grupos sociais, movidos por interesses distintos: o Exército, que se opunha à monarquia por questões de ordem corporativa e ideológica, e os fazendeiros de café, que almejavam o fim da centralização imperial e a autonomia dos Estados, em vista da implantação de mecanismos tributários e financeiros que favorecessem o núcleo agrário-exportador, especialmente do setor cafeeiro. Na disputa entre esses dois grupos, prevaleceram os interesses das oligarquias dos grandes Estados, tendo São Paulo à frente, junto com Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Configurou-se assim o chamado Estado Oligárquico, que Cury (1988) define como:
[...] uma forma particular do Estado Capitalista, no qual o modelo agro- exportador determina a evasão do excedente econômico e o vínculo da sociedade periférica às sociedades centrais. Internamente a oligarquia se caracteriza por relações e estruturas sociais não plenamente capitalistas. (CURY, 1988, p.06)
A partir da segunda década do séc. XX, especialmente após a 1ª Guerra Mundial, verificou-se o enfraquecimento da sociedade agrária e patriarcal, economicamente alicerçada na cultura cafeeira, e a emergência de uma nova configuração na organização socioeconômica, que culminou na chamada Revolução de 30. Segundo Fausto (2001), essa crise do regime oligárquico brasileiro é “[...] o resultado de um processo cumulativo que se configura ao longo de trinta anos e desemboca em condições peculiares – nacionais e internacionais – no movimento revolucionário.” (FAUSTO, 2001, p. 227) As condições
nacionais incluem o conflito entre as oligarquias regionais, o movimento tenentista e a crise da economia cafeeira. Em nível mundial, verifica-se o declínio da hegemonia europeia e o início da hegemonia dos EUA, que se tornaram os principais importadores do café brasileiro, controlando também a dívida externa, e a crise mundial desencadeada pela Queda da Bolsa de 1929. Deve-se acrescentar a implantação do modelo socialista na Revolução Bolchevique de 1917, que acelerou as contradições internas do capitalismo e estimulou o protagonismo das classes operárias.
A predominância das oligarquias paulista e mineira no poder foi um elemento fundamental da política desta fase, que passou a ser conhecida como a época do café com leite, devido à partilha do poder entre os Estados de São Paulo e Minas Gerais. Foi justamente o não cumprimento das regras pelo presidente Washington Luís, que indicou outro paulista, Júlio Prestes para a presidência, um fator central da ruptura política de 1930, aliada ao crescimento do poder político da oligarquia gaúcha, na figura de Getúlio Vargas. Outro aspecto importante foi a aproximação entre os jovens políticos da oposição, e os militares rebeldes do movimento tenentista. Os primeiros eram representantes da classe média urbana, que, descontentes com a política de favorecimento da economia cafeeira, defendiam um programa liberal-democrático, visando à reforma política. Já o tenentismo foi um movimento de oficiais, predominantemente do Exército (tenentes e capitães), que descontentes com a disputa eleitoral de 1922 e com atitudes do governo, realizaram a revolta do Forte de Copacabana, em julho daquele ano, que culminou na morte de 16 oficiais e dois feridos, conhecidos posteriormente como os Dezoito do Forte. Em 1924, nova revolta dos tenentes eclodiu, agora em São Paulo, chegando a tomada da cidade por 22 dias; em 27 de julho abandonaram a cidade, formando a chamada Coluna paulista, que se uniu no Paraná, em 1925, com o grupo do Rio Grande do Sul, dando origem à Coluna Prestes, que percorreu 24 mil quilômetros pelo interior do país, até 1927.
Por sua vez, as classes populares também assumem um papel mais ativo no cenário político, com as primeiras greves operárias, com forte influência dos imigrantes que aqui chegaram após a 1ª Guerra, como afirma Paschoal Leme (2005):
Nessas novas correntes imigratórias vinham operários de nível profissional e cultural mais elevado, inclusive partidários de idéias sociais avançadas, especialmente anarquistas italianos, que muito influenciaram a formação ideológica de nossa até então incipiente classe operária. (PASCHOAL LEME, 2005, p. 165).
Entre 1917 e 1920 eclodiu um ciclo de greves nas grandes cidades, influenciadas pelo agravamento da carestia e pela especulação com gêneros alimentícios no pós-guerra, e também pela onda revolucionária na Europa, especialmente a Revolução de Outubro de 1917, na Rússia czarista. Segundo Fausto (1996), “Os trabalhadores não pretendiam revolucionar a sociedade, mas melhorar suas condições de vida e conquistar um mínimo de direitos. O que não quer dizer que muitos não fossem embalados na ação pelo sonho de uma sociedade igualitária.” (FAUSTO, 1996, p. 300). Estes fundaram em março de 1922, o Partido Comunista do Brasil, com membros vindos principalmente do sindicalismo de cunho anarquista, predominante em São Paulo. Até 1930 foi formado predominantemente por operários, permanecendo na ilegalidade durante praticamente toda sua história.
No campo da cultura, a Semana de Arte Moderna, realizada entre 11 e 17 de fevereiro de 1992, reuniu nomes como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Manuel Bandeira e Villa-Lobos, que preconizavam novas formas de expressão, buscando um maior contato com a realidade brasileira e também inserir o Brasil na modernidade. Segundo Moraes (1988), o modernismo de 1922 “pretendia dispor como instrumento do processo modernizador a absorção das fórmulas da modernidade presentes nos centros mais avançados produtores de cultura.” (MORAES, 1988, p. 230). Contando com o apoio financeiro da tradicional elite paulista, a exposição de pinturas, esculturas e desenhos arquitetônicos, inspirados nas correntes estéticas predominantes na Europa naquele período, que manifestou a urgência de renovação da cultura brasileira, revelou também uma contradição, pois fora financiada pelo grupo social ao qual seus participantes diziam se opor.
A desestabilização política do regime oligárquico teve seu auge diante da fragilidade da economia frente à crise do capitalismo internacional. As quedas do preço do café no mercado internacional eram compensadas por desvalorizações cambiais, estabelecidas na Convenção de Taubaté, em 1906. Essa política cambial não conseguiu sustentar-se diante da crise mundial desencadeada em 1929, a qual repercutiu gravemente no Brasil, pois o valor dos produtos que formavam a base econômica brasileira, especialmente o café, caiu de forma brusca. Além disso, o fluxo de capitais estrangeiros foi invertido, não apenas com a supressão de investimentos do exterior, mas com a retirada de capital do mercado interno, o que gerou um desequilíbrio nas contas externas do país. Segundo Ianni (1991), o Estado oligárquico rompeu-se internamente, “[...] pela impossibilidade de acomodarem-se as tensões e conciliarem-se os contrários liberados pela crise política e econômica mundial e interna” (IANNI, 1991, p. 30)
Para Caio Prado Jr. (1978), essa situação revelava a precariedade da base econômica em que se assentava a sociedade brasileira, pois embora a indústria tivesse assumido, no início do séc. XX, um lugar de relevo na economia, pois a produção de artigos de consumo diminuía as importações, continuava sendo dispersa em unidades insignificantes, de rendimento reduzido e produzindo exclusivamente para o mercado local.
Tornara-se patente a incompatibilidade substancial entre o novo ritmo de existência e progresso material atingido pelo país, e sua modesta categoria de mero produtor de um punhado de matérias-primas destinadas ao comércio internacional. Sobre essa base estreita não era possível manter uma estrutura econômica e social imposta pelas novas condições do mundo de que o Brasil passara plenamente a participar. (PRADO JR., 1978, p. 287),