Talvez a maior contribuição dada pela cidade industrial tenha sido a reação que produziu contra os seus próprios maiores descaminhos; e, para começar, a arte do saneamento ou da higiene públicaíOs modelos originais desses males foram as prisões e hospitais assolados pela peste, no século XVIII: o seu aper feiçoamento fez deles planos-pilotos, por assim dizer, da reforma da cidade industrial. Aquilo que se conseguiu no século XIX, com a moldagem de gran des manilhas vidradas e a fundição de canos de ferro, possibilitou o aproveita mento de distantes suprimentos de água relativamente pura e a deposição, pelo menos até onde passava o curso de água mais próximo, dos esgotos; ao mesmo tempo, as repetidas epidemias de malária, cólera, tifo e desarranjos serviram de estímulo àquelas inovações, pois não foi difícil a uma sucessão de funcionários da saúde pública fixar as relações da imundície e do congestiona mento, da água poluída e do alimento deteriorado, com aquelas condições.,
Sobre a questão essencial da deterioração urbana, John Ruskin havia exprimido a verdade. “Fornecer habitações [para os trabalhadores] implica — disse ele — grande dose de vigorosa legislação e de redução de interesses privados que servem de obstáculos; e depois disso, ou mesmo antes, até onde o possamos obter, mediante a ação sanitária e profilática nas casas que possuí mos, e depois a construção de outras, sólidas, belas, e em grupos de tamanho limitado, guardando uma relação com os seus rios, e cercados de muros, para que não possa haver em parte alguma supuração e subúrbios desolados, mas apenas ruas limpas e ativas, e fora, o campo aberto, com uma faixa de belos jardins e pomares ao redor dos muros, para que, de qualquer parte da cidade, o ar perfeitamente puro, a relva e a visão do horizonte longínquo possam ser
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alcançados numa caminhada de poucos minutos.” Aquela visão feliz chegou a seduzir os próprios fabricantes que, aqui e ali, em Port Sunlight e Bumville, começaram a construir aldeias industriais que rivalizavam em conforto com os melhores subúrbios de um período posterior,
Dar de novo à cidade ar puro, água fresca, espaços abertos de verdura e sol, passou a ser o primeiro objetivo do bom urbanismo: a necessidade era tão premente que, a despeito de sua paixão pela beleza urbana, Camilo Sitte insistia na função higiênica do parque urbano, como uma verdura sanitária, para empregar sua própria expressão: os “pulmões” da cidade, cuja função passou a ser apreciada de um modo novo, por causa da sua ausência^
f 0 culto da limpeza teve sua origem antes da era paleotécnica: deve muito às cidades holandesas do século XVII com seus abundantes suprimen tos de água, suas amplas janelas que punham à mostra cada partícula de poeira no interior, seus pisos ladrilhados; tanto assim que o esfregar e lavar da dona-de-casa holandesa tomaram-se proverbiais. A limpeza ganhou novos reforços científicos depois de 1870. Enquanto o corpo esteve dualisticamente separado da mente, o seu cuidado sistemático pôde ser reduzido, quase como uma indicação de preocupações mais espirituais. Mas a nova concepção cientí fica do organismo, que se conformou no século XIX, com Johannes Müller e Claude Bemard, reuniu os processos fisiológicos e psicológicos, e assim, o cuidado corporal tornou a se transformar em disciplina moral e estética. Pelas suas pesquisas em bacteriologia, Pasteur alterou a concepção do ambiente externo tanto quanto do interno dos organismos: virulentos organismos microscópicos vicejavam na imundície e no esterco, e em grande parte desapa reciam, frente à água-e-sabão e expostos ao sol. Em consequência, o fazen deiro que hoje ordenha uma vaca toma precauções sanitárias que um cirurgião da Londres de meados do período vitoriano não se dava ao trabalho de tomar, antes de executar uma operação importante, até que Lister lhe mostrou que estava errado. Os novos padrões de luz, arejamento e limpeza, que Florence Nightingale estabeleceu para os hospitais, eram por ela levados até mesmo à sala de estar de paredes brancas de sua própria casa — verdadeiro prelúdio ao admiravelmente higiênico “Esprit Nouveau” de Le Corbusier, na arquitetura moderna.
Afinal, a indiferença paleotécnica à escuridão e à imundície foi denun ciada pelo que representava — uma monstmosa barbárie. Novos progressos nas ciências biológicas vieram deixar claros os males do novo ambiente, com sua fumaça, seu fog, seus fumos pestilentos. À medida que cresce o nosso conhe cimento experimental da medicina, amplia-se a lista dos males, que agora inclui as duzentas e tantas substâncias cancerígenas ainda costumeiramente encontradas no ar da maior parte das cidades industriais, para não mencionar as poeiras metálicas e de pedra e os gases venenosos que elevam a incidência e aumentam a fatalidade das moléstias do trato respiratórioj
O CONTRA-ATAQUE 515
Embora a pressão do conhecimento científico operasse lentamente no sentido de melhorar as condições na cidade como um todo, teve um efeito mais rápido sobre as classes abastadas e educadas, que não demoraram a apanhar a deixa e fugir da cidade, para um ambiente que não fosse tão ini migo da saúde. Uma das razões dessa tardia aplicação da higiene moderna ao planejamento de cidades foi o fato de acarretarem os aperfeiçoamentos indivi duais no equipamento higiênico das moradias uma radical alteração nos custos; e esses custos se refletiam em maiores investimentos municipais em serviços públicos coletivos e em impostos municipais mais pesados, a fim de mantê-los em funcionamento.
Assim como o industrialismo dos primeiros tempos arrancara seus lucros não só das economias da máquina, mas também do pauperismo dos trabalhadores, assim também a cruel cidade fabril mantivera seus salários e impostos em níveis reduzidos, esgotando e pauperizando o ambiente, /a
higiene exigia espaço, equipamento municipal e recursos naturais que, até »então, tinham estado ausentes. Com o tempo, essa demanda obrigou à socia lização municipal, como acompanhamento normal da melhoria dos serviços. Nem o suprimento de água potável, nem a deposição coletiva de detritos, lixo e esgotos podería ser deixada à consciência privada, ou realizada apenas se pudesse proporcionar lucros.,
fN os centros menores, podia-se deixar a companhias privadas o privilégio de manter tais serviços, até que a grave irrupção de uma doença viesse prescre ver o controle público; mas, nas cidades maiores, a socialização era o preço da segurança; e assim, a despeito das pretensões teóricas do laissez-faire, o século XIX tomou-se, como Beatrice e Sidney Webb mostraram com proprie dade, o século do socialismo municipal. Cada melhoramento individual dentro do edifício exigia um serviço público de propriedade e operação coletiva: con dutos de água, reservatórios de água, aquedutos, estações de bombeamento: condutos de esgotos, usinas de redução de detritos, fazendas fertilizadas com o produto dos esgotos. Somente a propriedade pública da terra destinada à ampliação urbana, à produção urbana ou à colonização urbana, não existia. Aquele passo à frente foi uma das contribuições significativas da cidade-
jardim de Ebenezer Howard.
Graças a essa socialização efetiva e difundida, o índice geral de mortali dade, inclusive infantil, tendeu a cair, depois dos anos de 1870; e tão eviden tes eram tais melhoramentos que o investimento social de capitais municipais em tais serviços públicos cresceu. Contudo, a ênfase principal continuava sendo negativa: os novos bairros da cidade não expressavam, de nenhum modo positivo, a compreensão do entrejogo do organismo como um todo e do ambiente, que as ciências biológicas vieram introduzir/Amdahoje, dificil mente se poderia admitir, pelo uso elegante e pseudomodemo de grandes janelas seladas de vidro, que Downes e Blunt haviam demonstrado, já em
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1877, as propriedades bactericidas da luz solar direta. Aquela irracionalidade vem revelar como ainda é superficial o respeito à ciência, em muitas pessoas presumivelmente educadas, e até mesmo entre técnicos.
Pela primeira vez, os aperfeiçoamentos sanitários alcançados originaria- mente nos palácios sumérios e cretenses e estendidos às famílias patrícias de Roma, séculos depois, achavam-se agora ao alcance da população inteira da cidade./Era um triunfo de princípios democráticos que nem mesmo os regi mes ditatoriais podiam inibir: aliás, um dos maiores benefícios públicos tra zidos pela derrubada da Segunda República Francesa verificou-se na temível limpeza de Paris, dirigida pelo barão Haussmann, serviço muito mais essencial, muito mais original, até, do que qualquer dos seus mais célebres atos de urba nismo propriamente dito.
Nova Iorque foi a primeira grande cidade a obter um amplo suprimento de água potável, graças à construção do sistema Croton de reservatórios e aquedutos, inaugurado em 1842: mas, com o tempo, todas as grandes cidades foram obrigadas a seguir seu exemplo, y A eliminação dos esgotos continuou sendo uma questão difícil e, exceto em cidades suficientemente pequenas para possuir usinas de esgotos capazes de transformar todo aquele desper dício, o problema ainda não foi convenientemente resolvido. Não obstante, o costume de se possuir um gabinete sanitário privado por família — uma latrina ligada à rede pública em comunidades muito densas — foi implantado pelos fins do século XDÍ/Quanto ao lixo, a costumeira acumulação e incineração desse valioso composto agrícola continua sendo um dos pecados renitentes da administração municipal não-científica.,
À limpeza das mas continuou sendo um problema mais difícil, até que se universalizou o uso dos paralelepípedos, de origem belga, e do asfalto, eliminou-se o cavalo e o suprimento público de água tomou-se abundante; afinal, porém, revelou-se mais fácil de manejar que a limpeza do ar. Ainda hoje, a filtragem dos raios ultravioletas, pelo excesso de pó e fumaça, é um dos atributos redutores de vitalidade dos centros urbanos mais congestio nados, que o vistoso mas tecnicamente antiquado automóvel veio aumentar, ao invés de diminuir, fazendo crescer mesmo o índice de veneno invisível representado pelo monóxido de carbono. Como compensação parcial, a intro dução da água corrente e dos banhos na moradia — e o estágio intermediário do restabelecimento dos banhos públicos, abandonados na Idade Média — deve ter ajudado a reduzir tanto as doenças em geral como a mortalidade infantil, em particular.
De modo geral, a obra de reformadores sanitários e higienistas, um Chadwick, uma Florence Nightingale, um Louis Pasteur, um barão Hauss mann, roubou à vida urbana, em seus níveis inferiores, algo dos seus piores terrores e mesquinhezas físicas./tSe os aspectos criadores da vida urbana foram diminuídos pelo industrialismo, também, com o tempo, foram redu-
A CIDADE SUBTERRÂNEA 5Í7
zidos os maus efeitos dos seus detritos e excrementos. Até os corpos dos mortos contribuíam para o melhoramento: formavam um anel verde de subúr bios e parques mortuários ao redor da cidade que crescia; e também ali,.a maneira ousada e magistral de tratar desse problema, revelada por Haussmann, deve merecer respeitosos aplausos.
O novo ambiente industrial carecia, de maneira tão gritante, dos atribu tos da saúde, que dificilmente causaria admiração o fato de o movimento em contrário, o da higiene, ter proporcionado as contribuições mais positivas do urbanismo, durante o século XIX. fo s novos ideais foram provisoriamente Ncpncretizadçs numa utopia, chamada Hygeia, o ü À Ciâãde da Saúde, publi“
cada pelo dr. Benjamin Ward Richàrdson, em 1875./í)escobrem-se ali restos inconscientes que rejeitam o grau aceito de sobrepovoamento, pois, ao passo que, menos de umageração dèpóis, Ebenezer Howard destinava 2430 hectares para abrigar e conter 32 000 pessoas, Richàrdson propunha-se a colocar 100000 pessoas em 1620 hectares. Na nova cidade, as ferrovias deveriam ser subterrâneas, a despeito das locomotivas a carvão, então em yoga; mas não se permitiria, nas casas, qualquer espécie de porão, proibição que teve apoio legal ná Inglaterra. Mas a construção deveria ser de tijolos, por dentro e por fora, capaz de ser regada a mangueira — um sonho masculino que volta sempre — e as chaminés teriam de ser ligadas a condutos centrais, para levar o carvão não queimado a um gasómetro, onde seria consumido.
Por mais arcaicas que sejam agora algumas dessas sugestões, o dr. Ri- chardson, em muitos particulares, achava-se não só adiantado em reiação ao seu tempo, mas adiantado também quanto aos nossos próprios dias. Propunha abandonar “a velha idéia de armazenar doenças na maior escala possível” e advogava um pequeno hospital para cada 5000 pessoas. Dentro do mesmo princípio, os desamparados, os velhos e os doentes mentais deveriam ser aloja dos em prédios de dimensões modernas. As concepções físicas da cidade de Richàrdson acham-se hoje ultrapassadas, mas as suas contribuições para a assistência médica coletiva ainda são, creio eu, dignas de meditação. Com ampla justificação racional, propunha-se ele retroceder aos elevados padrões médicos e humanos da cidade medieval..