4. Da análise crítica da ideia de razão pública em Rawls
4.2. Problemas da completude e da aplicação da razão pública secular de Rawls
4.2.1. O “contrabando de doutrinas abrangentes e razoáveis”
Tomemos novamente as duas lições de Rawls sobre quão completa é o conteúdo da razão pública e como aplicá-la para justificar decisões públicas.
Lembremos que a concepção política de justiça deve expressar princípios, padrões e ideias - de tal forma que os valores por ela explicitados possam ser adequadamente ordenados ou combinados - de modo que somente esses valores bastem para oferecer uma resposta razoável a todas ou quase todas as questões que envolvem elementos constitucionais essenciais e matérias de justiça básica. Recordemos também que quando o cidadão fizer adentrar no espaço público as suas doutrinas abrangentes, para discutir as mesmas questões fundamentais, ele deve obedecer radicalmente as exigências da cláusula, sob pena de tornar seu discurso injustificado publicamente.
No entanto, posto desta forma, no parecer de Steven Smith, o vocabulário secular de Rawls, se apresenta hoje, ao discurso público, de forma restrita e insuficiente para transmitir o nosso conjunto completo de convicções normativas e compromissos morais.269
268 Cfr. RAWLS, John, O liberalismo político. Trad.: Álvaro de Vita, 1ª Ed., São Paulo: Martins Fontes, 2011, p.
537.
Quando estamos diante de um debate normativo, fazemo-lo apenas por contrabando de noções que são formalmente inadmissíveis e, portanto, que não podem ser abertamente reconhecidas, sendo que algumas noções que devemos contrabandear, de acordo com Smith, incluem noções a cerca de um “cosmo intencional”, ou uma natureza teleológica abastecida com “causas finais aristotélicas” ou um “desígnio providencial”, todos banidos do discurso secular, porque eles estipulam verdade e o valor de antecedência, ao invés de esperar para ser revelado pelos resultados do cálculo racional. Mas se o discurso secular proíbe esse tipo de noção, então temos poucas escolhas a não ser contrabandeá-las sob algum tipo de disfarce secular,270 por exemplo, utilizando “a cláusula”.
E como fazemos isso? Responde Smith: “Bem, é como invocar conceitos seculares como liberdade e igualdade, que são conceitos suficientemente gerais para escapar da mácula de filiação partidária ou religiosa”271, para podemos ser vistos como cidadãos públicos justificados, mesmo quando nossa vontade na verdade era expressar nossas opiniões morais.
Este tipo de contrabando, conclui Smith, é generalizada no discurso secular contemporâneo, onde as conversas na gaiola secular não podem continuar muito bem sem o contrabando.272
Na mesma esteira de pensamento, encontramos Stanley Fish, que ratifica a ideia posta afirmando o seguinte: “In the always-ongoing debate about the role of religion in public life, the argument most often made on the liberal side is that policy decisions should be made on the basis of secular reasons, reasons that, because they do not reflect the commitments or agendas of any religion, morality or ideology, can be accepted as reasons by all citizens no matter what their individual beliefs and affiliations. So it’s .K. to argue that a proposed piece of legislation will benefit the economy, or improve the nation’s health, or strengthen national security; but it’s not .K. to argue that a proposed piece of legislation should be passed because it comports with a verse from the book of Genesis or corresponds to the will of God.273
269Cfr. SMITH, Steven, The disenchantment of secular discourse. Cambridge, Massachusetts and London:
Harvard University Press, 2010, p. 39.
270Cfr. SMITH, Steven, ob. cit., p. 26 e segs.
271Na verdade, conceitos como liberdade e igualdade, segundo Smith, são normativamente inútil, salvo quando seus ornamentos retóricos estão preenchidos por alguns partidários ou perspectiva ideológica ou teológica, precisamente as perspectivas que a razão secular tem renegado. Cfr. SMITH, Steven, ob. cit., p. 18-22.
272Cfr. SMITH, Steven, ob. cit., p. 39.
273Cfr. FISH, Stanley, Are There Secular Reason? In: The opinion pages. New York: online The New York Times, 22 Feb., 2010.
No entanto, como bem argumenta o mesmo Autor, se tratarmos de uma questão patrimonial e citarmos, por exemplo, como fundamento, a proibição de roubar prevista nos Dez Mandamentos de Moisés, não devemos ter com quer nos preocupar, pois há uma versão secular disponível ao cidadão racional que são os princípios dos direitos de propriedade, ou seja, a fundamentação bíblica pode e deve ser transformada por um qualquer fundamente que não reconheça alguma autoridade moral.
Esta imagem de fundamentação da norma jurídica, ainda segundo Fish, é rotineiramente apresentada por aqueles que afirmam que razões e discurso seculares em geral, não contam – e nem devem contar - toda a verdade, pois são completas em si. Contudo, pelo que parece, acabam deixando de fora muito do que sabemos ser importante para a vida humana274. Mas não entremos nesse aspecto ainda, teremos um momento especial para fazê-lo.
Antes, todavia, suponhamos que esses não sejam os problemas mais urgentes na ideia de razão pública em Rawls, pois há uma questão de ordem de aplicação prática que nos parece mais grave, ou seja, e se os recursos disponíveis no domínio reduzido e truncado da “razão pública” não forem suficientes para produzir uma resposta definitiva a uma difícil questão como aborto ou casamento homossexual, por exemplo? E se esses recursos limitados não conseguirem apresentar uma justificação satisfatória para uma decisão sobre tais questões?275E se não existirem para o discurso abrangente, roupas seculares adequadas?
Parece claro que, pelo menos para essas controvérsias, os escopos limitados de crenças e métodos que realmente podem reivindicar um “consenso sobreposto” em uma sociedade radicalmente pluralista são insuficientes para fornecer uma base geral de persuasão e justificação para uma determinada decisão.
Por isso, aos nossos olhos, o fluxo comum é que todos esses assuntos, quando não bem resolvidas em instâncias inferiores ou em outros Poderes do Estado, acabarão desaguando nos Tribunais Constitucionais, e se estes de facto forem os paradigmas principais da razão pública, pois é a única razão que lhes compete, então teremos um problema potencialmente mais grave.
274E nesse aspecto, retornemos a Smith, que afirma que a razão secular, sozinha, não pode e não consegue fazer o trabalho de identificar os significados e os valores finais da vida, pois nós, necessariamente, precisamos de religião ou de alguma doutrina moral para fazê-lo.Cfr. SMITH, Steven, The disenchantment of secular discourse.
Cambridge, Massachusetts and London: Harvard University Press, 2010, p. 112.
275Cfr. SMITH, Steven Douglas, ob. cit., p. 16.