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3. A REGIONALIZAÇÃO NA LITERATURA: REFLEXÕES E DEBATES

3.3. RECONSTRUINDO O REGIONAL NO NORDESTE

3.3.1. O contraste do herói contemporâneo com os antigos moldes

Ao perceber em Galiléia (2008) e em Livro dos Homens (2005) características que sirvam para começar a compreender a figuração do regional na literatura contemporânea e perseguir a dificuldade de elencá-las, entendemos que o ser humano, nas suas atuais problemáticas e heterogeneidades, é a peça mais fundamental desse processo.

Vendo a complexa instância humana contemporânea desaguar nos estados emocionais das personagens, mantendo, atualizando e desconstruindo arquétipos, consideramos importante entender melhor a figura do herói. O heroísmo é debatido em suas modificações e ausências através da condição humana das personagens principais, sobre as quais mais focamos nosso olhar e interesse.

Para Campbell (1997), o herói é aquele homem ligado a uma comunidade, que autoconquistou uma submissão à sua tarefa e ao objetivo de sua tarefa, o que o coloca como virtuoso e lhe rende reconhecimento por parte da sua comunidade. Ele (ou ela, heroína) é aquele que conseguiu superar suas limitações pessoais (da sua psiquê) e locais (os padrões alienantes de sua comunidade), alcançando melhores formas de viver. Esse homem seria uma

personagem dotada de dons excepcionais, no sentido de capacidades íntimas maiores que as de outras, e que nasceu com uma missão de transcendentalização. É o herói do monomito, a esperança de triunfo.

Esse homem heroico pode não ter grandes virtudes morais, mas é virtuoso porque vence o próprio ego, destrói seu microcosmo, subjugando seus monstros e suas vaidades, entrando em comunhão com a realidade transcendente que busca, para deixar-se iluminar por uma verdade tão profunda que se funde com ele mesmo. Ao fim, retorna transformado ao berço de onde partiu e passa a ensinar as verdades aprendidas, destruindo, também, o macrocosmo de antes, os vícios e os defeitos da sua comunidade. Apesar das dificuldades enfrentadas, esse homem consegue unir as multiplicidades e as tornarem conhecidas pela comunidade. Porém, toda essa forma de agir não se encaixa mais no nosso mundo.

imagem do herói, em sua dinâmica, é inseparável daquilo que poderia chamar-se provação ou vicissitude MELETÍNSKI, 1998, p. 117, grifo nosso). Nesse ponto, o autor conecta o herói a qualquer tempo, inclusive ao atual, já que estar em provação é o essencial para a figura de um herói. Mas percebamos que a forma que ele resolve uma provação ou que ele se comporta dento dela é que se modifica ao longo da história da literatura e modifica a literatura, sendo muitos os mitos literários em torno dessa figura.

herói é aquele que dá à situação uma saída seja ela negativa ou absurda (CALLOIS, 1958, p. 27-28, apud TROUSSON, 1988, p. 39, grifo nosso). Assim, um herói dá a um problema, seja ele de qual tipo ou procedência for, uma saída, um caminho a ser tomado, uma decisão ou uma trajetória a ser seguida, mesmo que seja uma resposta absurda ou negativa. Esse é um herói que podemos admitir consoante com a contemporaneidade, uma vez que as perguntas abundam, as respostas possíveis são várias e as tensões vivenciadas pelo indivíduo, muitas vezes, tomam sua capacidade de clarear a mente e resolver situações assertiva e positivamente.

Os problemas individuais dos nossos dias retirou o senso de comunidade e de missão de vitória, colocando no lugar o individualismo e o senso de busca por alguma vitória íntima. O herói contemporâneo pode ser você, eu, o homem simples e anônimo da vida comum e da arte, que luta com as várias versões de si, antigas e novas, e tenta conviver com sua heterogeneidade, sem a garantia de transcendência. O dragão das histórias heroicas, na verdade, é o próprio homem, e o mito em que ele se insere é a sua própria vida.

Desde a era moderna, percebe-se que o universo dos símbolos do mundo mítico entrou em colapso. Foi o movimento do mundo capitalista, cada vez mais veloz, individualista e

materialista, que descentrou o homem do fascínio pelo passado e da estabilidade ou prisão da tradição.

Antes, o sentido residia no grupo, não havia expressão no indivíduo isolado e despertencido; já a partir da era moderna, a promessa é de que o sentido se encontraria dentro do indivíduo, ainda que hoje, devido ao fenômeno da globalização, a comunidade seja o planeta. Aterrorizante é que esse sentido esteja disperso no ser, sem ter consciência, ao certo, para onde se caminha ou o que move as pessoas.

(CAMPBELL, 1997, s.p.), o que significa tornar o mundo moderno espiritualmente significativo e encontrar, por meio de vários símbolos, uma verdade una. É nessa medida que a missão crucial do homem moderno é o próprio homem, fustigando seu egoísmo e ressuscitando o sentido de sociedade reformada.

Nesse contexto, a modernidade criou condições para se pensar na desconstrução do herói, procedimento que hoje deve estar bem mais completo:

A plena deseroicização, a tendência à representação de um herói sem personalidade, vítima do alheamento, em parte devida à sua aproximação semi-heróica aos muitos arquétipos mitológicos que se transformaram em máscaras descartáveis, é o que se sente na literatura moderna do século XX. (MELETÍNSKI, 1998, p. 86-87).

O século XXI e sua literatura conecta-se perfeitamente com essa perspectiva não heroica do indivíduo. Segundo percebemos até aqui, munidos do diálogo e do debate com teóricos e críticos de literatura, o alheamento do homem perante a sociedade, seu solipsismo, sua desarmonização são características que se combinam com um mundo de identidades em conflito e em deslocamento, de fronteiras físicas e íntimas moventes e plurais, de memórias em permanente questionamento e reconstrução; não mais existem caminhos tracejados nem diretrizes claras.

Assim, não é permitido ao homem contemporâneo ser herói, ao menos não aos moldes clássicos. Porém, o fato de não haver o arquétipo do herói nos moldes monomíticos na literatura contemporânea não exclui a figura heroica do personagem que vivencie desafios e busque respostas para resolvê-los; do personagem que receba uma acentuada carga emocional e represente um foco de motivos; do personagem que apareça em primeiro plano e tenha papel essencial no enredo (MELETÍNSKI, 1998).

Não mesmo. A busca por respostas é, de acordo com Bauman (1998), a grande característica do homem a partir da pós-modernidade e, podemos dizer, do herói, o homem comum de Campbell (1997). Acreditando em um novo estado e função da figura heroica no contemporâneo, devemos entender que ele é herói dele mesmo.

Esse homem, herói de si e para si, tem, por certo, fraquezas mais visíveis. Hobsbawn (2005 apud PETRILLO, 2008, p. 50) afirma que, a partir de fins do século XX, os indivíduos são egocêntricos e sem conexão verdadeira entre si, vivendo apenas em torno das próprias indagações e em busca das próprias satisfações, em uma jornada íntima incessante, imersos em uma espécie de presente contínuo, isto é, que está sempre voltando a si, sem se conciliar com o passado. A pós-modernidade escreveu a condenação humana:

(LYOTARD, 1990, p. 28). Mesmo assim, o autor explica que esse si não está isolado, é colocado em uma rede de

ualistas entre si.

Assim, o homem do nosso contemporâneo, os heróis do hoje, luta por si dentro de uma rede anônima de relações. Tem a possibilidade de alcançar conquistas intimas e universais, mas não a certeza, pois a busca por respostas lhe é garantida, não a certeza de atingi-las, uma vez que a atualidade leva a cada vez mais questionamentos. Mas essa procura por sentidos redentores se torna, em certa medida, um objetivo que alimenta e conduz o homem atual, ainda que trôpega e indefinivelmente; ela constitui a sua tarefa de herói e a sua pena.