3.4 A APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA CAPACIDADE CONTRIBUTIVA NA
3.4.1 O Controle da Constitucionalidade – Proporcionalidade
O princípio da capacidade contributiva tem autonomia no sistema brasileiro, ele não depende de nenhum outro princípio para existir. Isso, porém, não altera o fato de que o princípio da capacidade contributiva é uma espécie de “tertium comparationes” da igualdade. Como demonstrado em momento anterior, o controle de constitucionalidade das medidas que violam a capacidade contributiva se dá, na jurisprudência alemã, perante o princípio da igualdade, onde o primeiro marco teórico se deu pela proibição da arbitrariedade (Willkürverbot).
Quando um sistema tributário permite a violação do mínimo existencial por meio da tributação indireta, estamos diante de uma violação do princípio da capacidade contributiva e portanto, do princípio da igualdade. Essa conclusão decorre, obviamente, do conceito de princípio da capacidade contributiva e da percepção de que a mera menção no texto constitucional à seletividade não retira ou modifica a eficácia original, própria, potencial da capacidade contributiva. Se a premissa é a ausência de capacidade contributiva no âmbito do mínimo existencial, a aceitação da tributação indireta nesse âmbito implica a aceitação de uma violação do princípio da capacidade contributiva. Importa saber, portanto, se essa violação pode ser justificada em favor de outros valores do sistema.
Tratando-se de mínimo existencial, parece que não. Nenhum argumento de praticabilidade parece ser forte o suficiente hoje, dada a realidade tecnológica em que vivemos e a imensa complexidade do sistema fical, para justificar tal interferência na intangibilidade do mínimo
existencial.
281 KIRCHHOF, Paul. Der Weg zu einem neuen Steuerrecht – klar, verständlich, gerecht. München: Deutscher
Taschenbuch Verlag, september 2005, p. 27. ”Dies zeigt eine Entscheidung des Bundesverfassungsgerichts vom 25 sept. 1992. Dort wurde festegestellt, dass der Sozialgesetzgeber im Jahre 1992 das Existenzminimum eines Erwerbslosen in Höhe von rund 12.000 Mark pro Jahr anerkannte und befriedigte, der Steuergesetzgeber hingegen dieses Minimum nur mit 5.616 Mark bemessen hatte. Der Erwerbslose erhielt also vom Staat deutlich höhere zuwendungen, als der Erwerbstätige bei der Besteuerung seines Einkommens zur Existenzsicherung behalten durfte. Das Gericht hat den Gesetzgeber deshalb verpflichtet, spätestens ab dem Veranlagungszeitraum 1996 diese Unzulanglichkeit des Grundfreibetrages zu beheben und die verfassungswidrige durch eine verfassungsgemäße Regelung zu ersetzen. Der Gesetzgeber hat den Auftrag erfüllt. Der Grundfreibetrag beträgt heute 7.235 Euro”.
O controle do princípio da igualdade não se limita à interdição de arbitrariedade (Willkürverbot), como demonstrado em outro tópico. A realização da igualdade não se satisfaz com a proibição de uma discriminação contrária à natureza das coisas ou injustificada, não basta portanto, uma fundamentação objetiva para o trato desigual (Molina, p. 28), nem apenas a coerência do legislador no desenvolvimento dos critérios de diferenciação. Quando a norma tributária, ainda que justificada e racionalmente expostos os seus critérios de diferenciação, violar direito fundamental, a sua permanência no sistema deve atender à proporcionalidade (art und gewicht).
Assim, a norma tributária que institui um tributo, desconsiderando a sua repercussão econômica e o fato de que o contribuinte de fato será afetado de forma substancial em relação ao seu bem-estar, de forma intensamente desigual, não deve ser submetida ao controle da igualdade unicamente com base na consideração da existência de uma justificação racional. Há de se pesar os direitos fundamentais envolvidos, o direito à dignidade, o direito à moradia, à saúde e à educação.
Se a norma tributária em abstrato tem potencial lesivo, essa característica impõe ao legislador o dever de elaborar mecanismos de tipificação e praticabilidade que amenizem ou neutralizem o potencial lesivo da norma.
Um exemplo que concretiza a proposta aqui desenvolvida é a sentença de 17-1-1957 (inconstitucionalidade de la tributación conjunta en el Impuesto sobre la Renta), do BverfG, em que se utiliza argumentação na qual o Willkürverbot tem um papel secundário.
Referida sentença282 “utiliza la interdicción de la arbitrariedad como elemento interpretativo que permite descubrir una discrimnación del matrimonio: el mayor gravamen se justificaba en el incremento de capacidad económica que suponía la vida en común a través del ahorro de gastos. Ahora bien, el sistema de la imposición sobre la renta en Alemania se basaba en el principio de tributación individual, y desconocía otros supustos en los que el ahorro de gastos se considerasen manifestación de capacidad económica. Estas incoherencias sistemáticas demostraban la lesión del art. 6.1 GG. Por otra parte, el Tribunal examina otros motivos que pudieran justificar la discriminación, y los rechaza, bien por tratarse de finalidades inconstitucionais (desincentivar el trabajo de la mujer fuera del hogar), o bien porque se trata de
fines legitimos cuya consecución es posible sin necesidad de lesional un derecho
fundamental (evitar posibles maniobras elusivas entre los conyuges, atender a las necesidades fiancieras del Estado). Este tipo de análisis excede de la mera interdicción de la arbitrariedad y supone uan ponderación de bienes jurídicos (Abwägung) y un juicio sobre la adecuación de los medios a los fines perseguidos (Zweck-Mittel-Verhältnis).
Na apreciação de Herrera Molina:
El Tribunal afirma que el principio de igualdad no se limita la interdiccion de la arbitrariedad; el legislador también deve atenerse a las demás normas fundamentales que expresan los juicios del valor sobre el contribuyuente en diversas esferas del orden jurídico y social. Esto conduce a declarar inconstitucional el incremento de gravamen derivado de la tributación conjunta de los cónyuges a través de la escala progresiva del Impuesto sobre la Renta.
Estas resoluciones muestran que, si está en juego un derecho fundamental (en estos casos bajo la fomra de una específica prohibición de discriminación), el BverfG utiliza el criterio de interdicción de la arbitrariedad con relativa rigidez: los motivos de la
practicabilidad administrativa o de lucha contra el fraude no bastan para justificar un trato discriminatório de la familia. Esto apunta ya a la conveniencia de considerar
la tributación con arreglo a la capacidad económica como um derecho fundamental, de forma que la interdicción de la arbitrariedad quede fuera de su ámbito como mero criterio interpretativo o complementario. De este modo, el control de la capacidad
económica no se limitaría a la búsqueda de cualquier motivo „razonable“ que justifique su limitación, sino que exigiría una verdadera ponderación de bienes jurídicos y un juicio de idoneidad y necesidad de la medida adoptada para conseguir el fin deseado283.
As restrições ao princípio da capacidade contributiva implicam um ônus argumentativo. Elas precisam ser justificadas qualitativamente, ou seja, não podem representar a violação do núcleo de direitos com valor maior que aqueles que a restrição prioriza. Outra não é a conclusão a que chega Manzoni:
Dovranno, pertanto, considerarsi costituzionalmente illegittimi, ad esempio, quei tributi extrafiscali che diano luogo a discriminazioni soggettive o da provvedimenti a carattere personale o singolare, in violazione del principio di uguaglianza; o che tendano ad
inasprire il regime tributario di consumi primari o fondamentali per l’esistenza del soggetto, in violazione del principio dell’esenzione del minimo vitale; o che pongano ostacoli o impedimenti all’eserciczio di diritti o allo svolgimento di attività garantite e tutelate dalla Costituzione (come l’attività religiosa, politica, sindacale, ecc.). Così,
ancora non [...]284.
283 HERRERA MOLINA, op. cit., 1998, p.33. 284 MANZONI, op. cit., 1965, p. 106.