CAPÍTULO 1 O MUNDO DO TRABALHO CONTEMPORÂNEO E O CONTROLE DA
1.5 O controle da subjetividade do trabalhador
A legislação confere ao empregador, conforme mencionado, o poder de dirigir a prestação pessoal de serviços de terceiro. Todavia, esse poder de comando possui sua outra face, que é a subordinação do empregado.
A subordinação, que é estritamente jurídica, estabelece o papel do trabalhador na relação de emprego. Ao ingressar na relação de emprego, o trabalhador submete sua atividade profissional à direção do empregador. Ocorre que, atualmente, o capitalismo selvagem, através de novas técnicas de dominação e expropriação do trabalho alheio, tem extraído e
controlado a própria subjetividade do trabalhador, ultrapassando os limites legais impostos à subordinação.
Entre os requisitos que configuram a relação de emprego, certamente a subordinação desempenha um papel central na sua caracterização, bem como para a ocorrência do assédio
moral em particular. A palavra subordinação exprime “a ordem estabelecida entre as pessoas e segundo a qual umas dependem das outras, das quais recebem ordens ou incumbências”
(SILVA, 2007, p. 13). A subordinação, portanto, é conceitualmente classificada como jurídica. Ao empregador, confere-se o exercício do poder empregatício, a capacidade de adotar métodos e formas de organização da atividade empresarial produtiva. Submetendo-se a uma relação de trabalho subordinada, o empregado aceita que o procedimento a ser utilizado – o método pelo qual irá dispor de sua mão de obra – seja comandado por outrem.
Oliveira (2008) conceitua a subordinação como o vínculo que une o empregado ao empregador. Trata-se da atividade que se exterioriza na prestação do trabalho. Consiste na
“integração do trabalhador na organização da empresa, mediante um vínculo contratualmente
estabelecido, em virtude do qual o trabalhador submete sua atividade ao poder diretivo do
empregador” (p. 78). E o autor continua, afirmando que:
a atividade do trabalhador é o objeto do contrato e sobre ela se exerce o poder diretivo. Não é uma sujeição pessoal, pois subordinado é o trabalho, não o trabalhador. O trabalhador é subordinado apenas e enquanto deve conformar sua prestação aos critérios diretivos estabelecidos pelo empregador e, em geral, às exigências técnico-administrativas da empresa (OLIVEIRA, 2008, p. 78).
Silva, por sua vez, define subordinação jurídica como:
o conjunto de ordens emitidas pelo empregador e que devem ser respeitadas pelo empregado, mantidos os padrões civilizatórios da dignidade e da decência e supondo-se que as ordens digam respeito à organização e aos métodos a serem adotados naquele ambiente de trabalho(2009, p. 28).
A subordinação, face oposta ao poder empregatício, possui natureza jurídica. O empregado, ao submeter-se a um trabalho subordinado, obriga-se a acatar as ordens patronais especificamente no que se refere à atividade produtiva realizada. Não há qualquer interferência nos direitos da personalidade e de cidadania do empregado.
Rodriguez (2000) afirma que o contrato de trabalho não cria apenas direitos e obrigações de ordem patrimonial, mas também pessoal, sendo importantíssimo que ambas as partes atuem com boa-fé. Se nas relações civis os contratantes devem pautar-se pela boa-fé, no tocante à relação de emprego, esta deve mostrar-se ainda mais evidente. Ao admitir um
trabalhador, o empregador deve esperar do obreiro uma atuação digna e comprometida com os fins almejados em benefício da empresa. Frise-se que a desídia é passível de ruptura motivada do pacto laboral. O trabalhador subordinado admite prestar serviços estando ciente de que deverá cumprir com as ordens patronais. Todavia, jamais esperará ter seus direitos como cidadão violados, pois a condição de empregado não se destaca de sua personalidade. Não deixa de ser pessoa humana por estar inserido em uma atividade empresarial dirigida por outrem.
Ao lado da compreensão jurídica da posição do empregado na relação de emprego, cumpre ressaltar a compreensão psicológica deste sujeito que aliena sua força de trabalho mediante remuneração.
Conforme já demonstrando, a ordem industrial taylorista era hierarquizada e implementava rígido controle do tempo e dos movimentos do trabalhador, para canalizar a atividade física do proletariado e o torná-lo mais produtivo. Atualmente, impera o gerencialismo, técnica que procura mobilizar psiquicamente o trabalhador, visando obter o comprometimento deste para com os objetivos da empresa. O poder gerencialista preocupa-se não tanto em controlar os corpos, mas em transformar a energia em força de trabalho. Passa- se do controle minucioso dos corpos para a mobilização psíquica a serviço da empresa. A repressão é substituída pela sedução, a imposição pela adesão, a obediência pelo reconhecimento (CERQUEIRA, 2012).
Agora, impera a mobilização psíquica do trabalhador, tornando-o submisso e ao mesmo tempo produtivo, como se tais fatos lhe acarretassem realização pessoal e enriquecedora. Desaparecem comandos físicos e incidem metas e cobranças psicológicas. Nesse patamar, as inovações tecnológicas contribuem sobremaneira para a pressão pelos resultados, à medida em que não há mais direito à desconexão do trabalho. Em qualquer horário e em qualquer lugar, deverá o trabalhador estar pronto e preparado para responder a um e-mail ou uma mensagem eletrônica.
Hoje, o controle dos trabalhadores adquire nova dimensão nas políticas de recursos humanos: novas técnicas de adestramento dos corpos foram e são aperfeiçoadas. Há controles mais sutis, implícitos na política do envolvimento narcísico, do “vestir a camisa”, através dos programas de auto-estima, afetividade e empatia – ferramentas essas amplamente utilizadas em todos os ramos industriais. Na prática, isso significa afetividade colonizada na conjugação do eu e do nosso, na promessa da satisfação dos desejos individuais submetidos ao “sucesso” empresarial (BARRETO, 2013, p. 101).
como “colaborador”, “associado”, “cooperador”, “parceiro”, “financiador”, todos adotados
para ocultar a submissão e cooptar os trabalhadores segundo os interesses patronais (BARRETO, 2013, p. 101).
O controle exercido pelo capital sobre o trabalho não é mais focado nos tempos e movimentos do corpo; ao invés, é exercido sobre a subjetividade dos empregados, que se integram e entregam à empresa. A mobilização subjetiva das emoções dos trabalhadores configura as novas técnicas de gestão. Por tais razões, deve ser superada a compreensão do assédio moral como um mero conflito interpessoal entre agressor e vítima. O assédio moral é organizacional, e constitui, então, a perpetuação dessa estratégia que funciona à base da violência psíquica. Há uma sedução do indivíduo para os objetivos das organizações, uma interiorização destes objetivos, uma pressão constante para o atingimento das metas e resultados cobrados. O assédio tornou-se, portanto, estrutural (CERQUEIRA, 2012).
Assim sendo, resta demonstrado que, tanto o poder empregatício quanto a subordinação jurídica não autorizam o empregador a realizar, tampouco o empregado a consentir, a prática do assédio moral.
Demonstrado através deste escorço histórico as raízes da violência moral na organização do trabalho – por meio da compreensão do conceito da ética e sua necessária aplicação no mundo do trabalho –, passamos agora a analisar os impactos na saúde dos trabalhadores.