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O Cordel e a propaganda de papel do político

CAPÍTULO I- LITERATURA DE CORDEL: UMA TESTEMUNHA POÉTICA DA

1.5 O Cordel e a propaganda de papel do político

Alguns poetas iam além de seu compromisso comercial com o político e endossavam suas propostas e assumiam publicamente a sua opção de voto pelo mesmo. A declaração do voto ao candidato que encomendara o folheto também pode indicar que o poeta apenas o fizesse para garantir outros trabalhos futuros ou tirar algum proveito da situação. Essa prática de escrever folhetos de “encomenda” entre os poetas pode ser evidenciada a partir de alguns exemplos como os folhetos Candidatura Albano

Franco o camisa 10 de Manoel de Almeida Filho, O Cariri é comigo: Manoel Gaudêncio deputado estadual de Arnor, Carlos Candeia o médico e amigo do povo candidato a deputado estadual PMDB nº 15226 de Antônio Américo Medeiros, Um moço chamado Juca de Zé Laurentino, Para vereador Bendito Nunes Pereira nº 1608 PDS de Samuel Nunes e MDB a bravura de uma mulher Cristina Tavares Correia deputado federal nº 299 de José Francisco Soares que a exemplo dos outros

poetas apela abertamente aos eleitores que votem na sua candidata, assumindo o seu voto na mesma:

Dia quinze de novembro Não vai haver descalabro, Não vou atender ninguém Nem candidato nem cabo, Emburaco na cabine

Voto em Cristina e não abro ( SOARES, 1978,p.7).

seu prestígio enquanto trovador reconhecido, descrevendo geralmente a biografia do candidato, suas ações de governo (caso ele já tenha sido eleito anteriormente) fazendo apologias a figura do candidato tentando assim induzir o eleitor a votar nele. Vejamos mais um exemplo de um folheto de “encomenda” onde o autor usa o pseudônimo de Arnor com o título O cariri é comigo Manoel Gaudêncio deputado estadual. O folheto seguindo as características que lhe são peculiares (encomenda) rende loas ao candidato e convida o eleitor a votar no mesmo:

Amigos paraibanos Pense bem no meu dizer Na hora que for votar Vote em que merecer Vote em Manoel Gaudêncio Para não se arrepender É um deputado bom Para todos nós votar Que tem trabalhado muito Ainda vai trabalhar Não despreza a região Toda semana está lá (ARNOR, 1986, p.8)

Nem todos os poetas que faziam folhetos de temática política por encomenda, visando promover a imagem do político, assinavam as obras como sendo suas, na verdade em muitos folhetos a autoria é atribuída a um “autor desconhecido” ou anônimo e produzido em larga escala objetivando alcançar o eleitorado do postulante. Entre as possíveis razões pelas quais os poetas não assumiam a autoria destes folhetos se dava pelo fato do poeta não querer se comprometer com o político por este ter em sua trajetória política algo que desabone a sua conduta, vindo assim a perder espaço e credibilidade. Outra possível razão se dava pelo fato de que assumindo um determinado político, partido ou ideologia o poeta estaria restringindo o seu campo de atuação impedindo-o de utilizar seu talento poético a serviço da situação e da oposição para auferir alguma vantagem, e ainda outro motivo seria pelo fato de que o anonimato não traria implicações jurídicas ou processuais pelo que fora dito pelo poeta no folheto em relação ao candidato de oposição ou situação. É significativo o número de folhetos escritos sobre a temática política onde o poeta não assume a sua autoria. Podemos citar como exemplo os folhetos de títulos: O menino Zé que ia ser Padre e se tornou

advogado ou o nosso deputado Zé leite, João Agripino, Cordel de um poeta guarabirense: Robson Paulino deputado federal nº 1502, Vote deputado federal

Edivaldo Motta o defensor dos pobres.

Na Paraíba no ano de 1990 na eleição para governador foi lançado um folheto anônimo de título O Diabo do calibre 12 contra o Anjo da Poesia. Este folheto é um exemplo do que mencionamos acima. O folheto versa sobre os dois principais candidatos ao governo. O cenário de representação é composto da seguinte forma: O primeiro candidato de nome Wilson Braga é representado em um desenho na capa do folheto como sendo o Diabo “vestido” de armas e “bombas” e um número doze (12) estampado no peito que é o número do seu partido, mas que é utilizado como sendo o calibre de uma arma de fogo, enquanto que o outro candidato de nome Ronaldo da Cunha Lima é representado por um anjo que traz em suas mãos uma viola. O Wilson Braga é apresentado na imagem como estando embaixo no plano inferior, enquanto que o Ronaldo é apresentado em figura celestial como estando acima no plano superior:

A referência feita ao candidato Ronaldo Cunha Lima como sendo o “anjo da poesia” diz respeito também, ao fato do mesmo ser um poeta que em sua trajetória política sempre fez uso do seu dom poético para matizar os seus

discursos e atrair para si a simpatia dos eleitores. O Ronaldo Cunha Lima se notabilizou e se tornou conhecido nacionalmente como poeta após participar em 1988, de um concurso em um programa na rede de televisão Manchete de nome

Sem Limite, onde o poeta Ronaldo respondia perguntas feitas sobre o conhecido

poeta paraibano Augusto dos Anjos. O que chamava a atenção era o fato do poeta e político responder as perguntas a ele feitas todas em versos. Outro episódio pitoresco ocorrido na vida do político poeta se deu quando o mesmo sensibilizado ao saber da prisão do violão de alguns boêmios que estavam fazendo uma serenata em junho de 1955, escreveu uma petição em forma de soneto pedindo ao juiz que liberasse o violão. Nos versos intitulado de Habeas

Pinho, o poeta mostra toda a sua habilidade poética para convencer o juiz de

liberar o violão, como podemos observar no exemplo de alguns versos citados abaixo:

O instrumento do “crime” que se arrola Nesse processo de contravenção Não é faca, revolver ou pistola, Simplesmente, Doutor, é um violão Um violão, doutor, que em verdade Não feriu nem matou um cidadão Feriu, sim, mas a sensibilidade De quem o ouviu vibrar na solidão Seu viver, como o nosso, é transitório. Mas seu destino, não, se perpetua. Ele nasceu para cantar na rua E não para ser arquivo de Cartório. Liberte o violão, Doutor Juiz, Em nome da Justiça e do Direito. É crime, porventura, o infeliz

Cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Após receber a petição em versos o juiz Arthur Moura, convencido da missiva resolve atender ao pleito libertando finalmente o violão. O juiz também responde e atende o pleito em versos:

Recebo a petição escrita em verso E, despachando-a sem autuação, Verbero o ato vil, rude e perverso, Que prende, no Cartório, um violão. Emudecer a prima e o bordão,

Nos confins de um arquivo, em sombra imerso, É desumana e vil destruição

De tudo que há de belo no universo. Se grato for, acaso ao que lhe fiz, Noite de luz, plena madrugada, Venha tocar à porta do Juiz. (LIMA, 1959).

Os versos anônimos, inicialmente apelam para consciência do eleitor convidando-o a julgar entre as duas candidaturas num jogo maniqueísta de bem e mal, de anjo e demônio, deixando implícito os supostos crimes de assassinato que ao candidato Wilson são atribuídos quando ele era governador:

Pegue cada candidato E observe com atenção, Se é honesto ou ladrão, Se mandou matar alguém E se alguma mancha tem Na justiça ou na polícia - se houver uma notícia, Esse homem não convém. Foi o governo do crime, Do assassino cruel, Do bandido de aluguel, Com direito a proteção De quem lhe armava a mão Pra novas vidas ceifar, Foi o jornal publicar E mataram Paulo Brandão (1990, p.1 e 5).

Percebe-se ao longo do folheto e a partir da própria capa o uso de símbolos e discursos religiosos visando divinizar um candidato e demonizar o outro, nunca clara apelação ao sentimento religioso presente na cultura brasileira. A utilização do misticismo religioso se constitui também em uma característica presente nas práticas políticas do Brasil. Os versos seguintes comparam os dois políticos apontado os supostos defeitos do Wilson Braga ( demônio) sendo apresentado como corrupto e as virtudes do Ronaldo Cunha Lima (anjo) apresentando-o como o candidato ideal para salvar e redimir o estado da Paraíba:

No dia 3 de outubro Deste ano de noventa, Toda Paraíba, atenta Entrará numa eleição,

Pra votar de coração, No candidato da paz, Naquele que é capaz De trazer a redenção Desta vez, vamos votar Com coragem e rebeldia, Escolhendo, com alegria, Aquele que está por cima E que é melhor na rima De trabalho e honradez: Em Ronaldo Cunha Lima! (1990, p. 2 e 4).

Ainda identificamos outra modalidade de anonimato dos poetas populares, que consiste na prática de alguns poetas, de colocarem um pseudônimo para assim ficarem isentos e não assumirem a responsabilidade pelas palavras ditas. Essa prática é comum principalmente quando o poeta escreve folhetos com um tema que no conceito popular fogem a regra da moral e dos “bons” costumes, como quando ele versa sobre sexo, aborto, homossexualismo, prostituição e política. Podemos citar como exemplo do uso de pseudônimo com relação à temática política o folheto intitulado Um poeta no

governo editado em 1993 O folheto faz uma descrição apologética dos três primeiros

anos de mandato do governador da Paraíba Ronaldo Cunha Lima, porém o autor não assume a autoria vindo a utilizar o pseudônimo de Zé da Viola. Ao que parece o folheto em questão deve ter sido encomendado pelo governador citado e os versos deixam claro o objetivo do folheto:

Com três anos de governo, Já se pode avaliar,

Que o povo, para acertar, Deve escolher com firmeza. Foi Ronaldo Cunha Lima Que deu a volta por cima E acabou com a incerteza. Agora, o que a gente vê, Nos quatro cantos do Estado, É obra pra todo lado

Sem dever nada a ninguém. É a Paraíba sorrindo, Muito feliz aplaudindo, O governo que ela tem (1990, p. 6).

O uso do anonimato e de pseudônimos por parte dos poetas populares ao escrever alguns folhetos de temática política, principalmente quando se trata de fazer

propaganda de um candidato evidenciam uma forma de participação política indireta e descomprometida podendo ser interpretada com uma prática de mercantilização política por parte do poeta popular. O poeta popular ao versar a respeito da política usa toda a sua ironia e sátira para mergulhar no imaginário popular fazendo uma incursão pelos temas da política que povoaram a memória coletiva e formaram entre práticas e representações o universo da cultura política brasileira. O poeta discorre assim em seus versos os temas da política que foram “caros” a época em que foram produzidos atraindo grande interesse popular o que pode ser comprovado pelo significativo número de folhetos, escritos sobre temas que perpassam a política nacional, principalmente quando estes destacaram o imaginário político expresso no cordel a respeito da figura do candidato, dos partidos políticos, da relação paternalista do Estado brasileiro e das lutas e manifestações populares pelo retorno das eleições diretas. Veremos assim a seguir os principais temas da política que mereceram destaque à luz da literatura de cordel.

CAPÍTULO II – TEMAS RECORRENTES DO CENÁRIO