CAPÍTULO II (RE)CONSTRUÇÃO DA(S) IDENTIDADE(S) DE GÉNERO
2. A identidade de género
2.3. O corpo, a sexualidade e a identidade de género
O corpo articula-se com a problemática da identidade através da forma como é representado e auto-representado, a maneira como o (e nos) interpretamos é fundamental para o entendimento de quem somos. O ponto essencial deste pressuposto está na forma como os corpos falam e não apenas, em si mesmos, como entidades biológicas e materiais. Esta visão de um corpo significante está presente no pensamento de Elizabeth Grosz (1995), quando afirma que “os corpos articulam discursos, sem necessariamente falarem, porque são codificados como signos” (Grosz, 1995, citada por Macedo e Amaral, 2005f, p. 26). Assim, o corpo é conceptualizado como sendo susceptível de interpretação e, simultaneamente, instrumento de transmissão de signos imersos num contexto cultural que lhes dá significado.
Na tentativa de descrever e compreender a identidade de género, tanto na epistemologia do senso comum, como também no discurso científico sobre as diferenças biológicas, entre mulheres e homens, encontramos frequentemente a associação da identidade ao corpo. É inegável a diferenciação biomorfológica entre os sexos evidente, sobretudo, na forma dos órgãos sexuais e no ciclo reprodutivo, em que o sexo feminino assume a função biológica da maternidade. No entanto, alguns autores defendem que esta diferenciação se estende à forma como se processa a relação intra e inter-sexos.
Também neste sentido, Paula Silva (2010) afirma que “o corpo é o que temos mas também o que somos, é um instrumento e um objecto de prazer que para além de nos identificar, facilita ou embaraça nas relações com os outros, concede ou restringe o acesso a espaços sociais” (p. 85), ilustrando, desta forma a importância do corpo na definição dos indivíduos e na sua instrumentalidade na relação com o outro, o que é claramente um processo complexo que indica os significados sociais que lhe estão associados.
No início do século XX, Georg Simmel (1989, citado por Collin, 1995, p. 316) defendia uma perspectiva enquadrável na metafísica dos sexos, que se traduz numa visão essencialista, ao afirmar que existe uma diferença essencial, ou mesmo natural, entre mulheres e homens, sendo que esta diferença define as suas respectivas especificidades, ou melhor, a especificidade das mulheres e a assimilação dos homens à generalidade.
Esta perspectiva está indissociavelmente ligada ao papel da sexualidade na afirmação da individualidade. Sendo que, segundo Georg Simmel (1989), a mulher está integralmente imersa na sua feminilidade, a sua relação com o seu sexo é centrípeta e intrínseca: não depende da sua relação com o homem. Para o mesmo autor, no entanto, a masculinidade é centrífuga, já que o homem só se define ao sair de si mesmo e afirma-se como sexuado na sua relação com a mulher. Nesta perspectiva, a feminilidade e a masculinidade pressupõem diferentes formas e processos de apropriação pelos sujeitos. As mulheres assumiriam uma identidade em que a sua individualidade e feminilidade se sobrepõem, e enquanto que o processo de construção da masculinidade difere da individualidade, o que exigiria do homem a concretização da relação heterossexual. Esta perspectiva apresenta, então, dois níveis de afirmação da diferença entre homens e mulheres: um primeiro nível que se consubstancia na constatação da diferença anatómica e de modos de ser entre os sexos, numa perspectiva essencialista e, um segundo nível que decorre do primeiro e que está ligado à forma como homens e mulheres se relacionam com o mundo e com a sexualidade, existindo, portanto, dois registos sexuados heterogéneos.
Quando falamos do corpo e da sua relação com a construção da identidade de género, temos que referir a psicanálise, uma vez que se constitui como um corpus teórico que estuda o desenvolvimento humano, centrando-o nos aspectos relativos ao
desenvolvimento da sexualidade que não pode ser entendida separadamente do corpo. O corpo é, então, o veículo através do qual a sexualidade se expressa e, neste sentido, a forma como é vivenciado o corpo repercute-se na sexualidade. Um outro aspecto que torna pertinente a análise das questões inerentes ao corpo e à sexualidade através da lente teórica da psicanálise é a separação entre sexualidade e reprodução. De acordo com Maryse Jaspard (2005), a perspectiva freudiana, através desta separação, permite uma nova leitura das manifestações sexuais. Contudo, e mesmo reconhecendo a utilidade das perspectivas psicanalíticas para a interpretação das questões do corpo e da sexualidade na construção da identidade de género, é importante não esquecer as insuficiências e fragilidades destas abordagens teóricas, para a leitura das complexas questões que se levantam quando nos debruçamos acerca da identidade de género, principalmente, no que se refere ao seu carácter androcêntrico.
Na tentativa de ultrapassar a subalternização do feminino decorrente das propostas psicanalíticas surge a Teoria da Libertação. Conjugando aspectos da teoria marxista com aspectos da teoria psicanalítica, a Teoria da Libertação de Shulamith Firestone (1970) procura traçar um projecto de libertação da mulher, entendida como sujeito oprimido no domínio da expressão da sua sexualidade, considerando que a questão feminina se situa no quadro da dominação do homem sobre a sexualidade da mulher e que a libertação da mulher do sistema de patriarcado passaria pela eclosão da estrutura familiar, através da socialização dos cuidados com as crianças” (Amâncio, 1994, p. 25). Assistimos, portanto, à substituição do factor de subordinação, deixando de ser a classe social para passar a ser a relação entre os sexos, embora esta possa assumir configurações distintas em função da classe social. Neste sentido, esta relação de desigualdade entre homens e mulheres, justificada pela expressão/repressão da sexualidade pode ser mais ou menos subtil em função da classe social de pertença, sem que deixe, em qualquer dos casos, de estar presente.
Numa análise sociológica da sexualidade e do comportamento sexual, Anthony Giddens (1997), não menosprezando as questões biológicas relativas à sexualidade e reprodução, refere que os comportamentos sexuais são profundamente influenciados pelos contextos e interditos sociais e, ainda, que a normalidade e juízo de valor moral acerca destes comportamentos e atitudes podem variar quando nos referimos a homens ou a mulheres, constatando a existência de um padrão duplo de comportamento.
Ainda de acordo com o mesmo autor, actualmente, nas sociedades ocidentais, verifica-se a existência simultânea de atitudes mais tradicionais e de atitudes mais liberais face à sexualidade. Se, por um lado, em alguns segmentos da população, principalmente nos mais influenciados pelas doutrinas cristãs, se verifica ainda a reprovação do sexo pré-matrimonial e homossexual, apesar da aceitação progressiva do sexo como um elemento prazer na relação matrimonial, mas apenas no âmbito de relações heterossexuais oficializadas pelo matrimónio. Por outro lado, as atitudes mais liberais face à sexualidade têm vindo a ganhar expressão a partir dos anos 60 do século XX. Estas atitudes são típicas de grupos que são caracterizados pela não reprovação do sexo anterior ao casamento e por atitudes de tolerância e aceitação de outras sexualidades que não as heterossexuais.
Mas, ainda em relação à diferença de atitudes e comportamentos entre homens e mulheres, a respeito da sexualidade, gostaríamos de referir os trabalhos de Alfred Kinsey e colaboradores (1953, citado por Giddens, 1997, p. 102) que, nos anos 40 e 50 do século XX, levaram a cabo um estudo que pretendia caracterizar o comportamento sexual dos cidadãos norte-americanos de ambos os sexos, tendo concluído que 84% dos homens afirmavam ter tido pelo menos uma experiência sexual anterior ao casamento e que 40% esperava que a sua esposa fosse virgem para o casamento. No grupo das mulheres apenas 50% afirmavam ter tido pelo menos uma experiência sexual anterior ao casamento e destas a maioria referia que tinha sido com o seu marido (Kinsey e colaboradores, 1953, citados por Giddens, 1997). Como podemos verificar, os dados apresentados revelam uma enorme diferença entre as respostas de homens e mulheres no que respeita ao seu comportamento sexual.
A publicação dos resultados dos estudos de Alfred Kinsey e colaboradores89 causou um profundo impacto na opinião pública norte-americana, tendo contribuído decisivamente para a reflexão e o questionamento acerca do que era considerado como comportamento sexual ajustado e saudável, designadamente no que se refere ao modelo familiar em vigor na década de 40 e 50 do século XX.
Nos anos 60, do século XX, principalmente sob influência do movimento hippy e também dos movimentos estudantis, as normas sociais começam a ser fortemente
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O Relatório Kinsey, foi publicado em 2 volumes: o primeiro volume com o título Sexual Behavior in the Human Male, em 1948, e o segundo volume, Sexual Behavior in the Human Female, em 1953.
contestadas e, consequentemente, também o foram as normas específicas respeitantes à sexualidade. A liberdade sexual constituía uma das principais reivindicações destes grupos, o que era apoiado pela invenção e comercialização da pílula contraceptiva que separava, definitivamente, a sexualidade da procriação Os movimentos feministas tiveram também um papel fundamental, quer na generalização do planeamento familiar, quer na reivindicação do direito da mulher a uma vida sexual gratificante.
Referindo mais especificamente os movimentos feministas, destacamos que a partir da década de 60, do século XX, as questões do corpo e da sexualidade marcam profundamente a agenda feminista, designadamente, certas problemáticas como o aborto ou a violência sexual, no ocidente, e questões como a excisão clitoriana, em alguns países africanos, e a prática da fogueira ritual para as viúvas na Índia (Ergas, 1995). De acordo com Yasmine Ergas (1995), estas questões relativas ao corpo estão associadas “à ligação entre o reino do corpóreo e a constituição da subjectividade” (p. 600), defendendo a apropriação do corpo como estratégia de apropriação do seu eu. Neste sentido, para muitas feministas, libertar a mulher da dominação masculina implicava lutar pela liberalização da contracepção e do aborto90, ou seja, atribuir à mulher o poder de decisão em relação ao seu corpo e à maternidade.
A respeito das questões da sexualidade e da reprodução Boaventura de Sousa Santos e colaboradores (2010) referem as questões da cidadania intima91 e da cidadania sexual92 como áreas fundamentais para a reflexão em torno dos direitos das mulheres.
Como referimos anteriormente, a importância do corpo como significante remete para a análise dos seus significados ao longo do tempo. Nesta medida, na tentativa de perceber se o comportamento sexual tinha mudado desde o estudo de Alfred Kinsey, atrás referido, Lillian Rubin (1990, citada por Giddens, 1997, p. 102) entrevistou mil norte-americanos com idades compreendidas entre os 13 e os 48 anos e constatou mudanças consideráveis a nível dos comportamentos sexuais. A iniciação sexual era
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A questão da liberalização do aborto não é consensual, sendo que alguns movimentos feministas defendem que a liberalização do aborto serve apenas para reforçar os privilégios masculinos (Ergas, 1995).
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Os autores (Santos et al., 2010) referem a cidadania íntima, citando Ken Plummer (2003), como a necessidade de reflectir e construir um discurso público sobre a vida privada, neste sentido todas as esferas de relação privadas estariam incluídas neste conceito, não apenas a sexualidade, mas também as relações de amizade, o casamento e os cuidados com a família.
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Relativamente à cidadania sexual os autores (Santos et al., 2010) referem Diane Richardson (2000) que advoga a utilização deste conceito para designar especificamente os direitos sexuais concedidos ou negados a indivíduos ou grupos sociais.
agora mais precoce, continuava a verificar-se um duplo padrão93 de comportamentos para homens e mulheres, embora menos significativo do que o encontrado no estudo de Alfred Kinsey. Outra diferença encontrada foi a constatação de que as mulheres entrevistadas manifestaram a expectativa de satisfação na relação e não apenas a expectativa de proporcionar prazer ao seu parceiro.
Através da análise dos resultados obtidos, Lilian Rubin (1990, citada por Giddens, 1997) concluiu existir agora uma maior liberalização do comportamento sexual das mulheres, mudança esta vista como positiva pela maioria dos homens. Contudo, identificou também um certo desconforto masculino que se consubstanciava numa falta de assertividade masculina, que os homens consideravam difícil de aceitar, a qual se traduzia num sentimento de não saber como agradar uma mulher, nos nossos dias, ou por não terem a certeza de estarem a fazer o que está certo. Em nosso entender, isto parece indicar que as mudanças nos comportamentos sexuais, principalmente por parte das mulheres, podem estar na origem deste desconforto masculino.
Para finalizar esta reflexão em torno do corpo, salientamos a importância de que se reveste esta temática para o feminismo. Considerando que para o feminismo o corpo é uma entidade política inscrita, sendo a sua fisiologia e morfologia moldada e marcada culturalmente por práticas históricas de condicionamento e controlo, retomamos, deste modo, a influência de Michel Foucault (1990) que considera que o corpo deve ser entendido na teia das relações de poder que lhe dão forma e o disciplinam (citado por Hoogland, 2007).
Do mesmo modo, Chrys Ingraham (2006) afirma que os modelos de género que se fundamentam no corpo são considerados cada vez mais escorregadios, justificando este atributo com a constatação da aceitação, cada vez mais generalizada, de “que o género e a sexualidade operam de uma forma flexível e variável ao longo da vida” (p. 319) e, que esta aceitação está ligada ao momento histórico que facilita, ou dificulta, o entendimento da diversidade de formas de vivenciar o corpo e a sexualidade. Contudo deixa claro que quando se estudam temáticas (aparentemente) relacionadas com o corpo
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A referência a um duplo padrão de moralidade para homens e mulheres é também feita por Verónica Policarpo (2011) ao caracterizar as assimetria de género existentes nas décadas de 50/50 do século XX, no que se refere ao comportamento sexual. A mesma autora indica ainda que apesar das transformações sociais que marcaram a segunda metade do século XX no que concerne às questões da sexualidade, no final da década de 90 continuam a persistir desigualdades relevantes nos percursos e trajectórias de vida de homens e mulheres que se repercutem também na área da sexualidade.
como, por exemplo, a violência doméstica ou as desordens alimentares94, não se estuda o corpo mas sim o significado que damos ao corpo, sendo que estes significados estão intimamente relacionados com o exercício do poder.
O corpo acaba, então, por ser instrumento na definição da identidade de género, mas também uma entidade instrumentalizada em função do mesmo processo de construção ou reconstrução da entidade. É, simultaneamente, matéria-prima e produto de processos culturais que lhe conferem significado, e são também estes significados que estão investidos de um poder que se exerce sobre as pessoas que nascem, crescem, se desenvolvem e modificam, na medida da sua existência corpórea e que atribuem lhe significados na medida da sua existência social e cultural.
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ONCLUSÃONeste capítulo procurou-se salientar o carácter dinâmico e plural das identidades de género. Neste sentido, a identidade é vista como um processo em permanente construção, que resulta da interacção de um determinado espaço e tempo com a forma como o sujeito se posiciona e interpreta nestes dois eixos identitários. Estamos perante o espaço como comunidade e o tempo como espaço de vida: como passado e como projecção de futuro. Esta perspectiva valoriza o efeito do meio, mas não de uma forma determinista. Percebe e integra a actualidade como complexa, pelo que, o sujeito, que se situa nessa complexidade, é também ele alvo de influências múltiplas que terá de (ou poderá) integrar na sua narrativa, que constitui o discurso, mais ou menos, organizado sobre quem é.
Neste enquadramento, foram abordadas algumas perspectivas teóricas sobre a identidade e salientadas as insuficiências das abordagens essencialistas para a compreensão dos processos de tomada de consciência de si mesmo por parte do sujeito, enquanto inserido num grupo social e sendo influenciado por ele.
Reflectimos também acerca das limitações das visões meramente deterministas que definem o meio como único factor determinante na constituição da pessoa e na sua
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Podemos acrescentar a estas problemáticas, exemplos como as dietas, as cirurgias estéticas, as técnicas de procriação medicamente assistida, a maternidade e o parto, entre muitos outros.
compreensão enquanto sujeito e não como mero objecto em que se espelham as características do ambiente.
Desta forma, optámos por uma visão de identidade que tem em conta a influência que o contexto social opera nos sujeitos, uma vez que é nestes contextos que os indivíduos encontram disponíveis os significantes e os significados que utilizam para se descreverem, compreenderem e interpretarem o outro, mas que, simultaneamente, conferem à pessoa o estatuto de sujeito de si, no processo de definição, ou redefinição de si própria.
Seguidamente, abordamos, de uma forma mais específica, a identidade de género. Neste ponto, valorizámos o significado social de se ser homem ou mulher e a impossibilidade de se ser apenas humano, uma vez que, num determinado contexto social não é possível uma existência não gendrificada. Contudo, nesta reflexão sobre o que é ser-se mulher, ou homem, fomos identificando outros eixos identitários que se cruzam com o género, dando conta da chamada interseccionalidade de género. E, tendo em conta os objectivos gerais deste trabalho, considerámos pertinente a questão da pertença social, a questão da dinâmica associada ao significado que o sujeito atribui à sua feminilidade ou masculinidade, em função das etapas ou fases da vida em que se encontra. E, por fim, abordámos questões relativas ao corpo e à sexualidade e à sua possível influência na forma como as pessoas constroem e (re)constroem a imagem que têm de si próprias, assim como a influencia que operam na maneira como interagem com os outros, também eles, seres gendrificados.
Na nossa opinião, esta visão de identidade permite uma aproximação aos movimentos feministas pós-modernos, uma vez que possibilita a integração das suas contribuições na discussão acerca da identidade de género. Neste sentido, propomos a aceitação de uma certa interseccionalidade do género para ilustrar como a pertença social pode ser relevante na construção do discurso sobre a feminilidade ou a masculinidade.
Por outro lado, ao considerarmos a identidade um processo dinâmico, teremos de conceptualizar a identidade de género como resultante das experiências de vida que as pessoas vão vivenciando e das oportunidades e possibilidades que o seu contexto parece disponibilizar em função do sexo.
Assim, ao longo da vida, o género pode ser vivenciado de forma diferente, acabando por significar, para a pessoa, coisas diferentes em diferentes, em função das expectativas que os outros e a própria têm, em relação ao que é ser-se feminina ou
masculina, em determinada circunstância. Por outro lado, a possibilidade desta diversidade disponível, quer em termos pessoais, quer em termos sociais, torna insuficiente a visão inflexível de feminilidade ou de masculinidade, como dimensões estáveis ao longo da vida. Cada vez mais se percebe e aceita a co-existência de feminilidades e masculinidades, num plural que garante a possibilidade de se ser diferente ou, pelo menos, de não se ser sempre igual, o que permite falar de identidades de género, no plural, num mesmo indivíduo.
É, em consequência do exposto, que a diferença e a diversidade se destacam nesta análise. Os feminismos, as feminilidades e as masculinidades, as identidades, são conceitos no plural. Este plural pretende ser a expressão da insuficiência do singular, que se caracteriza como categoria estanque e hermética e que, por isso, se manifesta insuficiente para perceber a forma como as diferentes vidas são, se constroem e interpretam. E, neste sentido, conceptualizar estas questões no plural permite a organização de um conhecimento sobre a diversidade que caracteriza a(s) vida(s), ou seja, de um conhecimento que se constrói a partir das vivencias, particulares e contextuais, destas diversidades.
No capítulo seguinte serão abordados os estereótipos de género, uma vez que estão presentes e marcam profundamente os sujeitos, quer na forma como definem a(s) suas identidades, quer no modo como interpretam e desempenham o género, quer, ainda, nas oportunidades e possibilidades que enformam as escolhas individuais. Posteriormente, propomos a análise das principais transformações dos papéis das mulheres, em Portugal, nos últimos anos. Procuraremos, em linhas gerais, demonstrar as mudanças sociais e políticas que possibilitaram que, num curto espaço de tempo, os modelos de feminilidade se alterassem e, simultaneamente, referir a permanência de estereótipos associados ao género que ainda prevaleçam e condicionam a forma como a feminilidade é experienciada.