CAPÍTULO 2. O CORPO COMO LINGUAGEM, REPRESENTAÇÃO, E
2.1 O corpo como resultado de processos socioculturais
Para Lucas e Hoff (2008), o corpo conta uma história. Essa história seria a dos valores, dos saberes e das relações de força. Essas autoras, baseadas em Foucault (1999), consideram que o saber sobre o corpo se desenvolve a partir do século XVII, com a medicina, e expande-se, no século XIX, para outros campos como a sexualidade, a psicanálise, a psiquiatria, etc. Desse modo, na modernidade, o corpo foi submetido a um mecanismo social disciplinar, ou seja, uma nova maneira de administrar os homens, controlar suas multiplicidades, utilizá-las ao seu grau máximo e elevar o efeito útil de seu trabalho. Assim, sobreleva-se o suporte de disciplina do corpo como adequação às normas e às necessidades da fábrica, a força ativa da produção, marcada no início do século XX com a expansão da sociedade industrial.
Para Casaqui e Hoff (2010), no âmbito do imaginário do período moderno, o corpo pode ser pensado como uma ―realidade biopolítica‖. Sobre esse tema, os referidos autores completam:
Trata-se de uma racionalização dos problemas que se apresentam ao governo e que exigem mecanismos de poder mais adequados e mais rigorosos, de modo que o biopoder atua no âmbito das cidades, espaço das populações por excelência, e também no âmbito do corpo, lócus de individuação e construção de subjetividades. O corpo é, portanto, uma ―realidade biopolítica‖ que sofrerá os impactos das ―estratégias biopolíticas‖ como a medicina, a demografia e o urbanismo (CASAQUI e HOFF, 2010, p.50).
Ainda para Casaqui e Hoff (2010), essas transformações identificadas no transcorrer do século XX podem ser analisadas como consequência da expansão do biopoder. Esses dois autores, apoiados nas ponderações de Revel (2005), revelam a forma de poder que governa não somente indivíduos, por meio de certo número de procedimentos disciplinares, mas também como o conjunto dos viventes constituídos em população.
Essa questão do controle social da corporeidade também é defendida por Le Breton (2007). Para este autor, a questão do poder e, principalmente, da ação do político sobre os corpos são resultantes do controle social. ―O corpo também é, preso no espelho do social, objeto concreto de investimento coletivo, suporte de ações e de significações, motivo de reunião e de distinção pelas práticas e discursos que suscita‖ (LE BRETON, 2007, p.77).
Para Casaqui e Hoff (2010), a passagem da modernidade para o período em que vivemos foi realizada exigindo novos significados para o corpo, já que as relações de consumo ganham preponderância sobre as de produção. Assim,
O trabalho executado na rígida disciplina da fábrica fordista, por exemplo, perde o sentido de esforço físico ritmado ao compasso das máquinas para revestir-se da noção de felicidade e prazer. A noção de entretenimento, aspecto fundante da sociedade contemporânea, liberta o corpo da rotina do trabalho e instaura os prazeres do consumo: na mídia (...) jamais se divulgaram tanto as noções de felicidade e de cuidado do corpo, denunciando que a regulação da vida está sob a responsabilidade do indivíduo, ou seja, a gestão da vida está circunscrita no âmbito individual. O sentido do trabalho como produção coletiva — da fábrica, do exército, do povo de um país — dilui-se na medida em que as práticas de consumo se intensificam.
Deste modo, podemos dizer que o biopoder está alicerçado numa gestão da vida por meio da experiência do consumo (CASAQUI e HOFF, 2010, p.50-51).
Esse novo parâmetro de análise para a contemporaneidade possibilita, de certa forma, afirmarmos um lugar fundamental ocupado pelo corpo na sociedade de consumo.
E, ao que nos cabe, revelar neste estudo as suas possibilidades de ser portador de linguagem, diferença e representação, além de ser apropriado pela mídia e pelo futebol.
Abordaremos todos esses aspectos na sequência deste capítulo.
Para Le Breton (2007), podemos entender as representações do corpo como as representações da própria pessoa. Para esse autor, as representações do sujeito estão
sempre inseridas nas visões do mundo das diferentes comunidades humanas. Sobre esse parâmetro, ele completa:
O corpo é o vetor semântico pelo qual a evidência da relação com o mundo é construída: atividades perceptivas, mas também expressão dos sentimentos, cerimoniais dos ritos de interação, conjunto de gestos e mímicas, produção da aparência, jogos sutis da sedução, técnicas do corpo, exercícios físicos, relação com a dor, com o sofrimento, etc.
Antes de qualquer coisa, a existência é corporal (LE BRETON, 2007, p.7).
O corpo nesse contexto é complexo, além de construído socialmente:
O corpo parece explicar-se a si mesmo, mas nada é mais enganoso. O corpo é socialmente construído, tanto nas suas ações sobre a cena coletiva quanto nas teorias que explicam seu funcionamento ou nas relações que mantém com o homem que encarna. A caracterização do corpo, longe de ser unanimidade nas sociedades humanas, revela-se surpreendentemente difícil e suscita várias questões epistemológicas.
O corpo é uma falsa evidência, não é um dado inequívoco, mas o efeito de uma elaboração social e cultural (LE BRETON, 2007, p.26).
Essa complexidade relativa ao entendimento do corpo e suas representações tornam-se mais explicitas a partir do século XIX, quando estudiosos de diferentes áreas dedicam-se a estudá-lo e intensifica-se ao longo do século XX. Podemos dizer que esse é o período da invenção teórica do corpo.
Para Corbin, Courtine e Vigarello (2008), essa invenção surgiu em primeiro lugar da psicanálise, com Freud, que definiu que o inconsciente fala através do corpo.
Seguiu-se a este um segundo passo, que talvez se possa atribuir à ideia que Edmund Husserl fazia do corpo humano como o ―berço original‖ de toda significação. Para esses autores, a terceira etapa dessa descoberta do corpo emergiu do terreno da antropologia, quando Marcel Mauss observou, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a infantaria britânica desfilar num passo diferente do passo dos franceses, caracterizando uma nova noção de técnica corporal. A partir dessa perspectiva, Mauss fez uma reflexão histórica e antropológica do tema. Dessa forma, na visão de Corbin, Courtine e Vigarello (2008), pode-se dizer que o corpo foi ligado ao inconsciente, amarrado ao sujeito e inserido definitivamente nas formas sociais da cultura.
Outro grande salto na forma de tratamento do corpo pode ser evidenciado a partir da década de 1990, período em que a Conferência Geral da Unesco adotou uma Declaração Universal sobre o Genoma Humano e os Direitos Humanos. Dessa forma, a
genética constituiu um conjunto de predisposições e de probabilidades que permitem prever os comportamentos futuros de indivíduos aparentemente saudáveis e normais:
O corpo genético é então o corpo quadriculado da população, corpo atravessado por normas e regularidades. Lugar do controle e da formação do ―eu‖. Nestes três sentidos, ao menos, a genética transformou e contribuiu para transformar, com outras mutações, o nosso olhar sobre o corpo: corpo digitalizado e programado do homem universal, corpo sofredor, exposto e, no entanto, ativo do enfermo, corpo quadriculado e normado da população (CORBIN, COURTINE e VIGARELLO, 2008, p.85).
Ainda para Corbin, Courtine e Vigarello (2008), o corpo também ocupa um lugar no espaço. E ele mesmo é um espaço que possui seus desdobramentos. Esse corpo físico, material, pode ser tocado, sentido, contemplado. Ele é essa coisa que os outros veem, sondam em seu desejo. Para esses autores, falar da história do corpo equivale a olhar tudo que cerca o indivíduo e o contextualiza. Dessa forma, estaríamos, definitivamente, diante de um tema de infinitas proporções. ―Na história do corpo revela-se o universo cultural, religioso, social e econômico do indivíduo e da sociedade.
A história do corpo é a história da própria vida humana‖ (CORBIN, COURTINE e VIGARELLO, 2008, contracapa 1).
A partir dos tópicos que ressaltamos até aqui, podemos defender que o corpo então passa a ocupar lugar central na História e nas ciências sociais, é passível de uma ação da biolítica e, sobretudo, é a materialização da existência do sujeito e marca a sua relação com o mundo. A partir dele podemos discutir as suas questões em âmbito social, como produto de uma sociedade e sobre as suas questões éticas, as suas performances e as deficiências de desempenho esportivo por meio do jogo de futebol, por exemplo.
Complementarmente, também entendemos que seja possível fazer a avaliação do corpo do jogador de futebol e suas transformações a partir de seu desempenho, ou seja, em movimento.