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O corpo: diferentes materialidades significantes

CAPÍTULO I: CORPO E ESCRITA DE S

1.1. O corpo: diferentes materialidades significantes

Inscrito na tradição materialista da análise de discurso, este estudo propõe compreender o corpo do sujeito em um espaço peculiar de celebração contemporânea, a festa rave. Para tanto, analiso as significações do corpo textualizadas em diferentes materialidades significantes e que circulam, pois, nas redes de sociabilidade presentes na Internet. São imagens, fotografias, vídeos, sons e enunciados verbais que compõem um corpus heterogêneo, cuja especificidade consiste em mostrar corpos no espaço da festa, embalados pelo ritmo da música e inscritos em certas tecnologias corporais: a inscrição na pele, a dança e a medicalização do corpo.

A perspectiva materialista e o trabalho simbólico sobre o significante se fazem presentes na formulação da noção de materialidades significantes. Orlandi coloca a questão da materialidade significante em sua teorização sobre o silêncio: “Ce qui revient à dire que la materialité signifiante du silence ne peut être confondue avec celle du langage, ce qui implique des instruments d’analyse différents dans les deux cas” (ORLANDI, 1993). Ou seja, diferentes materialidades significantes exigem diferentes instrumentos de análise e diferentes gestos de interpretação (ORLANDI, 2007), e colocam em jogo a relação entre a materialidade e a história, permitindo compreender o trabalho simbólico da contradição e da incompletude.

A materialidade é, nesses termos, o modo significante pelo qual o sentido se formula (LAGAZZI, 2010). Assim, ao analisar o corpo textualizado em diferentes materialidades significantes, procuro mostrar que a própria corporalidade é também uma materialidade significante, discursividade inscrita em condições de produção fronteiriças.

Se por um lado a incompletude (e o movimento que ela instaura) possibilita o sentido, a errância dos sentidos e dos sujeitos (ORLANDI, 1995), por outro a contradição indica a divisão a que estão sujeitos os objetos ideológicos. É por isso que a posição materialista exige que se assuma o equívoco e a falha, o silêncio como

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possibilidade mesma da significação. E isso tem forte relação com a materialidade significante, que deve ser tomada em sua opacidade, em sua não transparência.

Em "Efeitos do verbal sobre o não-verbal", Orlandi (1995) esclarece que todo processo de produção de sentidos se constitui em uma materialidade que lhe é própria. Segundo a autora, a análise de discurso materialista contraria algumas perspectivas teóricas, entre elas o posicionamento de Benveniste (1974), para quem a linguagem verbal humana é capaz de interpretar qualquer sistema de signos, e Barthes (1978), que diz que todo sistema de signos passa pela linguagem verbal humana. Segundo a autora, essas posições não admitem o efeito de transparência e produzem uma "assepsia do não-verbal". Orlandi critica, sobretudo, o efeito de precedência do verbal sobre o não verbal, que segundo ela dá sustentação, por um lado, ao mito da linguagem como transmissão de informação, e por outro, ao prestígio do cientificismo positivista. Há, nesses termos, um apagamento da diferença do verbal e do não verbal, ou para ser mais específico, há uma sobredeterminação do não verbal pelo verbal.

Inscrever-se em uma posição materialista é, nesses termos, assumir que o não verbal não pode ser reduzido ao verbal, ou para dizer de outro modo, a dança, a tatuagem ou a fotografia não podem ser traduzidas em signos verbais: há uma materialidade que é própria a essas linguagens. Elas não significam de qualquer maneira. A matéria simbólica é, desta forma, determinante do sentido. Diferentes materialidades possuem funcionamentos discursivos diferentes, e o analista de discurso deve ser sensível a essas diferenças. Nas palavras de Orlandi (1995, p.39):

Há uma necessidade do sentido, em sua materialidade, que só significa, por exemplo, na música, ou na pintura etc. Não se é pintor, músico ou literato, indiferentemente. São diferentes relações com os sentidos que se instalam. São diferentes posições do sujeito, são diferentes sentidos que se produzem.

Não é por acaso que a noção de forma material forjada por Orlandi (2007) indica o posicionamento no qual estão implicados a matéria, o movimento e as mudanças qualitativas. Diante da banalização da noção de materialidade,

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Orlandi (2012, p.42) preocupa-se em indicar a filiação materialista tecendo críticas sobre o equívoco teórico que não distingue o ”objeto teórico (o discurso: efeito de sentido entre locutores) e objetos de análise (que são muitos e de muitas naturezas)”. Segundo a autora, a materialidade é que permite vislumbrar a ideologia funcionando pelo inconsciente, na relação do real com o imaginário.

A partir dos dizeres de Pêcheux (2009), Orlandi afirma que a forma discursiva é material, portanto, não é empírica, nem abstrata, mas parte do processo histórico-social que engloba o sujeito e o sentido, promovendo uma redefinição do político como divisão: “divisão entre sujeitos e divisão do sujeito – já que nossa formação social é dividida e a interpelação do indivíduo em sujeito produz uma forma histórica que é a capitalista de que resulta um sujeito dividido, ao mesmo tempo determinado e determinador” (ORLANDI, 2012, p. 72-73). Daí a importância fundamental da contradição (ALTHUSSER, 1979; 1985) neste estudo, pois ela permite ver a divisão que marca o corpo do sujeito.

Tomar as diferentes linguagens como formas materiais é dizer que não há apenas um sistema de signos, porque os modos de significar e a matéria significante são plurais: o corpo é um lugar de opacidade que ganha sentido pelo olhar. Pela filiação teórica ao materialismo histórico, a forma material é sempre histórica. Em outras palavras, tomar o corpo como forma material implica afastar qualquer concepção que o trata como realidade empiricamente compreensível e biologicamente funcional, comuns em áreas como a da saúde, por exemplo, em que o corpo é natural, segmentável, controlável e transparente. É um corpo material: “não se separa a vida biológica e a alma; não há almas individuais separadas” (ORLANDI, 2012, p.71) do corpo, o que não é o mesmo que defini-lo como as filosofias espontâneas derivadas do biologismo, logicismo, psicologismo, sociologismo e cognitivismo (PÊCHEUX, 2009), que afastam a história e a ideologia dos processos de constituição dos sentidos.

Orlandi (2012, p.44) ainda diz que para compreender o que Pêcheux fala sobre tipos de análise é preciso levar a sério a materialidade discursiva enquanto condições verbais de existência dos objetos (PÊCHEUX, 2011). Isso implica afirmar

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que “a materialidade específica da ideologia é o discurso e a materialidade específica do discurso é a língua” (PÊCHEUX, 2009). Em outras palavras, a língua é o real específico (PÊCHEUX, 2011) das condições de significação das diferentes materialidades simbólicas. “É o interdiscurso como funcionamento da discursividade” (ORLANDI, 2012, 44).

Orlandi (2012, p.45) esclarece que não se trata de reduzir as unidades de análise ao linguístico, mas de admitir que “sem o real específico da língua não temos a constituição da ideologia”. Ou seja, a investigação das diferentes materialidades na análise de discurso deve compreender as formas de assujeitamento, colocando como questão fundamental as formas de existência histórica da discursividade. Assim, não se trata de um simples efeito de precedência do verbal sobre o não verbal, que sendo efeito, se constitui pelo/no imaginário. Mas do real da língua, e da especificidade desse real na constituição do sentido e do sujeito, pela ideologia. Ao indicar a diferença entre língua imaginária e real da língua, Orlandi aponta que é esse real específico que estrutura as condições de significação, sem cair na posição simplista que vê na língua uma forma de traduzir as materialidades não verbais, como constantemente se tem feito em relação à imagem, quando a análise simplesmente se ocupa de explicar as significações do não verbal, desconsiderando suas especificidades materiais ou suas condições verbais de existência.