RELAÇÕES DE GÊNERO
2. Relações de gênero para além das dicotomias
2.4. O corpo e a performance masculina: os gominhos voltaram
Nem gregos, nem romanos em capas de revistas, o corpo masculino que navega em redes sociais neste início de século é sexual, esportista e pornô. São desejos e ações para registrar cada evolução na transformação do corpo, que marca uma masculinidade flexível da visibilidade do homem enquanto referencial estético. Nesta navegação, o corpo é a preferência exposta.
No final do século XIX, a revista Physical Culture22, que tem seu repositório digital com todas as edições no Digital Media Repository da Universidade de Ball States, foi pioneira por ter modelos masculinos fitness nas capas. Era considerada atrevida na época e foi acusada de obscenidade em 1909 pelo Supremo Tribunal Americano, ganhando ainda mais fama. Essas revistas viraram a fonte de informação para saúde, desenvolvimento físico e fisiculturismo. Depois da Physical Culture, muitas outras revistas surgiram. Para os modelos fitness da época, o objetivo era estampar a capa dessas revistas. Quando surgiram concursos como o Mr. América e Mr. Universo, vieram belos corpos como de Steve Reeves, que se apresentavam em Hollywood. Quando a Federação Internacional de Fisiculturismo foi criada em 1946, a popularidade do esporte continuou crescendo e então uma competição de elite foi criada, o famoso Mr. Olympia (1965). A busca por músculos cresceu, e astros do esporte despontaram como Frank Zane e Arnold Schwarzenegger. Documentários como Generation Iron, O homem dos músculos de aço, Champs, O espetáculo da dor, The perfect physique, para citar alguns, retratam as jornadas de homens em busca dos corpos perfeitos.
O fisiculturismo passou da aparência dos deuses gregos para os grandões de músculos de hoje, chegando cada homem pesar mais de 120 kg combinados com injeções
22 Physical Culture Magazine. Disponível em < http://libx.bsu.edu/cdm/landingpage/collection/PhyCul>
de hormônios, assunto tabu no meio. No final do século XX, uma nova tendência começou a despontar, e a Federação Internacional de Fisiculturismo criou uma nova categoria, Men’s Physique, que trouxe de volta a estética dos corpos clássicos do início do século XX. Com cinturas mais finas, costas em V e proporções musculares perfeitas. Hoje, um modelo fitness e um competidor de fisiculturismo diferem muito em estética corporal, já que os modelos têm de 5% a 7% de gordura corporal e estão prontos o ano todo para um ensaio fotográfico, já os competidores têm preparações específicas.
No Brasil, os modelos fitness fazem aparições mês após mês, evidenciando corpos sarados nas redes sociais, principalmente no Instagram, como os modelos fitness Ricardo Barbato e Erasmo Viana. Estes homens são conhecidos como “spornosexual” que é uma mistura de esporte, pornô e sexual. O criador do termo é o jornalista britânico Mark Simpson, que há 20 anos trabalha com masculinidades e definiu outra categoria masculina, os metrossexuais, que seriam os homens preocupados com a aparência e que usam roupas de grifes, cuidam da pele e se depilam. Mas os spornosexuais são diferentes, a vaidade não estaria naquilo que se veste, mas, sim, no corpo perfeito e exposto. Ramos (2009), ao abordar as masculinidades na Revista Men’s Health, enfatiza a construção do corpo saudável e malhado. A construção e técnicas de si dos homens e fãs da revista estão presentes em determinados estilos de masculinidades, e, segundo o autor, a imagem de si construída através do corpo tem um papel central.
A abordagem da masculinidade em termos de estilo oferece algumas contribuições que me parecem significativas. Em primeiro lugar, ela permite remover o obstáculo representado pela tendência essencialista que leva a pensar a masculinidade como algo homogêneo, para além das diferenças de classe, raça, históricas e culturais. O trabalho sobre os estilos nos reenvia, necessariamente, à pluralidade das masculinidades, já evidenciada nas abordagens contemporâneas do tema (RAMOS, 2009, p. 13).
No estudo de Ramos, as representações da masculinidade cruzam o estilo para implicar uma construção performativa como efeito de uma identidade de gênero masculino hegemônica. De acordo com a pesquisa do sociólogo, o investimento que os leitores da Men’s Health dedicam ao corpo apresenta uma nova perspectiva relacionada à saúde, como a manutenção desse corpo em academias e a ingestão de anabolizantes por uma administração de riscos da própria vida. Ao pesquisar posts em comunidades do clássico Orkut, Ramos (2009, p. 25) examina três grandes eixos, que são as técnicas de produção do corpo, a relação homo e heterossexual e a constituição das novas masculinidades. Nos eixos investigados nas comunidades online, o maior dispêndio de
discussão, segundo os leitores analisados por Ramos, são as técnicas de produção de um corpo com massa muscular definida e baixo percentual de gordura corporal, assim, o próprio consumo da revista é reforço para a obtenção de corpos perfeitos. Ramos aponta que o famoso “tanquinho de gomos” é o símbolo por excelência de técnicas que são bastante reproduzidas pelos homens em séries de musculação e performatizam, de alguma maneira, um tipo de masculinidade. Esta performance visa, entre outras coisas, produzir ganhos específicos no mercado amoroso/sexual, de modo que temos, a um só tempo, a submissão a um modelo de corpo e a uma agência que é produtiva de corpos e performances os quais, por sua vez, são eficazes na ocupação de determinadas posições no mercado amoroso/sexual e, em certas ocasiões, mesmo no mercado profissional (RAMOS, 2009, p. 29).
O objetivo destes homens é seduzir e atrair pelo corpo que têm, essa categoria de homens tem corpos esculturais. E, entre um exercício e outro para definir o corpo, lá estão os selfies. Fotografar os músculos definidos faz parte da rotina, tanto para alimentar as redes sociais como também para um parâmetro de acompanhamento do corpo que se transforma. Simpson diz que, em 1994, viu o futuro da masculinidade (os metrossexuais) nos jovens independentes e ricos, mas que hoje os ingleses gostam mais de sapato do que as mulheres. Há uma ressignificação tanto na forma de exposição quanto na de consumir. No final do século XX, a abolição das últimas leis que discriminavam a homossexualidade masculina e a chegada do domínio da cultura da celebridade com a luta para se notar visível, o corpo "marca", finalmente, a era da visibilidade online. De fato, segundo Simpson, a revolução masculina que a metrossexualidade representou foi amplamente obscurecida em grande parte por uma cobertura cultural superficial. Para o jornalista, Oscar Wilde teria saboreado a metrossexualidade, fazendo uma analogia ao personagem Dorian Gray. O cenário que se apresenta não é de homens sendo gays ou tornando-se femininos, é o homem tornando-se tudo para eles mesmos, assim como as mulheres foram encorajadas a fazer em suas contestações de gênero.
Com seus corpos minuciosamente definidos e delineados, tatuagens que melhoram músculos, piercings, barbas charmosas e decotes, a masculinidade que se apresenta neste início de século é de uma geração sobre menos roupas do que para as primeiras. Segundo o Mark Simpson (2017), essa nova onda metrossexual incorporou o sexual pornô, sendo representado por Deivid Beckham e Cristiano Ronaldo ao estrearem as campanhas Armani de peças íntimas masculinas.
Para Paula Sibilia (2015), a performance trata-se de alguém ser percebido e cujo público vivencia uma ação praticada. Segunda a autora, vivemos na era da performance, “por se tratar de um momento histórico que registra pressões inéditas sobre os corpos e as subjetividades, instando-os a que melhorem constantemente seu desempenho nos domínios mais diversos” (SIBILIA, 2015, p. 354). Desta forma, as mudanças do século XX para o XXI implicariam uma nova forma de se relacionar consigo mesmo e com os outros no mundo. Para Sibilia (2015, p. 357), “o que se é deve ser visto, e supõe-se que cada um é aquilo que se mostra de si mesmo”. Para Csordas (2008, p. 102), “o corpo não é um objeto a ser estudado em relação à cultura, mas é o sujeito da cultura; em outras palavras, a base existencial da cultura”.
O processo cultural corporificado perpassa um habitus socialmente informado, como diria Bourdieu, e transmite estruturas estruturadas que são representadas pela hexis corporal na exposição do próprio corpo enquanto comunicação e movimento, sendo este corpo incorporado de disposições que situam o próprio homem em seu universo culturalmente construído. No paradigma da corporeidade de Csordas (2008, p. 141), o autor entende “que é vital aplicar a análise de sujeito e objeto a nossas distinções entre corpo e mente, entre self e o outro, entre cognição e emoção, entre subjetividade e objetividade nas ciências sociais, especialmente na antropologia”. Miguel Vale de Almeida (2004), ao tratar do corpo na teoria antropológica, “relembra a necessidade de se incluir uma teoria das emoções como pensamento incorporado e marcado pela consciência do envolvimento do sujeito em certas situações de interação” como nos selfies masculinos. Poderíamos seguir explanando desde a história do corpo na arte, na
pintura, na fotografia, no imaginário, mas, nesta pesquisa, o foco destina-se a entender o corpo masculino como performance midiática através dos selfies.
No capítulo seguinte, analisaremos os correspondentes da pesquisa, suas masculinidades pela exposição do corpo nos selfies no aplicativo Tinder. A motivação é entender as masculinidades desde o modelo hegemônico até sua desfragmentação no ciberespaço, permeado pelo eixo teórico das ciências sociais e antropologia. As formas possíveis de serem masculino pelas narrativas dos selfies contextualizadas em suas identidades é o que abordo a seguir.