Ao chegar ao mundo o bebê se depara com um novo ambiente no qual precisará se adaptar e se desenvolver. Esses primeiros momentos são fundamentais, para nosso estudo, e constituem um vastíssimo campo de conhecimentos que não foram alcançados em sua totalidade. Assim, nem na psicologia, na neurologia, na educação, tampouco na música se tem um estudo aprofundado com bebês.
Não podemos olhar para eles como uma coisa pronta e acabada, temos o desafio de compreender e sintetizar estudos na área que nos leve ao conhecimento desse ser musical que é o bebê, que nos conduza a uma prática educativa.
Para a educação constitui um fenômeno extremamente grave, a fragmentação das abordagens acerca do bebê. Isso se revela na dificuldade de encontrarmos estudos com uma síntese de como é uma criança. Para suprir o desafio que é a responsabilidade de se educar um bebê musicalmente, é necessário conhecê-lo com a intencionalidade de superação daquilo que ele já possui e de suas potencialidades.
Portanto, para entendermos os efeitos das práticas educativas em um grupo de bebês, devemos estudar os recém-nascidos depois do parto, tão logo isso seja possível (RODRIGUES, 2009). Já em suas primeiras horas, a partir do corpo, seu aparato comunicativo começa a estabelecer um contato com o outro, geralmente na figura da mãe, que vai se configurando como comunicação não verbal (CNV).
A CNV é uma competência que antecede a comunicação verbal, exatamente porque ela resulta de uma integração sensorial superior e singular. A
linguagem interior, baseada numa motricidade expressiva, antecede a
linguagem falada exatamente porque a complexidade da integração sensorial o permite, pois nela se postula a gênese da comunicação total própria dos humanos (FONSECA, 1998, p. 185).
Compreende-se essa linguagem interior como princípio comunicativo, em que o corpo com seus movimentos, ou melhor, suas expressões corporais primeiras, constituem a ponte que conduz o desenvolvimento do bebê através das sensações e manifestações motoras, até chegar à comunicação verbal de fato, a partir de suas relações socioculturais. Nesse sentido, segundo Fonseca (1998), os bebês humanos possuem vários canais de CNV, postos em prática logo após o nascimento. Para o autor, esse fato evidencia uma competência comunicativa que consolida o papel da motricidade no processo de aquisição da linguagem.
As mensagens não-verbais se transmitem de modos muito diferentes e utilizando vários canais, sendo esses modos bem mais diferenciados do que os da comunicação verbal. Enquanto a fala é o único meio de expressão oral e a audição o único canal de recepção na linguagem falada (substituídas pela visão e pela mão da linguagem escrita), os canais e os modos da CNV são múltiplos. A interação humana combina muitos dos modos e dos tipos de codificação acima apontados, pois todos estão envolvidos em emitir e em receber mensagens e, neste contexto, o bebê é um exímio especialista (FONSECA, 1998, p. 185).
Para Rodrigues (2009), os recém-nascidos costumam se expressar usando constelações completas de condutas “com todo o corpo” (grifo nosso), essas expressões não são coordenadas como atos discretos, elas refletem sua organização psicobiológica.
Desde o nascimento, o bebê é capaz de se comunicar com os outros graças a meios expressivos de que dispõe e de expressar toda uma gama de estados emocionais. Pode-se dizer, sem exagero, que a expressividade do recém- nascido é seu talento mais importante (RODRIGUEZ, 2009, p. 39).
Para essa autora, existem dois atributos fundamentais de expressões comunicativas dos recém-nascidos. O primeiro funciona como uma matriz de estados de ativação global e difusa, que consistem em comportamentos que passam pelo sono profundo, sono, sonolência, alerta tranquilo e o choro. O segundo atributo consiste basicamente em atos compartilhados, que funcionam a partir da significação dada pelos adultos em seu intuito de compreender os sinais lançados pelos bebês. Abaixo temos uma síntese dos estados de ativação dos recém-nascidos a partir de Rodriguez (2009) representados na imagem 5 e no quadro 6.
Imagem 5 - Expressões do bebê
Quadro 6 - Estados de ativação
Sono profundo O bebê está tranquilo, com baixa resistência aos movimentos passivos dos membros, os olhos fechados, os movimentos dos olhos são poucos, praticamente não há gestos no rosto, relaxado e simétrico, o ritmo da respiração é regular.
Sono REM Através das pálpebras, podem-se observar movimentos intermitentes verticais e horizontais dos olhos, a respiração é irregular, a amplitude e a frequência variam continuamente, de maneira intermitente o rosto apresenta “sorrisos”, fingimento, cenho franzido, ou aspecto de choro; a atividade motora varia de movimentos gerais dos membros a movimentos ocasionais do tronco e da cabeça e não parecem seguir uma sequência temporal clara; a pele costuma estar pálida ou rosada.
Sonolência Os olhos estão abertos com uma aparência “brilhante”, o rosto relaxado, os membros e o tronco estão tranquilos, a respiração é mais variada e rápida que durante o sono profundo;
Alerta Durante o estado de alerta, o bebê averigua o meio com movimentos de olhos diretos ou indiretos; mantém geralmente uma postura estável e depois de um ajuste geral volta a descansar. Alerta tranquilo Caracteriza-se por uma atividade motora generalizada dos
membros, tronco e cabeça que varia em duração e intensidade, com os olhos abertos; pode estar em silêncio ou choramingando, mas não chora durante períodos longos, o rosto está relaxado, a respiração é irregular; os olhos investigam o meio de forma intermitente, mas apenas durante períodos de relativa inatividade motora.
Choro As vocalizações do choro são o critério essencial; podem variar em intensidade e se acompanham por uma atividade motora difusa ou uma postura rígida do tronco.
Choro intenso Durante o choro intenso, a resistência dos membros aos movimentos passivos é alta. A cor da pele pode chegar ao roxo. Alguns bebês já derramam lágrimas com dois dias de vida. Quando os recém-nascidos choram, mostram sua situação de aflição não apenas com o som, mas também com gestos faciais e padrões respiratórios característicos, com a coloração da pele ou com movimentos dos membros.
Portanto, as expressões medidas possuem reações corporais. Não podemos pensar que os movimentos expressos pelo bebê são fenômenos desligados ou mesmo automatizados, eles traduzem gestos. E os gestos, por sua vez, traduzem emoção, ou seja, se os movimentos dos gestos traduzem a emoção dos estados afetivos, e se a música é a arte e a ferramenta das emoções, então, o gesto que carrega os estados expressivos pode ser organizado em gesto musical traduzindo esses estados afetivos. Com base nessa reflexão, chegamos à seguinte síntese representada nos esquemas abaixo:
FONTE: Elaborado pela pesquisadora