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O CORPO FAVELADO SE AFIRMA PELA INDUMENTÁRIA

CAPÍTULO 1 EU FAVELADA: MEUS CAMINHOS, MEUS SENTIDOS

1.1 O CORPO FAVELADO SE AFIRMA PELA INDUMENTÁRIA

Em 1975, a minha tia Maria de Lurdes, primeira filha da minha avó, estava organizando o seu jantar de noivado - era o acontecimento da família -; a irmã mais velha do meu pai ia se casar. Naquele momento a expectativa de todos era o encontro de dois grupos familiares distintos e nada podia dar errado. Minha tia Djanira, carinhosamente chamada de neném, estava iniciando o seu curso de corte e costura e ela tomou a iniciativa de vestir todos os meninos, essa memória é presente em todas as conversas que presencio entre ela e meu pai. Para escrever esse texto precisei telefonar pra ela e perguntar detalhes da história, e ela lembra até hoje o critério de escolha da cor da calça de cada um: Meu tio Elias se tornou o mais velho dos homens, depois da morte do meu tio Milton aos 15 anos de idade, portanto, ele merecia um traje mais sério no tom fechado do azul marinho a fim de evidenciar essa responsabilidade de irmão mais velho; meu tio Paulo que até hoje mantém uma postura reservada e de poucas palavras ganhou a cor vinho, um tom mais fechado porém vibrante, meu tio Pedro que já tinha uma sofisticação desde pequeno ganhou a cor marrom que lhe trazia um aspecto mais elegante e o meu pai que, segundo palavras da minha tia Djanira, era o “bobo da corte” foi presenteado com a tão famosa calça amarela, que segundo ela era uma cor alegre que tinha super a ver com seu irmão mais prestativo. Meu tio Eliseu era um bebê de colo e ganhou um conjunto branco e meu tio Nilson ainda não havia nascido. Esse evento na família foi um marco na vida do meu pai, com 10 anos ele teve sua primeira “beca” para se apresentar na festa de noivado de sua irmã mais velha e mais uma vez percebo a indumentária como um ponto de afirmação de uma identidade coletiva e individual. Era imprescindível naquele contexto que os integrantes da família da noiva se apresentassem de maneira impecável para fortalecer a boa escolha do Lopes por uma mulher de família.

A minha mãe teve outra relação com a indumentária que foi muito diferente das mulheres da família do meu pai. A mais nova de seus irmãos, tem poucas referências de suas origens. Veio morar na Nova Holanda removida da antiga favela do esqueleto onde hoje está localizada os prédios cinzas da UERJ (Universidade

Estadual do Rio de Janeiro). Ela perdeu seu pai e sua mãe antes de completar 10 anos de idade e sempre soube criar suas formas de (re)existência e por isso, ela sempre me inspirou.

Quando eu nasci, minha mãe trabalhava em uma fábrica de bolsas da grife internacional Victor Hugo8, esse emprego fez ela sonhar com o ofício de costureira. Ela desenvolvia muito bem a sua função na parte de fechamento das caras bolsas da marca e, por isso, era solicitada para fazer horas extras, motivo pelo qual a impossibilitou de iniciar o curso de costura oferecido às funcionárias da empresa e, mais uma vez, ela precisou refazer seus rumos. Minha mãe teve uma trajetória de vida marcada pelas ausências e ela sempre projetou em mim o que não pôde ter, e isso se refletia na maneira que ela tinha de me vestir. Sempre de forma impecável, atentando a cada detalhe das minhas roupas. Lembro de ter uma coleção de tênis e muitas calças jeans de cintura alta e blazeres que eram confeccionados pela minha madrinha Silvia. Eu era vestida com looks típicos da década de 1980, mesmo tendo nascido em 1990.

Na minha fase de pré-adolescência me sentia ultrapassada no meu estilo e por isso passei a travar profundos embates com a minha mãe para não ter que usar aquelas roupas que ela fazia questão, sempre sob a justificativa de exuberância, sofisticação e elegância. Minha mãe conta que sonhava em ser uma mulher importante e com alguma função de trabalho em que ela pudesse se vestir com elegância, entretanto sua vida foi marcada por muitas perdas e seus sonhos foram se reduzindo ao desejo de simplesmente sobreviver e superar as adversidades que suas vulnerabilidades sociais impuseram, suspeito que essa atitude de me vestir dentro do que ela entendia como adequado seja um dos vários esforços dela para que a minha trajetória seja de vida abundante, talvez, nesse sentido, no ato de me vestir, ela estava lidando mais uma vez com as ausências e subjetividades de sua vida. Para minha mãe, vestir a filha dela com a melhor roupa aos finais de semana e ficar sentada na porta olhando a rua, era constatação de que ela havia conseguido empreender uma família a qual ela nunca teve. Até hoje ela se orgulha de ter 8Presente no mercado desde a década de 70, VICTOR HUGO é símbolo de moda e estilo de vida. Considerada a mais importante grife de acessórios do segmento de luxo nacional, trabalha para se manter em sintonia com as últimas tendências de moda e com as mais recentes tecnologias de desenvolvimento de produtos, utilizando matérias-primas e materiais exclusivos para sua produção, 100% fabricados no Brasil, visando ultrapassar a expectativa de seus clientes.

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mudado o modo de vestir do meu pai que segundo ela parecia um “jeca” com uma blusa cortada acima do umbigo e uma bermuda jeans abaixo do joelho em um corpo super magro. Ela ressalta a fase de “bem vestido” dele em seu período de servir ao quartel, pois o uso da farda cria uma demarcação de poder que fica explícita na indumentária militar. Para ela a construção de uma identidade e a conquista de um lugar de respeito se dava a partir da indumentária.

Aos poucos minha mãe foi entendendo que não me agradava usar aquelas roupas que ela gostava então passei a fazer compras na feira do Parque União. Poder escolher minhas próprias peças foi o auge da minha pré-adolescência, criei uma relação afetiva com a feira do Parque União, que é até hoje é um espaço de encontro, por isso, a feira transcende e extrapola a ideia de uma mera venda de roupas em estruturas de barracas tipo itaipava que acontece todas as sextas-feiras no entorno da principal praça da favela. É um lugar vivo e intenso que se caracteriza por produzir e apresentar diversas atrações artísticas, ser rodeada de quiosques, bares e restaurantes, ser um grande polo de representatividade para as culturas nordestinas, ou seja, ir à feira do Parque união e poder escolher minha própria roupa também significava estar inserida na dinâmica de produção cultural e de entretenimento local. Este espaço permanece sendo meu lugar favorito para aquisição de novas peças de roupa.

Ao romper com os gostos estilísticos da minha mãe eu comecei a acessar lugares além da feira supracitada, tive acesso às lojas de bairro que também tem grande influência nessa demarcação de estilo na favela, nesse sentido minha mãe tinha crediários em diferentes lojas de roupas da Maré e sua organização mensal dentro de um salário mínimo incluía a aquisição de uma peça de roupa para mim e outra pra ela.

E assim, a partir das pontuações sobre a minha história e de minha família, sigo propondo questionamentos que se estendem ao longo desse trabalho em torno dos seguintes pressupostos: a roupa é um elemento de demarcação social pela estética e particularmente na indumentária favelada existem muitas questões pertinentes e relevantes para se pensar sobre as leituras que recaem sobre esses corpos que as vestem, pois para além desse contrato social de pudor e moral a

roupa expressa uma trajetória de vida pautada nas subjetividades coletivas e individuais. A reflexão possível em torno desses corpos favelados gira em torno da fundamentação dos processos de racialização dos indivíduos, sobretudo por se tratar basicamente de corpos não hegemônicos, sendo majoritariamente negros (pretos e pardos), nordestinos (racializados) e indígenas. O racismo estrutural e estruturante consolida e legitima esses códigos de segregação e anulação das epistemologias faveladas ao que tange a moda. O racismo estabiliza todos esses mecanismos e funciona dentro de uma concepção estrutural que segundo o intelectual negro Silvio Luiz de Almeida, funciona da seguinte forma:

O conceito de racismo institucional foi um enorme avanço no que se refere ao estudo das relações raciais. Primeiro ao demonstrar que o racismo transcende o âmbito da ação individual , e, segundo, ao frisar a dimensão do poder como elemento constitutivo das relações raciais não somente o poder de um indivíduo de uma raça sobre outro, mas de um grupo sobre o outro algo possível quando há o controle direto ou indireto de determinados grupos sobre o aparato institucional[...] Assim como a instituição tem sua atuação condicionada a uma estrutura social previamente existente [...] o racismo que essa instituição venha a expressar é também parte dessa mesma estrutura. As instituições são apenas a materialização de uma estrutura social ou de um modo de socialização que tem o racismo como um de seus componentes orgânicos. Dito de modo mais direto: as instituições são racistas porque a sociedade é racista. (ALMEIDA, 2019: 46-47)

Entretanto, preciso dizer que a nossa produção subjetiva atende uma necessidade objetiva e subversiva a essa estrutura institucionalizada do racismo estrutural, e também de maneira orgânica criamos e articulamos mecanismos e agenciamentos. E, a revelia do sistema, identificamos nossas fraquezas subjetivas e solucionamos de forma representativa as nossas vulnerabilidades; e, de maneira criativa e inventiva as mulheres faveladas se reorganizam dentro das adversidades para se inserir nas normas sociais. A cientista social, intelectual negra, cria da Maré Marielle Franco nos indica essa relação estabelecida por mulheres faveladas dentro dessas relações da institucionalização do racismo:

(...) As mulheres, negras, das periferias, com ênfase nas favelas, são representações estratégicas para avanços democráticos e de convivência com as diferenças e superação das desigualdades, por conta do peso do machismo e do racismo e do crescimento da ideologia xenofóbica. As mulheres negras, moradoras das periferias e favelas, são ativas nos cenários políticos, culturais e artísticos da

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cidade. Ainda que a luta/ativismo/militância por elas protagonizada seja inicialmente relacionada às questões locais e intimamente “linkada” às condições objetivas e subjetivas das suas vidas no território, conquistam dimensões fundamentais para avançar as condições locais, alcançando impacto em toda a cidade. (FRANCO, 2017: 92)

Portanto, é possível identificar um esforço das mulheres da minha família para estarem inseridas nesses moldes sociais no qual a afloração de suas práticas é atravessada por suas subjetividades, onde, por exemplo, para minha mãe o ato de vestir a sua família dentro de uma norma que ela identificava coerente era a possibilidade de enxergar uma realização de vida que sempre foi negada a ela, enquanto que, para minha tia Neném distribuir uma cor de calça pra cada irmão significava pensar a subjetividade das leituras que ela tinha dos seus irmãos e apresentá-los a família do noivo da sua irmã mais velha a fim de provar que o Lopes, seu pretendente, estava fazendo uma "boa escolha". Assim, também como o exemplo sobre os trajes militares do meu pai na época do quartel, era um lugar seguro que forjava a construção subjetiva dele e a confirmação de estar inserido no grupo de “melhor partido” no contexto das pessoas da favela, e como ele mesmo diz: “o respeito que ganhei nas ruas na época do quartel me fez perceber que havia chegado à hora de construir a minha família junto com a sua mãe. Sempre trabalhei, desde os meus 12 anos, mas foi nessa época que me vi provocado a avançar” (Cícero Alves). Com essa afirmação é possível perceber a profundidade dos valores incutidos em um traje repleto de significados que corroboram com tais construções subjetivas. As roupas participam de muitas histórias da nossa vida, mas, em alguns lugares elas são fundamentais para dar sentidos e lugar de respeito.

CAPÍTULO 2

MODA: IDENTIDADE COLETIVA NAS ESTRUTURAS DE COMPORTAMENTO E

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