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PARTE I: NA DANÇA DOS PRESSUPOSTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

3.3 O corpo que dança e a ideia de performatividade

Dado o recorte desta pesquisa, que procurou analisar os discursos sobre o corpo infantil produzidos e postos em circulação nas danças midiatizadas, estabelecemos nesta seção o que entendemos sobre o corpo que dança tomando como pressuposto o que fala a Professora Jussara Sobreira Setenta (2012, 2008).

A dança coloca em cena corpos em movimento que produzem significados e estabelecem diferentes modos de enunciação e percepção. As maneiras como esses corpos organizam ideias e as expõem é de fundamental importância para a proposição que entende o corpo que dança como indissociável do contexto onde apresenta suas propostas (SETENTA, 2008, p. 11).

No fluxo desse entendimento estaremos dialogando nesta seção com a noção de performatividade elaborada pela filósofa Judith Butler (1997), colaborando para o entendimento de que ao dançar o corpo apresenta modos de pensar que se dá nas mediações e nas relações com o ambiente, produzindo subjetividades num fluxo de troca entre o sujeito e o mundo, e com o debate trazido por Setenta (2012, 2008) onde trata a dança como um fazer-dizer próprio do corpo, ou seja, a organização da dança em um corpo pode ser tratada como “fala desse corpo”, que se diz no seu fazer, num distanciamento com a noção de dança com algo indizível (SETENTA, 2008).

A noção de performatividade assumida por Butler em seus escritos tem inspiração na teoria dos Atos de Fala trabalhado pelo filósofo inglês Jonh Langshaw Austin (1990), partindo do pressuposto de que falar é uma forma de ação, considera a linguagem como uma ação, um instrumento da realização das ações. Em Butler a linguagem é tomada como aspecto central para a análise de performances identitárias, como nos fala em uma de suas obras:

A linguagem poderia nos machucar se não fôssemos, de alguma forma, seres linguísticos, seres que precisam da linguagem para ser? Nossa vulnerabilidade à linguagem é uma consequência se sermos constituídas/os dentro de seus termos? Se somos construídas/os na

linguagem, então esse poder constitutivo precede e condiciona qualquer decisão que possamos tomar, nos insultando, desde o começo [...] com o seu poder (BUTLER, 1997, p. 1-2).

No entanto, é preciso lembrar que apesar de ser tomado como efeito de linguagem, Butler não nega a “existência da carne, do sangue, da dor” (BORBA, 2014), reconhecendo a materialidade do corpo e de sua significação cultural como relacionais, chamando a atenção para as discursividades reguladoras materializadas no corpo, ou seja, não se pode ter acesso ao corpo sem os processos produzidos pela cultura (BORBA, 2014) e pelo discurso.

A teoria da performatividade de gênero em Butler é importante para este trabalho por entender que os corpos são produzidos discursivamente a partir de práticas regulatórias, sendo “toda força regulatória manifesta-se como uma espécie de poder produtivo, o poder de produzir – demarcar, fazer, circular, diferenciar – os corpos que ela controla” (BUTLER, 2010, p. 154). Para a filósofa, existe uma reiteração forçada dessas normas, mas também

O fato de que essa reiteração seja necessária é um sinal de que a materialização não é nunca totalmente completa, que os corpos não se conformam, nunca, completamente às normas pelas quais sua materialização é imposta. Na verdade, são as instabilidades, as possibilidades de rematerialização, abertas por esse processo, que marcam um domínio no qual a força da lei regulatória pode se voltar contra ela mesma para gerar rearticulações que colocam em questão a força hegemônica daquela mesma lei regulatória (BUTLER, 2010, p. 154).

Então, a noção de performatividade butleriana torna-se premissa para pensarmos o corpo que dança como algo que colabora para a constituição do sujeito, nos modos como se movem, como são regulados a partir de normas, mas também transitar nas “possibilidades de desconectar-se da ideia do corpo com formas pré-definidas por molduras pré-esquematizadas” (SETENTA, 2008, s/p).

Para Setenta (2012, 2008), a noção de performatividade em Butler pode operar na área dos estudos do corpo, pois auxilia no entendimento de que “o corpo que dança está dizendo enquanto está fazendo sua dança. [...] Serve também para tratar o corpo como produtor de questões e não [somente] receptáculo reprodutor de passos ordenados [...]” (SETENTA, 2008, p. 20).

Neste sentido, o corpo que dança é produzido a partir de um fazer-dizer (SETENTA, 2012, 2008) que se manifesta provisoriamente, num constante

movimento que colabora para a sua constituição e diferentes modos de enunciá-lo, que podem produzir tanto corpos que “ao dançar, simplesmente relata os seus assuntos, sejam quais forem, sempre com uma linguagem já pronta” (SETENTA, 2008, p. 22), mas também podem produzir corpos que não se interessam apenas na linguagem já pronta, mas que performatizam, atuando em processos significativos e que tendem ao exercício de uma reflexão crítica na enunciação em dança.

[...] as estruturas de poder (histórico, político, social, institucional) se fazem presentes na construção nos campos de fala. Essa fala é observada enquanto discurso que se formula diante das intermediações com o mundo e que carrega as condições, em tempo real, dessas intermediações (SETENTA, 2008, p. 65).

Na ideia trazida por Setenta (2012, 2008) a partir de Butler (1997), compreendemos que o corpo que dança é permeado por um sentido político, ou seja, o corpo age no mundo a partir de uma determinada “coleção de informação” (SETENTA, 2008, p. 30) implicada num determinado modo de agir no mundo.

A partir desses pressupostos, percebemos como a autora de que a fala não está somente no verbo, mas também no corpo que dança, que também compõe textos. E é no corpo que estão imersas situações de poder a partir da regulação e produção de suas falas. Mas em Butler essa regulação não é tratada apenas no viés disciplinador e da condução das condutas, mas é vista num caráter produtivo, ou seja, o próprio corpo que dança é tomado como inventor de modos próprios de proferir ideias e questionar a existência dos contextos dados.

Para Setenta (2008), a dança pode ser compreendida como uma ação performativa e organizadora do corpo, e que apresenta uma diversidade de informações que são constantemente trocadas e negociadas na relação do sujeito com o mundo. O processo performativo assim se dá na adoção de movimentos onde as ações retiram-se de determinado contexto e inserem-se em outro, em operações que se dão por repetição que podem ser interrompidas, questionadas ou contestadas pelo corpo que dança, onde são acionadas reorganizações de experiências e possibilidade que não ambicionam somente a reprodução do já dançado. O que ocorre nos processos performativos em dança são novos arranjos corporais que produzem ações renovadas, produzindo novas falas do corpo.

A dança enquanto sistema complexo organiza sua fala, sua ação performativa, num discurso. Expressas nesse discurso encontram-se

informações diversas que, num processo contínuo de transformação, combinam, emitem, recebem, trocam e produzem informação. As ações performativas se constroem nesse processo, que é da natureza do continuum, que aposta na experiência das ações para a produção de significados (SETENTA, 2008, p. 42).

Tais considerações colaboram para pensarmos que um corpo que dança que se enuncia performativo necessita de um fazer-dizer de movimentos tratados de maneira crítico-reflexiva, representando tipos de resistências que não partem mais de corpos-ideais, mas sim de corpos-ideias.

[...] um modo de estar no mundo, podendo ser aplicado às relações pessoais, sociais, políticas, culturais e artísticas. A performatividade se caracteriza por movimentos inquietos, questionadores – aqueles que não se satisfazem com respostas já dadas e trabalham para perturbar o domínio do “o quê”, “para que/quem”, “porque” em favor de um “como” que precisa ser construído. Dela faz parte a necessidade de mudanças porque se refaz a cada tentativa de resposta às inquietações que aparecem no processo de constituição de sujeitos/sociedades (SETENTA, 2008, p. 83).

A abordagem defendida por Setenta (2008) nos possibilita pensar que, nas danças midiatizadas, o corpo infantil pode ser visto também a partir da exposição de suas ideias, questões e conflitos, revelando que para além da cópia e repetição de passos e sequências coreografadas na/pela mídia, o sujeito infantil tem seu modo de organizar, escolher, articular e disponibilizar diferentes informações do/sobre o seu corpo.

Para a autora, nestes fazeres são operados diferentes maneiras de lidar com o corpo, o que abre a possibilidade para a análise de diferentes procedimentos e modos de enunciá-los, ou seja,

No processo de produção de falas artísticas é possível observar os modos de fazer ressaltando a necessidade de reconhecer a existência de diferentes maneiras de estudar e organizar as falas do corpo. Parte-se da compreensão de que os fazeres em dança [...] se constroem como um acontecimento singular produzindo corpos específicos para cada proposição e, as enunciações podem expor configurações distintas (SETENTA, 2012, p. 4).

Estabelecidas essas premissas, poderemos analisar como a Pedagogia Cultural das danças veiculadas e/ou produzidas pelas mídias pode produzir enunciados que remetem à normatização das condutas dos sujeitos infantis, ao

mesmo tempo em que pode caminhar para a possibilidade de pensá-los performativamente.

PARTE II: ENTRE RITOS, REZAS, TRATADOS E MANUAIS: DISCURSIVIDADES