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2. Considerações e esclarecimentos iniciais

2.3. O corpus: apresentação e algumas considerações

Selecionamos três coleções para analisarmos os paratextos, dentre inúmeras produções existentes atualmente no Brasil, de narrativas de povos indígenas. No processo de seleção do corpus, encontramos diversos trabalhos interessantes que abordam de alguma maneira a temática indígena: livros de antropologia sobre indígenas; livros acadêmicos de diversas áreas sobre variados aspectos dos indígenas; livros de contos e lendas indígenas contados por não indígenas; livros literários autorais de escritores indígenas; livros de autoria coletiva indígena, assinados por uma etnia; livros didáticos feitos para escolas indígenas etc. Ao focar-se apenas nos livros de autoria indígena publicados no Brasil, Lima já havia contabilizado, em 2012, 538 títulos de autoria dos mais variados povos indígenas.

Seguindo características da Série Kotiria (coleção trilíngue composta por quatro volumes de narrativas construídas pelos Kotiria, a qual motivou a presente tese e por isso já foi previamente apresentada), o interesse está em investigar obras que apresentem narrativas indígenas reescritas, que pertençam a etnias localizadas no território nacional. Cabe esclarecer que não é foco do nosso trabalho refletir sobre textos ficcionais produzidos por indígenas ou mesmo por não indígenas, inspirados nos saberes

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tradicionais. Ou seja, nosso escopo não engloba textos que se apresentam ou são tomados socialmente como ficcionais, no sentido literário; produções que não reivindicam para si o status de narrativa factual sobre a realidade.

O corpus que serve de base para nosso estudo consiste em publicações que retomam e reescrevem, ou seja, registram e traduzem narrativas que fazem parte da tradição de etnias e que seguem os passos das histórias desses povos; obras que em muitos casos compõem a cosmovisão desses povos e que refletem seus modos de vida, trazidos pelas vozes dos mais velhos e que são recontadas de geração em geração. São narrativas que reconstroem o passado a cada vez que são recontadas e servem como pilares para a constituição das respectivas identidades étnicas.

Decidimos selecionar, então, entre as inúmeras obras existentes, algumas produções que, de certa forma, seguissem o padrão da Série

Kotiria, ou seja, obras que contivessem narrativas indígenas de povos

localizados no Brasil, mesmo que habitassem em regiões fronteiriças ou também em outros locais da América do Sul; apresentassem ISSN ou ISBN; tivessem sido publicadas relativamente na mesma época; compusessem uma coleção ou trouxessem mais de uma narrativa; explorassem de alguma forma a multimodalidade; fossem trabalhos feitos em parceria por indígenas e não indígenas; e fossem produções que tivessem a presença de alguma modalidade de tradução.

O objetivo de estipularmos alguns critérios foi o de possibilitar a criação de uma metodologia mais homogênea que nos permitisse lidar, de maneira mais clara, com os aspectos desejados dos complexos processos tradutórios a partir dos paratextos, desenvolvendo nossas análises em um contexto mais sistemático e compreendendo melhor os dados selecionados. Desse modo, chegamos a três coleções: a Série Kotiria; a coleção Um dia na Aldeida; a Coleção Mundo Indígena.

A primeira obra, a Série Kotiria, é composta por quatro livros:

Ña’pichoã, As Estrelas de Chuva;

Wa’i Duhi Ta’ri Hire, De Pássaros para Peixes;

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Kotiria Bhahuariro, A origem dos Kotiria; e Numia Parena Numia, Mulheres do Início.

Cada livro traz uma narrativa do povo Kotiria em três línguas: kotiria, português e inglês. A organização é de Janet Chernela e todos foram publicados pela editora Reggo, sediada em Manaus; dois em 2014 e dois em 2005. Na contracapa há em todos os livros a presença de quatro selos: de um programa de extensão da Universidade Federal do Espírito Santo, chamado Quinta Habilidade, coordenado, na época, pela professora Lillian DePaula; da Associação Indígena do Povo Kotiria; do Conselho Municipal de Política Cultural; e da Prefeitura de Manaus.

Figura 1 - Capas dos quatro livros da Série Kotiria

O segundo item do corpus consiste em uma coleção de seis livros que compõem o projeto Um dia na aldeia. Diferente da Série Kotiria, que

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traz histórias de apenas uma etnia, essa coleção traz seis narrativas de diferentes sociedades indígenas:

A história de Akykysia, o dono da caça – um dia na aldeia Wajãpi; Das crianças Ikpeng para o mundo – um dia na aldeia Ikpeng; Depois do ovo, a guerra – um dia na aldeia Paraná;

No tempo do verão – um dia na aldeira Ashaninka; Palermo e Neneco – um dia na aldeia Mbya-guarani; e A história do monstro Khátpy – um dia na aldeia Kisêdê.

Cada livro teve como ponto de partida um filme produzido por cineastas indígenas, de modo que cada livro é acompanhado por um DVD com o respectivo filme. Os livros são todos bilíngues, nas línguas indígenas e portuguesa. Cada obra possui uma equipe responsável, mas todos foram publicados pela editora Cosac Naify, sediada em São Paulo, em 2014. Na contracapa há quatro selos: da editora; da Vídeo nas Aldeias; da Petrobrás; e do Governo Federal.

Figura 2 - Capas dos seis livros da coleção Um dia na aldeia (Digitalização)

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O item três do corpus é a Coleção Mundo Indígena, publicada em 2016 pela editora Hedra, sediada em São Paulo. São sete livros de narrativas de quatro diferentes etnias:

Guarani: Uma terra só;

Caxinauá: A mulher que virou tatu; Hupdäh: Os cantos do homem sombra; e

Yanomami: O surgimento dos pássaros, O surgimento da noite, A

árvore de cantos, e Os comedores de terra.

Os livros são bilíngues, em língua indígena e portuguesa, com a exceção do livro Uma terra só, apresentado apenas em português. Cada livro possui uma organização específica, mas em todos aparece o nome da ilustradora Anita Ekman. Há a presença dos selos da Secretaria da Cultura e do Programa de Ação Cultural, ambos do Estado de São Paulo.

Figura 3 - Capas dos sete livros da Coleção Mundo Indígena (Digitalização)

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Cabe frisar que as coleções selecionadas para nosso corpus estão longe de representarem os diferentes tipos de publicações, dos mais diversos gêneros discursivos, de autoria indígena. Nossa investigação não possui natureza quantitativa e, tampouco, objetiva apresentar um panorama geral das publicações indígenas. O nosso recorte, com explicitamos, parte da coleção de narrativas do povo Kotiria e poderia ter selecionado outras coleções que se encaixassem nos parâmetros mencionados acima.

É também importante mencionar que nosso estudo não se insere no que tradicionalmente se denomina Linguística de Corpus. Motivados pelos interesses já expostos, o corpus que montamos é com o intuito de que nos ajudasse a refletir. A partir de determinados critérios, desenvolveremos uma análise de um conjunto de dados, retirados dos elementos paratextuais, significativos para os objetivos da pesquisa.

No capítulo 6, analisaremos o corpus descrito, não a partir de uma visão prescritiva, mas de forma a refletirmos em que medida os processos de organização e publicação das narrativas, processos esses que mesclam diversas formas de reescrita, parecem contribuir para um local de fala desses indígenas (reparação) ou, por outro lado, até que ponto as perspectivas ocidentais se manifestam explicitamente nessas produções, possivelmente reforçando a velha política do silenciamento.

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