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4 MATERIALISMO HISTÓRICO, METODOLOGIA DISCURSIVA E

4.3 Análise crítica do discurso e questões de pesquisa

4.3.1 O corpus de uma pesquisa discursiva sobre as TICs

Numa metodologia discursiva o corpus pode-se considerar como a coleção de

amostras de discurso que alicerçam a descrição, interpretação e explicação de uma problemática determinada. Uma eleição condicionada, em primeira instância, pela prática

social (ou práticas sociais) da qual faz parte o objeto estudado, mas, também, pelo pesquisador, o pesquisado, o projeto e a problemática; em geral, trata-se de encontrar o que é

útil e como obtê-lo, a ordem ou domínio do discurso pesquisado e os processos de mudança em andamento (FAIRCLOUGH, 2001). O corpus é uma coleção pensada em aberto, em contínua construção e que se expande segundo as necessidades de análise.

Trata-se de um corpus em constante transformação, pois as mesmas organizações e a pesquisa na pós-graduação brasileira mudaram nessa década e meia que se passou entre 2001 e hoje. Em pôster apresentado em junho de 2012 no encontro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, SBPC, na Universidade Federal de Maranhão, apresentou-se uma análise da primeira parte desse processo. Elegeram, nesse momento, 80 trabalhos (dentre os 1.433 resultantes da procura no Banco de Teses da CAPES) a partir dos quais se extraíram argumentos valiosos para qualificar o estado da pesquisa em TICs na pós-graduação do Brasil. Nesse cenário, o começo de milênio não representou uma evolução quantitativa senão até 2006, quando o número de pesquisas findadas sobre as TICs no Brasil sobre-passou a dezena na amostra e continuou em ritmo crescente, como ilustrado na Figura 5.

Figura 5 - Evolução do número de dissertações e teses sobre TICs no Brasil (2001-2010)

Fonte: Elaboração própria

Mesmo que boa parte dessa amostra de pesquisas do banco de dados da CAPES provenham de centros tradicionais de pesquisa como São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília, as demais regiões do país estão também nesse caminho de refletir sobre novos aspectos da informação e da comunicação. Nessa medida, as próprias organizações indígenas têm acrescentado a utilização de dispositivos informáticos e a produção de material para publicação no ciberespaço.

Todavia, a região Norte registra menos pesquisas sobre o tema, assim seja ela a área que seria potencialmente mais afetada pelo desenvolvimento informacional, devido ao impacto na diversidade cultural ali existente. Porque com as TICs o processo de globalização vê-se aprofundado e a homogeneização tende a apagar as línguas, os costumes, cosmovisões e, enfim, os valores sociais e culturais dos centos de grupos originários que ali moram. Mas,

existe um processo inverso que resiste essas tendências em prol da supervivência e valorização das culturas nativas.

Deve-se dizer, assim, que o corpus baseou-se, num segundo momento, em práticas sociais de comunicação e informação inseridas nas dinâmicas dos saberes e as práticas organizativo-comunicacionais indígenas, segundo uma perspectiva comparativa transdisciplinar. Desse modo, essa coleção complementa-se com informações obtidas da CIDOB (Bolívia), COIAB (Brasil), OPIAC (Colômbia), AIDESEP (Peru) e ORPIA (Venezuela). Dessas entidades, das quais procurou-se informação em linha nos anos 2012, 2013 e 2014, encontrou-se que a CIDOB, a AIDESEP e a COIAB tiveram produção disponível de informação nos seus sítios web que destacaram suas próprias atividades corporativas.53 Da mesma forma, foram visitadas e feitas entrevistas nelas, ademais de na OPIAC e na ORPIA, constituindo-se numa fonte essencial para as reflexões etnográficas elaboradas no final desse texto.

As organizações objeto da análise nesse trabalho denominado “Organizações Regionais Indígenas, Cidadania e Tecnologias de Informação e Comunicação na Pan- Amazônia”, conformam, assim, um leque de entidades que representam uma ampla e variada quantidade e qualidade de povos indígenas amazônicos. No entanto, falando em termos comparativos e de uso de TICs, especialmente no que tem a ver com a presença no ciberespaço, é difícil fazer uma análise de discursos on line produzidos pelas organizações, pois nem a CONFENIAE, do Equador, nem a ORPIA, da Venezuela, tiveram portais de acesso web durante os anos de seleção de materiais publicados e a OPIAC, da Colômbia, teve um funcionamento muito irregular. Como consequência, uma análise comparativa desses discursos disponibilizados na internet deixaria de lado essa parte da comparação, na qual a CIDOB destaca como a entidade indígena amazônica que maior informação tem publicado, ao longo dos últimos anos, notadamente, até o final de 2013 (Quadro 6).

Quadro 6 - Quantidade de informação publicada a novembro de 2013 nos portais das organizações indígenas Organização/Sítio No de arquivos MB

cidob-bo.org.bo 5.338 767.0 coiab.com, coiab.org 8.068 90.4 aidesep.org.pe 711 54.7

opiac.org.co 198 19.0

Fonte: Elaboração própria

53

Em total, selecionaram-se 84 enunciados/impressões (AIDESEP: 09; CIDOB: 49; COIAB : 26) nesse segundo momento de composição do corpus, com o fim de pensar discursivamente a cidadania, tal e como o veremos adiante.

A maioria das organizações usam conexão de banda larga ADSL e tecnologia de conexão sem fio (WI-FI) a exceção da ORPIA e a COIAB, as quais têm conexão via rádio ou GPRS. Por essas duas últimas entidades ter um acesso limitado a internet não foi possível fazer o teste de velocidade via web como nas demais organizações. Na sua ordem a AIDESEP, a OPIAC e a CIDOB tiveram as melhores velocidades de acesso (Quadro 7) e, de longe, a CIDOB a que mais Megabytes (MB) de informação tem publicado no seu site.

Quadro 7 - Organizações regionais indígenas, tecnologia, velocidade de rede e localização geográfica Organização Tecnologia de rede Velocidade (Kbs) Localização

CIDOB (2012) ADSL/WIFI 512 download 354 upload

Santa Cruz de la Sierra

AIDESEP (2012) ADSL/WIFI 4.024 download 2.086 upload

Lima

OPIAC (2013) ADSL/WIFI 2.056 download 620 upload

Bogotá

ORPIA (2013) GPRS s.d. Puerto Ayacucho

COIAB (2013) GPRS s.d. Manaus

Fonte: Elaboração própria

Das organizações visitadas a CIDOB e a AIDESEP têm escritórios dedicados diretamente ás tarefas de informação e comunicação, sendo que a AIDESEP tem também um escritório exclusivo para a gestão de informação geográfica (o CIPTA). Elas também são as que melhores equipamentos e pessoal têm para estas tarefas. As demais entidades não têm escritórios propriamente para uma área de comunicação e por isso compartilham espaço com outros setores organizacionais, dos quais dependem também para o uso de equipamentos. Em geral os aplicativos mais usados são o Windows e o Office, a exceção da AIDESEP que usa o

OsX e aplicativos especiais para o processamento de informação geográfica e edição

audiovisual. Em nenhuma delas se usa software livre, dependendo assim de licenças e aplicativos comerciais nos seus equipamentos. No relativo a orçamento para as áreas de comunicação, todas elas devem procurar financiamento através de projetos específicos ou colaborar com as outras áreas, ficando sujeitas num papel secundário e muitas vezes de caráter mais esporádico do que permanente.

Sobre esse material coletado de informação eletrônica, que completa o corpus analisado, desenvolver-se-á mais adiante uma análise que dê conta do contexto regional amazônico das reivindicações sociais indígenas, através desses novos meios de comunicação.

E se aprofundará também no relativo à categoria de cidadania como eixo de sentido desse estudo transdisciplinar da comunicação.