• Nenhum resultado encontrado

2 A maternidade construída na relação mãe-bebê

2.3 O cotidiano da mãe com uma criança especial

Toda interação humana implica na presença de relações intersubjetivas, daí questionarmos: Qual o significado construído pela mãe na sua relação com a CE? Quais as transformações subjetivas que ocorreram em sua vida? Como ela vivencia o desenvolvimento desta criança, que é seu filho ou filha?

O passo inicial para uma discussão sobre as relações intersubjetivas entre duas pessoas, sempre presentes em qualquer tipo de interação entre seres humanos, na qual uma delas possui uma deficiência física ou mental, é, sem duvida, entender o significado que se dá a essa deficiência por quem a possui e para a pessoa com quem ela se relaciona (AMIRALIAN, 1997, p. 33) .

Todos sabemos que tanto na esfera da aprendizagem individual, como na social, uma CE traz um desequilíbrio porque a deficiência influencia a organização e a dinâmica da personalidade. Não podemos deixar de focar a deficiência em todas as suas interfaces, pois inúmeros são os fatores que intensificam ou minimizam o problema, como: o tipo, o grau, a etiologia, a época da incidência da deficiência, e principalmente, as oportunidades de estimulação e ajustamento que são oferecidos ou negados à CE, desde seu nascimento.

As pessoas especiais apresentam formas diferenciadas de se relacionar, tanto com os objetos como com as pessoas, pois a percepção da realidade pode ser afetada pelas suas condições diferenciadas.

Amiralian (1997) afirma que a negação da deficiência pode ocorrer tanto pelo sujeito que a possui, como por aqueles com quem ela se relaciona. A autora analisa o quanto a percepção da deficiência do outro pode levar à consciência dos próprios limites e das próprias deficiências.

Segundo Fédida (1984), a deficiência é intolerável não só por fazer ressurgir as insuportáveis angústias de castração, destruição e desmoronamento, mas também por lembrar a vulnerabilidade do ser humano, o deficiente é um sobrevivente que escapou, mas que mostra, concretamente, a nossa debilidade. Ele nos surpreende, desconfortavelmente, pois traz em si a

negação de nossa onipotência, levando-nos a reviver angústias primitivas.

Partindo desta premissa, a mãe da CE, circundada em seu mundo pela deficiência, só conseguirá crescer se, primeiramente, voltar um olhar crítico sobre seu próprio interior. Ao reconstruir suas experiências pessoais, a mãe buscará novos caminhos, e através de novos valores estará apta a enfrentar o impacto sofrido e, então, com renovadas forças, partir para a defesa do filho. Nessa trajetória, ela poderá conhecer e compreender seus afetos e emoções, em profundidade, e se prontificará a aceitar a condição frustradora, compartilhando e superando sua dor, o que lhe permitirá proporcionar ao filho, um ambiente acolhedor.

O medo e a angústia diante da deficiência precisam ser pensados, sentidos e verbalizados pela mãe, só assim ela poderá ser capaz de trabalhar o seu problema, e levar adiante uma relação proveitosa e satisfatória com o filho.

Fédida (1984, p. 35) comenta a identificação por espelho, dizendo “O que vê o bebê quando olha para o rosto da mãe? Sugiro que, normalmente, o que o bebe vê é ele mesmo”. Podemos dizer em outros termos, que também a mãe está olhando para o bebê, e vendo nele aquilo que com ela se parece, questionando o que dela própria, ali, se acha relacionado.

A identificação da mãe com seu bebê é o estado natural da mãe interessada e por isso, a mãe da CE sendo capaz de ver o filho como ele é, se torna capaz de perceber o jogo de seus próprios sentimentos contraditórios, pois se de um lado ela sofre pela incapacidade do filho e de seus possíveis fracassos, acarretados pelo fato de ter nascido deficiente, por outro, ele é o seu bebê esperado e amado, o que a alegra.

Ao falar do importante papel da mãe e da família para a criança, Winnicott (1999) fala das necessidades de ambos, ressaltando que cabe à mãe refletir em seu rosto, aquilo que ela realmente sente. Também o bebê precisa ser visto do modo como ele realmente é, com suas capacidades e potencialidades objetivamente percebidas, e não através dos desejos, medos e angústias dos pais. A criança só poderá se identificar com os aspectos projetados a seu respeito, quando, principalmente a mãe, for capaz de admitir a presença dos mesmos aspectos em si própria.

Para podermos nos identificar com pessoas cegas, surdas, deficientes motoras ou mentais, não precisamos viver essas deficiências, mas sim viver as nossas deficiências, nossos medos, angústias e fracassos, nossas capacidades e incapacidades (AMIRALIAN, 1997, p. 33).

paciência, tolerância e sensibilidade para com o filho/a, possibilitando-lhe desenvolver um sentimento de confiança, que é indispensável no desenrolar da vida psíquica.

Winnicott (1999) trata também da relação do bebê com a “mãe não boa”, aquela que oferece uma relação invasiva, que ele considera uma falha da função materna, e que se manifesta pela atitude de se impor sobre o filho, colocando seu próprio gesto no bebê, projetando sobre ele, de modo imprescindível, seu próprio estado caótico.

Esse tipo de mãe entra na relação com o filho e aniquila a sua possibilidade de constituição egóica, pois não o aceita tal como ele é. Uma vez que o ser humano é sempre considerado a partir da interação com o ambiente, e o sujeito psíquico só se constitui por meio da interação, quando a mãe falha no reconhecimento das autênticas necessidades de seu bebê, impondo a ele ações derivadas de suas próprias necessidades, ela está contribuindo para o desenvolvimento de um “falso self”, estado decorrente de uma adaptação do bebê não às próprias necessidades, mas às necessidades da mãe, que é incapaz de reconhecer as reais necessidades de seu filho.

Acreditamos ser esse o ponto central de discussão deste estudo, o processo inter-relacional mãe-bebê, cuja reflexão procuramos aprofundar para defender a compreensão do crescimento interno da mãe, como condição essencial, para que o filho possa crescer. A mãe tem que deixar de lado a ansiedade que a leva a buscar certezas em respostas absolutas, e se esvaziar, aceitando respostas relativas, para, então encontrar respostas novas, que contribuam para que ela e o filho construam, conjuntamente, outras possibilidades para uma convivência harmoniosa e criativa. Só desta forma, a mãe estará ajudando o filho com eficiência, ao assumir o caminho de sua própria maturidade pessoal, ela encontrará meios de estimular o filho, para que ele venha a ser tudo aquilo que realmente for capaz de ser.

A ciência, atualmente, já confirma a enorme influência que as atitudes e a personalidade da mãe podem exercer sobre as futuras ações do filho. “Os sentimentos nascidos das relações entre pais e filhos não são somente de natureza positiva, de ternura, mas também de natureza negativa, de hostilidade” (HELLER, 1985, p. 51).

Durante a vida toda, o indivíduo busca exercer o poder constituído por representações inconscientes, que resultam da história do seu relacionamento com a mãe-família. No exercício cotidiano das experiências e aprendizagens, as pessoas estão sempre confrontando suas frustrações e medos internos, conscientes e inconscientes, o que lhes modela o comportamento.

O cotidiano da mãe no cuidado da CE, o compreendemos como os movimentos que acontecem todos os dias. Com suas rotinas de diferentes ritmos, as mães vão criando um conteúdo e um saber ao colocar sentidos, idéias, paixões e habilidades, que brotam de sua personalidade inteira, na participação cotidiana com o filho, atingindo os aspectos individuais e subjetivos, criando o que Heller (1985) define como a vida do homem interno.

Ao centralizar na vida cotidiana a atenção na rotina individual do filho, a mãe também faz a apreensão da realidade social, pois é na reprodução do fazer diário, que tanto as modificações significativas do sujeito se mostram, quanto são percebidas as mudanças sociais.

No espaço de realizações rotineiras e repetitivas, concordamos com Pais (2003, p. 264) quando fala que o cotidiano é “um lugar de inovação, pois a própria recusa do cotidiano é sinal de sua reorganização e transformação”. O cotidiano é também lugar do imprevisto, do improvável e do novo.

No cotidiano vivido a pessoa constrói os sentidos de si mesma e do outro, através do questionamento da diferença ou da mesmice, e em um processo de constante tornar-se, dialoga com a história e com a cultura, e é aí que vamos situar as mães, nossos sujeitos, para confrontá- las com o fenômeno estudado.

Neste sentido, reforçamos que a aproximação nossa com as experiências vividas por essas mães, no cotidiano, nos possibilitou conhecer a dinâmica dos fatos que experimentaram e as transformaram, e os passos que deram em busca de respostas novas e alternativas para si e para seu filho.

Sabemos que as pessoas são pacientes e agentes, ao mesmo tempo, nos processos de transformação, cada uma tem formas específicas de entender, comunicar e atuar sobre a realidade, também, que as mudanças acontecem de forma gradual e lenta, muitas sendo visíveis, somente, depois de um prolongado período de tempo, apenas quando a própria cultura permite, que as conquistas sejam vistas, apreciadas e, esperançosamente, assimiladas.

As diferenças culturais, sociais, étnicas, religiosas, de gênero, enfim, a diversidade humana, está sendo cada vez mais desvelada e destacada e é condição imprescindível, para se entender como aprendemos e como compreendemos o mundo e a nós mesmos (MANTOAN, 2003, p. 16).

Assim, é no cotidiano das relações familiares que se internaliza o aprendizado dos modelos, dos hábitos e dos padrões de comportamento. É também no espaço micro-social que sonhamos ver acontecer as muitas transformações no modo de entender e lidar com a CE.

3 A construção metodológica da