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Procurando dar uma visibilidade mais ampla das condições de produção da pesquisa e compreender o espaço ocupado pela professora no desenvolvimento de seu trabalho, retrato, aqui, como se desenvolveram as aulas as quais lecionei na instituição, ocupando o lugar social da professora.

81 Conceito apontado por Kleiman que trata de metodologias que procuram compreender os

contextos interdisciplinares dos vários campos de estudo cujos referenciais teóricos/metodológicos são redimensionados e re-elaborados (2001, p.23).

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Como foi dito anteriormente, o corpus da pesquisa centrou-se na produção de um portfólio confeccionado pelos alunos do primeiro ano do Curso de Pedagogia e do Curso de Licenciatura em Letras, durante o período de abril até novembro de 2010. O portfólio surge como uma pasta que contempla o registro de leitura dos estudantes, mas tem sua origem nas leituras realizadas diariamente no início das aulas da semana. Os alunos cursavam as disciplinas de “Sociologia da Educação”, no Curso de Pedagogia, e “Teorias e Práticas de Ensino” no Curso de Licenciatura em Letras, ambas com duas aulas semanais consecutivas, ministradas por mim, com 50 minutos de duração cada uma.

A apresentação do texto da notícia ou da reportagem ocorria no início da primeira aula, ocasião em que um ou dois alunos socializavam com os colegas o artigo que haviam trazido82. O processo se iniciava com o aluno apresentando o título e um resumo oral do que havia entendido sobre o mesmo. Na dificuldade de resumir a notícia e/ou a reportagem, liam alguns trechos, ocasião em que eu, a partir da formulação de algumas perguntas, os estimulava à reflexão e a buscar a relação entre a manchete, o lide e o corpo da mesma. Em diversos momentos, os estudantes percebiam que a notícia não continha elementos suficientes que explicassem o fato com argumentos ou comentários, embora não fosse meu objetivo trabalhar as características estruturais e funcionais do gênero textual em questão e, sim, estimular a prática de leitura e contribuir para a ampliação de sua capacidade leitora. Simultaneamente à apresentação do artigo, que abordava variados assuntos como sociedade, educação, política, ciência, saúde etc., ocorria um debate entre os presentes, que deveriam buscar argumentos para defender as suas opiniões. Após este momento inicial, que durava entre 15 a 20 minutos, eu retomava a sequência didática apontada inicialmente na lousa e explorávamos o texto acadêmico de diferentes formas, com a leitura compartilhada, com esquemas ou com questões a serem respondidas individualmente, em duplas ou grupos maiores. Em várias ocasiões, os alunos relacionavam os conteúdos

82 Sempre levava comigo artigos variados, para serem comentados, caso os alunos não os

tivessem. Ou seja, de minha parte, procurava garantir a realização daquele momento reservado à prática de leitura.

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estudados nos textos acadêmicos, a partir da explicação da professora, com as questões abordadas na leitura das reportagens.

Na prática educativa adotada, alguns pontos foram observados:

 Os jornais eram procurados pelos estudantes que os folheavam, assim que eu os entregava83. Repartiam entre eles os diversos cadernos que os estruturava, de acordo com os seus interesses. Os cadernos mais disputados consistiam no de Cotidiano e o Ilustrada do jornal Folha de São Paulo, e o Metrópole e o Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo. Artigos referentes à política, economia e esporte frequentemente eram rejeitados. Este fato foi percebido e, do lugar de pesquisadora, concluo que talvez isto ocorresse por ter solicitado aos alunos que evitassem os artigos que levassem a discussões de cunho pessoal, principalmente os referentes à política partidária, religião e esporte. Não me dei conta, naquela ocasião, que esta ação pode ter restringido suas escolhas e que eu poderia estar desqualificando algumas práticas de leitura. Também não percebi que as polêmicas que poderiam surgir contribuiriam para vislumbrar outros sentidos, transformar idéias, rever nosso modo de pensar e de ser; condições essenciais na formação universitária. Creio que esse se constituiu como um dos limites de a pesquisadora e a professora residiram na mesma pessoa.

 Apenas os alunos mais expansivos levavam notícias e/ou reportagens para serem discutidas em sala. Os demais alegavam falta de tempo para a prática de leitura. Como pesquisadora, percebo que eu poderia ter estimulado mais todos os alunos, dar voz aos que não se manifestavam. A perspectiva da História Oral nos alerta sobre a importância de adotarmos uma escuta atenta aos depoentes. Neste sentido, creio que poderia ter exercido mais esta atenção. Foi uma lição que aprendi e que teve desdobramentos, pois hoje procuro incentivar cada um, não

83 Diariamente, eu levava para a sala de aula os exemplares dos jornais O Estado de São

Paulo, Folha de São Paulo e, semanalmente, a revista Veja. Os exemplares eram divididos entre as duas salas de aula, que funcionavam em períodos diferentes.

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deixando de atingir a todos. Neste caso, a análise da pesquisadora para os procedimentos da pesquisa converteu-se em fator da alteração da prática pedagógica da professora.

 Alguns alunos, nos horários do intervalo das aulas ou ao término das aulas que eu ministrava, pediam auxílio para compreenderem textos argumentativos e sobre procedimentos que poderiam contribuir para a melhora de sua capacidade leitora e escritora. Este fato exigia da professora disponibilidade total, pois era nestas ocasiões que os alunos mais introspectivos se expunham.

 Os minutos iniciais da aula tinham que ser “controlados”, pois, frequentemente, avançávamos no tempo e eu não conseguia cumprir os objetivos previstos, inicialmente, no plano de aula, presa à ementa da disciplina84. Buscava

táticas para referenciar um lugar próprio, encontrar maneiras de utilizar um espaço, buscar um caminho não autorizado, um procedimento astucioso (CERTEAU, 2009). Assim, minha prática didática com relação à promoção de leitura se desenvolvia nas brechas do tempo. Como diz Certeau (2009), os sujeitos ordinários realizam micro-práticas.

 A exigência, junto aos estudantes de trazerem notícias e/ou reportagens, ampliava o número de participantes na aula, o que exigia a votação, em sala, para a escolha do tema a ser abordado no momento. Como professora, esta situação apresentava-se dúbia: de um lado positiva, pois mais alunos estavam lendo; de outro, mais tempo “roubado” da instituição tornava-se necessário.

 Ao longo do ano, em alguns dias/semanas não pude fazer a discussão inicial, sob o risco de não concluir os textos apontados para a avaliação discente.

84 Os tópicos elencados na ementa da disciplina, em conformidade com os textos teóricos

apontados pelos professores tutores das disciplinas e constantes da bibliografia, compunham as questões da avaliação da universidade (ver nota de rodapé 15) que é única para todos os Campi.

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Era difícil enfrentar as estratégias do sistema, as ordens de poder a que somos submetidos, ocasião em que seria necessário uma dose de enfrentamento. Quando havia a interrupção desta prática educativa era perceptível que poucos alunos mantinham a rotina de levar à sala de aula os artigos solicitados. O interesse e a motivação esvaíam-se, tendo que buscar novas táticas para retomar o processo.

A todo o momento orientava os alunos sobre a necessidade da leitura regular de jornais e revistas e na possibilidade de guardar os artigos no portfólio, reservando este material para uso futuro. Esse recurso pedagógico era estimulado, de forma que, cotidianamente, se atualizassem com as notícias e percebessem as variadas possibilidades de uso dos jornais e revistas como recurso e preparo de aulas. Em muitas aulas, as reportagens abordadas pelos alunos contribuíam para que ampliassem seus conhecimentos e suas concepções de mundo, mas não tinham relação direta com os conteúdos elencados no plano disciplinar.