A crítica de cinema é o lugar onde ocorrem diversos processos de mediação, sendo que o crítico, a partir de seu trabalho, se insere no circuito de circulação, difusão e consumo do cinema. Dentre esses processos, podemos destacar: a mediação entre o crítico e o público, com suas diferentes recepções e opiniões dos filmes e formas de pensar o cinema; entre o próprio cinema e o público, através do trabalho de interpretação, análise e contextualização realizado pelo crítico; entre o cinema e seus produtores, que encontram na crítica formas articuladas de recepção e visões sobre seus trabalhos e o de outros, bem como uma nova inserção do cinema
dentro dos processos sociais e culturais de circulação de informações; entre diferentes grupos e suas formas de ver, pensar e usar o cinema, que transparecem em diferentes posições e possibilidades da crítica, que pode fomentar o diálogo; a mediação entre o trabalho do crítico e as formas já sedimentadas e estruturadas de produção de críticas, advindas de um desenvolvimento histórico, e decorrentes de opções teóricas e metodológicas, que seguem, ainda, as formas estabelecidas de produção do jornalismo, sua organização institucional e suas práticas profissionais.
Todas essas mediações realizadas pela crítica têm um lugar institucional, mas também dependem de um indivíduo concreto para se realizarem, o crítico. Quem é o crítico de cinema? É um cinéfilo, alguém que gosta mais de ver filmes do que a maioria das pessoas? É um estudioso da teoria, da técnica e da história do cinema, que aplica seus conhecimentos às matérias que escreve? É o guardião dos valores elevados e do bom gosto no cinema e/ou é aquele cujo gosto e opiniões sempre contrariam os do público? É alguém que se integra à indústria cinematográfica e louva seus filmes ou, pelo contrário, alguém cuja principal função é criticar, muitas vezes de forma pejorativa, os produtos dessa indústria? É um intelectual, um homem de idéias, capaz de levantar debates e propor novos rumos para a forma cultural que analisa? Ou “apenas” um jornalista, como outro qualquer? São muitas as visões de quem seja o crítico. Pode-se pensar que nenhuma delas é totalmente certa ou errada, sobrepostas mais do que excludentes, realizadas e vividas de diferentes formas por críticos e vistas e imaginadas de forma diversa pelos leitores.
Interessa-nos, aqui, pensar, mais precisamente, o crítico como um tipo específico de espectador e a maneira como se relaciona com o cinema de forma geral e com cada filme de forma particular a partir dessa posição. É só a partir da sua recepção que o crítico pode exercer seu papel de mediador, pois ela vai determinar a produção de seu texto. O crítico é, antes de tudo e sempre, um espectador que experiencia sozinho cada filme. Mas não é qualquer espectador, e, sim, um espectador com competências específicas, conhecimento do universo cinematográfico e habilidades profissionais, que não assiste um filme sem compromisso, mas em função da escrita posterior de um texto crítico sobre aquele filme, voltado para outros
espectadores. E quando se relaciona, através do texto, com estes outros espectadores, tem a possibilidade de orientar e iluminar outras recepções, outras experiências, outros contatos com os filmes de que trata.
O crítico, enquanto espectador, é parte de um público de cinema. Esse público – tanto com relação à prática social, quanto com relação à experiência subjetiva – não tem características dadas e imutáveis, mas se constitui historicamente, em relação com o desenvolvimento do cinema e suas formas de inserção na sociedade, que acarretam uma transformação nos modos de espectatorialidade. Para Canclini (1995, p. 177 e 178),
“o espectador de cinema é uma invenção do século XX. [...] Só com a construção de salas permanentes, a partir de 1905, começam a se formar hábitos de percepção e de assistência, uma nova distinção entre o real e o imaginário, outro senso do verossímil, da solidão e da ritualidade coletiva. Aprendeu-se a ser espectador de cinema, a ir periodicamente às salas escuras, escolher a distância adequada da tela, desfrutar os filmes em solidão ou acompanhado, passar da intimidade da projeção ao intercâmbio de impressões e à celebração gregária dos astros. Deste modo, chegou-se à seleção dos filmes pelos nomes dos atores ou diretores, reconhecidos numa história do cinema ou num conjunto de ofertas publicitárias das páginas de cultura e espetáculos”.
Quais seriam as características do espectador atual? Fernando Mascarello (2002) destaca como um dos pontos principais a serem considerados o seu nomadismo: o espectador contemporâneo seria um nômade que não se fixa em uma só cinematografia ou tipo de cinema, mas transita entre vários com liberdade, tendo com cada um deles um prazer específico. Esse nomadismo estaria relacionado ao contexto global do quadro de transnacionalização da indústria midiática, que implica significativas e complicadas transformações nas condições multicontextuais das práticas e experiências de audiência e responde pela cada vez maior complexificação, indeterminação e dificuldade de acesso às audiências (MASCARELLO, 2002, p. 237).
Mascarello (2002, p. 220) percebe
“o aprofundamento de uma certa tendência nomádica, por parte das audiências, quando da sua aproximação à produção fílmica. Mais e mais, se verifica um consumo plural e relativizador, implementado por um espectador que não hesita em transitar entre as mais diferentes cinematografias em busca da satisfação de desejos múltiplos, muitas vezes contraditórios e paradoxais”.
Podemos nos perguntar como essas tendências nômades influem não só na relação do espectador com o cinema, mas também na relação da crítica com o cinema e com estes espectadores. A relação da audiência com o cinema, e, mais especificamente, com o cinema
popular, “deveria ser ora afirmada, ora negada, ora interrogada, pelo teórico ou pesquisador. Tal como o são as cinematografias, pelas suas audiências pós-modernas” (MASCARELLO, 2002, p. 237). Mascarello defende uma relativização programática e pluralização das abordagens teóricas para dar conta do fenômeno cada vez mais complexo e multidimensional da espectatorialidade contemporânea. Para ele, o pluralismo deve atingir tanto as opções teóricas como a compreensão da relação espectatorial, um pluralismo não só teórico, mas para entender os “novos” espectadores ou como uma nova forma de entender o pluralismo que existe nos espectadores.
Podemos pensar, portanto, em um nomadismo da audiência, que se relaciona com diferentes cinematografias, gêneros e estilos. Um nomadismo do crítico enquanto espectador, que se refletiria em um nomadismo conceitual, transitando por conceitos e teorias com os quais mantém relações de comprometimento provisório, momentâneo e pontual. O crítico contemporâneo pode ter o mesmo trabalho do crítico de décadas passadas, mas faz parte de um público diferente, que possivelmente tem uma nova forma de espectatorialidade. Esse nomadismo pode ainda ser influenciado ou acentuado pelas necessidades e demandas das rotinas jornalísticas, que impõem ao crítico certa flexibilidade para se adequar às pautas e também aos interesses das publicações.
Podemos pensar o crítico como um espectador liminar, que se situa no ponto de passagem entre o filme, e a experiência que proporciona, e o contato com o leitor, através de um texto analítico. Como essa posição interfere na sua experiência dos filmes? Não é apenas a formação e o conhecimento do crítico que o distanciam do espectador comum, pois não há uma concepção rígida sobre quais devem ser esses conhecimentos e essa formação: os críticos podem ter uma abordagem intuitiva ou se preocupar com a teoria cinematográfica de forma geral, podem se basear mais em experiências subjetivas ou em métodos e conceitos estruturados. Retomando Metz (1980), o crítico não se insere na instituição apenas a partir da posição de consumidor, mas também na posição de criar e difundir discursos sobre a indústria e a própria instituição.
Podemos pensar aqui na própria função da crítica de cinema, e em como a questão das habilidades requeridas para exercer a crítica pode ser observada de pontos de vista diferentes. O crítico francês Fereidoun Hoveyda se pergunta “qual a utilidade e a justificativa dessa estranha atividade que permite a alguém clamar o direito de declarar publicamente o que pensa sobre um filme” e responde, a partir de uma citação de Merleau-Ponty: “nós que falamos não necessariamente sabemos melhor o que estamos dizendo do que aqueles que nos escutam” (HILLIER, 1986, p. 262 e 263). Nesse sentido, podemos ver o crítico não como uma opinião melhor do que a dos seus leitores, mas, simplesmente, como alguém que tem essa profissão e, consequentemente, o espaço da mídia para se expressar. Mas cabe aqui perguntar se realmente o leitor se interessaria em ler no jornal ou na revista as opiniões de alguém que “sabe” tanto quanto ele, uma opinião que tenha o mesmo valor ou legitimidade do que a sua, ou se procura uma opinião mais articulada ou embasada, que possa enriquecer a opinião e a reflexão a princípio “leigas” do leitor.
Esta última parece ser a opinião de Ronaldo Noronha, que defende e existência de olhares mais aguçados e especializados:
“para ver filmes, algumas pessoas têm olhos melhores do que outras. Elas ‘vêem melhor’ (forçosamente, portanto, há outras que ‘vêem pior’). São capazes de uma atenção deliberada às imagens enquanto objetos. Elas vêem relações dentro e entre essas imagens: a forma, as estruturas. É nessas pessoas, portanto, que confiamos para falar dos filmes que viram, para dizer porquê e como.” (COUTINHO, 2001, p. 46).
Não vamos aqui tomar partido, mas apenas levantar a questão a ser percebida nas análises: o crítico se coloca no texto como esse detentor de um olhar melhor, mais especializado, ou se coloca como mais um espectador, mais uma opinião? A resposta desta pergunta aponta para a relação proposta pelo crítico ao leitor, nos permitindo avaliar a sua própria posição.
Quando pensamos no crítico que trabalha em publicações de grande circulação, ainda temos que considerar as competências profissionais exigidas pelo jornalismo. Seria um caso diferente, por exemplo, do ensaísta, do acadêmico ou daquele que tem sua própria página na internet. A crítica não é apenas uma definição abstrata de um gênero, de uma modalidade de
matéria: ela se concretiza nas suas diferentes manifestações, nas formas como os diferentes sujeitos a produzem. E quando ela se insere em uma publicação com linha editorial, público e estratégias já determinadas, o crítico se vê entre suas visões e opiniões acerca do que deve ser a crítica de cinema e as concepções daquela publicação.
O crítico recebe o cinema, em uma experiência com um texto audiovisual e deve transformar essa experiência em um texto escrito, usando outra linguagem, recriando e traduzindo a experiência. Ele tem uma experiência que é, antes de tudo, pessoal e subjetiva, e tenta relatá-la em termos analíticos e objetivos, muitas vezes fazendo escolhas conceituais, teóricas e metodológicas que o levam a refletir sobre essa experiência em outro registro. No seu contato com o filme, ele é o espectador que realiza o sentido do texto fílmico; já no seu contato com o público, ele é o produtor, que constrói um texto imaginando um leitor possível.