7 UMA CRONOTOPIA DA ESTRADA
7.2 O cronotopo da estrada e o fenômeno da viagem
A estrada, com todas as suas implicações de encontros e desencontros, chegadas e partidas, travessias e destinos, conforma um dos mais recorrentes mitos literários de todos os tempos, presente desde as típicas histórias de aventuras por países exóticos e terras longínquas até às narrativas alegóricas como a da Nau dos Loucos e a da eterna trajetória do Judeu Errante.
Bakhtin (2010) apresenta o cronotopo da estrada estreitamente vinculado ao do encontro. Em nosso estudo, pensamos esse último enquanto ponto de contato com instâncias que serão decisivas para as ações e comportamentos do personagem, naquilo que mais adiante caracterizaremos como a tomada de conhecimento das figuras emblemáticas do caminho, ou seja, aquelas, que servirão de mote para transformações, dinamizando a conformação ourobórica da narrativa.
Para Bakhtin:
O encontro é um dos mais antigos acontecimentos formadores do enredo do epos (em particular do romance). Deve-se sobretudo notar a estreita ligação do motivo do encontro com motivos como a separação, a fuga, o reencontro, a perda, o casamento, etc., que são semelhantes pela unidade das definições espaço-temporais ao motivo do encontro. Tem significado particularmente importante a estreita ligação do motivo do encontro com o cronotopo da estrada (‘a grande estrada’): vários tipos de encontro pelo caminho. No cronotopo da estrada, a unidade das definições espaço- temporais revela-se também com excepcional nitidez e clareza. É enorme o significado do cronotopo da estrada em literatura: rara é a obra que passa sem certas variantes do motivo da estrada, e muitas obras estão francamente construídas sobre o cronotopo da estrada, dos encontros e das aventuras que ocorrem pelo caminho (BAKHTIN, 2010, p. 223).
A estrada compreende a abertura da narrativa para uma espacialidade fluida e essencialmente dinâmica, na qual o tempo também adquire contornos maleáveis na medida em que se constitui como tempo de deambulações e experiências. Esse tempo se amplia ou se retrai conforme se passa de espaços atópicos para espaços tópicos, registrando a própria interioridade do personagem enquanto mensuradora da dinâmica temporal, ou seja, permitindo a intervenção do tempo psicológico nas malhas do que originalmente se deflagra como a cronologia da história.
A estrada pode ser ainda um duplo no qual se desenvolvem duas trajetórias que interagem intimamente. Assim, ela abraça o percurso físico tanto quanto a caminhada interior, compreendendo o trânsito não apenas pelos campos e cidades, mas também e principalmente o tráfego pelo eu do personagem, a busca de autoconhecimento e de respostas para as questões existenciais.
Nesse sentido, e já encaminhando nossas reflexões para o fenômeno da viagem, acordamos com a professora Maria Alzira Seixo naquele que constitui o herói por excelência na narrativa da estrada, herói reflexivo, por vezes atormentado, mas que a si se basta, confiando ao caminho tanto o encontro com lugares e gentes como o encontro consigo mesmo:
O herói problemático é a personagem ficcional que deixou de sentir a proteção de uma transcendência, e que verifica que o seu percurso mundano pode não ter o acompanhamento tácito de uma divindade que lhe atribui sentido, para descobrir assim o peso da solidão, da imanência das coisas desligadas da sua significação absoluta, tornadas precárias como precária se tornou a sua própria individualidade, presa do problema nodal de existir, de sobreviver, e de resistir à contingência (SEIXO, 1998, p. 165).
O fenômeno da viagem é que confere à estrada esta dimensão humana de simultâneo desligamento e descoberta das coisas, catapultando o personagem através de espaços distintos, os quais vão convertendo o tempo cada vez mais em tempo mutável e incerto, pois que tempo do que se procura, descobre e logo em seguida se abandona. A alternância entre desejos de conhecimento e ânsias de fuga e evasão desde sempre povoou os imaginários psico- sociológicos em todas as épocas. Remontamos aqui como exemplo os primeiros às narrativas aventurosas da Renascença, as segundas aos périplos exóticos cultuados pelo Romantismo.
Porém, mais do que tudo, a viagem conforma ciclos de partidas, chegadas, planos, inícios, finalizações, naquilo que Seixo (1998) pontua como profundamente enraizado na existência humana, captando mesmo o movimento da vida em si. De acordo com Besse:
Les images chronotopiques de la route et du chemin comportent logiquement celles de la séparation et de la rencontre, dessinant une poétique où Il n’y a jamais de coupure entre le moi et le monde, mais plutôt une expérience continue que l’on pourrait qualifier de ‘voyage-voyance’, pour reprendre une expression de Kenneth White, dans la mesure où ‘em plus de la notion de voyage, il y a la notion de voie (ligne de vie) et de voir (percevoir um autre espace, ouvrir d’autres dimension)’. Le voyage permet ainsi le capter le mouvement de la vie, de saisir l’épaisseur du temps et de ne pas reduire l’espace à la seule carte, élément de découverte certes, mais aussi d’abstraction du réel (BESSE, 2004, p. 50).
Misto de visão e vidência, travessia que nos conecta, ao mesmo tempo, com esta e com outras existências, em um desvendamento de cartografias materiais e espirituais, a viagem nunca se reduz à mera dimensão perceptível pelos cinco sentidos conhecidos. Como ressaltam Chevalier e Gheerbrant:
A viagem exprime um desejo profundo de mudança interior, uma necessidade de experiências novas, mais do que de um deslocamento físico. Segundo Jung, indica uma insatisfação que leva à busca e à descoberta de novos horizontes[...] Em todas as literaturas, a viagem simboliza, portanto, uma aventura e uma procura, quer se trate de um tesouro ou de um simples conhecimento concreto ou espiritual. Mas essa procura, no fundo, não passa de uma busca e na maioria dos casos uma fuga de si mesmo. Os verdadeiros viajantes são aqueles que partem por partir, diz Baudelaire. Eternamente insatisfeitos, sonham com o desconhecido mais ou menos inacessível (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1998, p. 952).
Em suma, perseguição ou fuga, a viagem remete ao tema da construção da identidade do personagem, como um rito de passagem que apresenta a possibilidade de aperfeiçoamento e moldagem espiritual, por meio de contínuas descobertas que constituem outros tantos ritos de passagem.
Nesse sentido, instaura-se, a partir do périplo do herói viandante, aquilo que Maria Alzira Seixo designa como uma verdadeira poética da viagem, a qual também, a nosso ver, é uma poética da estrada. Nela, coadunam-se as trajetórias física e espiritual do herói pelas sendas da trama na qual se insere, que – viagem mítica, relato de aventuras, diário de viajante – simultaneamente encobre e revela a prática narrativa e descritiva que faz da obra literária em si também uma viagem: trânsito pelos escaninhos do texto, nau que traz ao leme o autor e cujo mar é o contexto/mundo, cartografia de palavras cujos pontos cardeais são o tempo e o espaço a orientar um périplo que nem sempre se sabe aonde há de aportar.