• Nenhum resultado encontrado

O CRUB E A IMPLANTAÇÃO DA UNIVERSIDADE INTEGRAL

No documento UFBA na memória: 1946-2006. (páginas 184-200)

4 UNIVERSIDADE E MUDANÇA: QUESTÃO DE SEGURANÇA NACIONAL

4.2 O CRUB E A IMPLANTAÇÃO DA UNIVERSIDADE INTEGRAL

Os Decretos-leis números 53, de 18-11-1966, e 252, de 23-2-1967, representaram a abertura para a implantação da Reforma Universitária no Brasil. [...] Proporcionaram os Decretos-leis acima citados às atuais Universidades existentes, e às quais se venham a criar, os impulsos e normativas necessárias à implantação da moderna Universidade no Brasil. Visaram [...] transformar a situação até então vigente, de Universidades formadas pela simples agregação de faculdades, por lei ou por decreto, em verdadeiras unidades culturais capazes de dirigir a formação e o aperfeiçoamento de profissionais de nível superior, interessados na solução dos grandes problemas socioeconômicos, técnicos e científicos do país. (FÁVERO, 1991, p. 97)

A posição da autora é a mesma do professor Roberto Santos, apresentada na sua entrevista narrativa. Afirmou que a UFBA fez sua reestruturação para atender àquela legislação e não por força da reforma universitária de 1968. Segundo Maria de Lourdes Fávero (1991, p. 97), o CFE entendia o papel daquela legislação como fundamental para “[...] instaurar a Universidade dentro da Universidade”. Reconhecemos no estudo da trajetória histórica UFBA que, enquanto as Universidades brasileiras não haviam superado a característica insular, a UFBA amalgamou suas unidades, norteada pelo princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.

Os reitores das Universidades também viviam isolados, despertaram para o fato e congregaram-se para superar o problema, prepararam a criação de uma entidade de Reitores. O estudo nesta seção buscou reconhecer a aplicação da legislação reformista para encetar uma ação modernizadora da Universidade. Ela foi instituída pelos militares na década de 60, movimento que se interconecta com o surgimento da entidade, situação que recortamos para análise. Visamos reconhecer os mecanismos para implantação da reforma universitária e os elementos que evidenciem o funcionamento do sistema penetrado. (DOCKHORN, 2002, p. 95)

O Estatuto das Universidades Brasileiras (BRASIL, 1931) assegurava encontros entre reitores dentro do MEC, na década de 60 foi criado um Fórum Universitário, presidido pelo ministro da Educação e Cultura. No Fórum, eles viram cerceada a autonomia universitária, o que justificou e os mobilizou a formar nova entidade. Em 1966, em reunião com vinte e cinco reitores, foi assinado manifesto para criação do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras (CRUB), vislumbrando-o como a solução de todos os problemas vinculados ao desenvolvimento das Universidades.

A proposta de seu Estatuto foi debatida na segunda reunião plenária do grupo de reitores, realizada em Salvador, em 1º de julho de 1966, na UFBA. A comissão redatora do Estatuto convidou para assessorá-la, Rudolph Atcon. A idéia dos reitores era a de ampliar e assegurar a autonomia universitária jamais exercida plenamente. Para Atcon (apud DIAS, F., 1989) o CRUB deveria ser uma entidade independente, que permitisse mais liberdade de iniciativa aos dirigentes e que realizasse:

Trabalho contínuo e livre de quaisquer interferências estranhas, garantindo possibilidades mais exeqüíveis de entendimento com organismos nacionais e estrangeiros de assistência técnica e o aproveitamento, em condições reais, de técnicos de qualquer nacionalidade para tarefas específicas de planejamento, estudo ou treinamento. (ATCON apud DIAS, F., 1989, p. 15)

Atcon cumpria sua tarefa de perito reformador, o elemento externo introduzido no sistema penetrado, com o endosso governamental. O agente externo, neste caso, prepararia o conjunto dos reitores na implantação da reforma integral, que seria montada a partir da sua assistência técnica. Atcon (apud DIAS, F., 1989) de início, ele comprometeu a entidade, com o aproveitamento de técnicos estrangeiros para desenvolver o projeto que tinha para a América Latina, desde o pós-guerra. Partiu da

premissa de que a Universidade é fator de desenvolvimento. Ela contribuiria para a efetiva decolagem do programa de inserção das nações latino-americanas no mercado internacional/industrial. Para servir a este projeto, seria preciso sanear suas mazelas

Na reunião de Salvador, os reitores aprovaram o Estatuto do CRUB e comemoraram o 20º aniversário de fundação da UFBA, o Reitor Miguel Calmon Du Pin e Almeida Sobrinho, (1964-1967) foi o anfitrião. Em 1º de julho de 1966, na plenária de fundação, ele foi eleito por aclamação, como o primeiro presidente da entidade. Em seu discurso de posse, declarou esperança no que viria a ser o CRUB e a certeza de que os reitores estavam conscientes dos problemas universitários e decididos quanto aos objetivos da entidade, cuja existência formalizava-se ali. O Reitor Miguel Calmon (apud AZEVEDO, J., 1981, p.19) defendeu:

Precisamos obter com o governo uma compreensão e um diálogo mais objetivo, de maneira que possamos estabelecer e realizar estes objetivos comuns de uma maneira concreta, capaz de servir à nossa comunidade, capaz de servir ao processo de desenvolvimento do país e capaz de formar a elite dirigente do país. Estamos convencionados, nós os Reitores, que temos a responsabilidade do comando de nossas universidades; que a universidade tem um papel importante a desempenhar nessa tarefa de renovação e na conquista, para o Brasil, de uma liderança mundial.

A disposição demonstrada pelo Reitor da UFBA refletia a vontade do conjunto de reitores que já havia aderido à tese da reforma do ensino superior para integrar a Universidade ao desenvolvimento econômico. Este movimento dos reitores de criar uma entidade autônoma do MEC, não nasceu de fagulha espontânea, segundo Fernando Correia Dias (1989, p. 15) quem formalizou pela primeira vez uma proposta com esse objetivo foi o próprio Rudolph Atcon. A idéia constava no relatório denominado Rumo à reformulação estrutural da Universidade Brasileira, de sua autoria, fruto de encomenda do MEC, realizado em 1965.

Descreveu Fernando Dias (1989) que Atcon organizou o relatório em quatro partes: na primeira, apresentou o levantamento histórico da Universidade e analisou o sistema universitário; na segunda, relatou visitas feitas às Universidades brasileiras, e comparando com o que delas conhecera dez anos antes; na terceira apresentou conclusões e recomendações, na quarta apresentou medidas para superação dos problemas.

A primeira das recomendações do consultor para o MEC foi relativa à proposta de criação de um Conselho de Reitores com as seguintes características: “[...] organização de sua Secretaria-Geral em moldes empresariais, para criar um local ecologicamente apropriado para empreender estudos sistemáticos sobre ensino superior e planejamento ininterrupto”. (ATCON apud DIAS, F., 1989, p.16). Para ele, somente com a criação da entidade, os reitores poderiam encaminhar as inovações.

Fernandes Dias (1989) reconheceu o papel de Atcon para o CRUB, mas não lhe atribuiu o mérito da iniciativa. Os reitores já estavam motivados e a dedicação à causa cresceu, em função da reforma que se delineava. Os reitores mobilizaram-se em nome de uma efetiva autonomia universitária, eles discutiram na primeira reunião do Conselho, os interesses das Universidades e a representatividade dos reitores. Declararam que o Reitor seria o legítimo representante da instituição e responsável por definir e encaminhar as deliberações daquela entidade.

O Reitor Luiz Fernando Seixas de Macedo Costa (UFBA 1979-1983) em pronunciamento para o CRUB, na XXXIII Reunião Plenária, realizada em Santa Maria, Rio Grande do Sul, em 1981, analisou as alternativas da Universidade para a década. Marcou o descompasso entre o que preconizava a Lei nº 5.540/68 (BRASIL, 1968) e a realidade. Avaliou que, decorridos treze anos da reforma da educação superior, os problemas se agravavam e o CRUB teve sua parcela de responsabilidade, ao colaborar com a implantação da reforma universitária. Afirmou o Reitor Macêdo Costa (1981, p. 29):

Nas primeiras quadras de sua existência, o CRUB caracterizou-se pelo exercício de um papel quase que meramente repassador das diretrizes governamentais, formuladas com rara ou nenhuma participação de destinatários últimos da política educacional para as universidades: seus alunos e seus administradores.

O processo de formulação e implantação da “Reforma” caracterizou-

se predominantemente pela verticalidade, consistindo na

recomendação de fórmulas, bem intencionadas, com que se preocupava dar soluções aos problemas do ensino no Brasil. E o Conselho de Reitores, em postura acrítica, limitou-se, na sua primeira década de existência, a auxiliar as Universidades na implantação da Reforma de acordo com as diretrizes governamentais.

O Ministro da Educação não mais fazia parte das reuniões dos dirigentes ou as presidia, no entanto, a autonomia que pretendiam ter, não aconteceu de maneira plena. O governo do Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco (1964-1967)

apoiou a entidade, apostando na sua contribuição para a educação superior e a modernização. Foram realizadas ações conjuntas do CRUB com o governo, para avaliações e planejamento, sob a responsabilidade do Ministro da Educação, Flávio Suplicy de Lacerda e do Planejamento, Roberto de Oliveira Campos. Sobre este último, observou Fernandes Dias (1989, p. 19):

Havia uma inegável afinidade entre certas idéias sustentadas pelo ministro Campos e as manifestadas pelo professor Atcon, em matéria de administração pública e de política educacional: ambos partidários da livre-iniciativa, num sentido antiestatizante, e ambos críticos de aspectos tradicionais do ensino brasileiro, por exemplo.

A conjunção de interesses concedeu ao CRUB verbas provenientes daqueles ministérios, para financiar a execução de projetos e a implantação da Universidade integral. A entidade ganhou autonomia de decisão sobre os destinos da verba e incumbiu-se de duas tarefas: coordenar o programa de modernização administrativa e a de colaborar de perto nos trabalhos de implantação da reforma universitária. (DIAS, F., 1989, p. 31). O acordo MEC-Usaid de 1966, no ano de criação do CRUB, encontrou uma entidade disposta a colaborar com a execução dos planos. Os reitores concordavam sobre a necessidade de preparar a Universidade para o projeto estratégico do Estado, que a posição de Fernandes Dias (1989, p. 35) reforça:

Será lícito afirmar que o Conselho de Reitores constituiu-se, a si mesmo, um projeto modernizante. Em oposição ao Fórum, desejou-se implementar uma estrutura moderna, que fosse não-governamental, quase uma empresa, para ter independência em face do poder público, e fosse suficientemente ágil em seu modo de atuar, para obter apoio das instituições universitárias. Em acréscimo e em decorrência de tais características, devia contribuir para modernizar as IES filiadas.

O Reitor Miguel Calmon havia falecido quando estava no exercício de seu mandato à frente da entidade e da reitoria da UFBA, em 1967. Reitor João Davi Ferreira Lima da Universidade Federal do Ceará (UFC), o substituiu. A 1º reunião plenária extraordinária do CRUB, após o fato, aconteceu em junho de 1968. O presidente abriu os trabalhos relatando os acontecimentos de dezembro de 1967, por ocasião de sua audiência com o Presidente da República General Artur da Costa e Silva (1967-1969). A pauta foi a situação da Universidade no país e sobre as recomendações que fizera para a superação dos problemas.

O Reitor da UFC, afirmou que o problema central da Universidade não se restringia à falta de verbas, mas compreendia um conjunto de entraves. Aquela reunião tinha o fito de produzir uma nota pública, sobre a problemática vivenciada. Em seguida, apresentou minuta do documento a ser discutido, que recortamos para apreciação:

Os reitores das Universidades Brasileiras, nos últimos dois anos, têm procurado, por todos os meios, alertar as autoridades competentes sobre os problemas fundamentais do Ensino Superior de molde a lhe proporcionar condições mínimas de preencher e alcançar a posição que ocupa como mola propulsora do desenvolvimento do País. E o temos feito como pessoas de confiança do governo [...] No corrente ano, ainda mais se acentuaram as nossas preocupações, eis que, decorridos cinco meses de exercício, só agora vimos liberados os recursos do primeiro trimestre [...] Tudo isto criando um ambiente de intranqüilidade nas universidades proporcionou o clima em que vivemos precipitando a perda de valiosos componentes de nosso corpo docente em face da impossibilidade de mantê-lo econômica e cientificamente em suas posições. [...] As Universidades oficiais necessitam, com urgência, de medidas extraordinárias para liberá-las das peias da burocracia. [...] Para este fim, deve-se reafirmar a autonomia administrativa, acadêmica e financeira enraizada no artigo 80 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. (LIMA apud AZEVEDO, J., 1981, p. 197)

Conforme a minuta, os problemas da Universidade se multiplicavam e o financiamento aparecia como o mais grave deles. Os reitores que se mantiveram silenciosos por longo período estavam dispostos a publicizar os problemas das Universidades, sob pena de serem considerados inoperantes. Alertou Ferreira Lima (apud AZEVEDO, J., 1981, p. 200):

O momento é grave. Bastava ver o que tem ocorrido no plano internacional, em Paris, onde se armam barricadas; na Suécia, em países da América Latina etc. [...] A esta altura, os estudantes fazem uma reivindicação à qual ninguém pode permanecer indiferente, solidarizando reitores, professores e alunos. É a reivindicação de recursos.

Para o presidente do CRUB que, o governo ao reter os recursos necessários ao desenvolvimento da Universidade, estava querendo curar um mal com remédios drásticos. Ao diminuir recursos, concedeu vitória à política do Ministério do Planejamento, que era essencialmente privatista.

O poder adquirido por este Ministério era demasiado, chegou a impor limites ao planejamento educacional. O CRUB vivenciou esta a disputa de projetos, nas

comissões de trabalho. A sociedade assistia a subordinação dos demais ministérios, ao do Planejamento. Sobre a situação, comentou o Reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Raymundo de Aragão (apud AZEVEDO, J.,1981,p.201), afirmou na reunião do CRUB em junho de 1968:

O Ministério do Planejamento pretendia tomar a si esta tarefa, e o pensamento do ministro Roberto Campos, quando traçou sua reforma administrativa, foi no sentido de que o Ministério do Planejamento fizesse os planos de todos, enquanto os outros Ministérios meramente os executariam, sempre controlados pelos inspetores de finanças [...]; não satisfeito com o papel de integrador dos planos ministeriais, o Ministério do Planejamento tende a querer um plano de educação modificando a LDB.

O momento parecia ser bastante adverso para os reitores, diante da força dos militares e do poder delegado ao seu ministro de confiança. Dentre as suas metas, estava livrar o Estado do peso da universidade pública e seus custos. O reitor da UFRJ apontou a privatização como uma solução imediata para responder às necessidades das Universidades, somado ao fato de que a privatização era amplamente defendida pelo governo.

Na citada reunião, após debates, foi lida a nota à população e à imprensa, vários reitores fizeram adendos, dentre eles o Reitor Roberto Santos, da UFBA. Ele defendeu a necessidade de inclusões, problematizou a transformação das Universidades em fundações e reiterou a conveniência de que “[...] as autoridades fizessem um cotejo e vissem a situação dos reitores perante o Governo e a comunidade, para evitar o descrédito das universidades”. (SANTOS apud AZEVEDO, J., 1981, p. 208)

Para o reitor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ), Padre Laércio Dias de Moura, o documento deveria sensibilizar a opinião pública e desinflar o movimento estudantil, deveria também, “[...] chamar a atenção para o movimento que está se processando, em que a vivência democrática, não está sendo exercida. Também deveria fazer notar que os reitores não eram contrários à reestruturação universitária”. (MOURA apud AZEVEDO, J., 1981, p. 208). Ao fim da reunião, dois documentos surgiram e foram colocados em discussão e o Reitor Roberto Santos propôs a versão final.

Os registros em Ata da reunião em que se discutiu a nota pública (AZEVEDO, J., 1981, p. 197-212) revelam importantes aspectos da problemática que foram

levantadas pelos reitores. Destacamos um comentário feito pelo reitor da UFRJ, estranhando o fato do Ministro do Planejamento, ter declarado a necessidade de estimular os estudantes a derrubarem as estruturas arcaicas. Em nossa avaliação, o pronunciamento do Ministro Roberto Campos, tinha objetivos. O plano de reforma do governo chegaria de maneira redentora e aplacaria os ânimos exaltados. Era 1968, ano em que o movimento estudantil eclodiu mundialmente, na luta por reformas universitárias que contemplassem suas reivindicações.

Relatos feitos pelos reitores confirmavam a situação de protestos do movimento estudantil. O Reitor Oswaldo Aranha Bandeira de Mello da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP) informou sobre uma faculdade tomada pelos estudantes, reivindicando a renúncia de todos os Diretores e exigindo interferência no processo de escolha de reitor. Na Bahia o Reitor informou que os estudantes também estavam em greve. (AZEVEDO, J., 1981, p. 204)

A reunião extraordinária do CRUB foi importante, naquele momento de turbulência para a Universidade e a sociedade. Pelo que relataram os reitores, as instituições encontravam-se numa situação financeira calamitosa, daí o significado daquele documento para a população e para a imprensa. Significaria a expressão da insatisfação geral do corpo docente, discente e dos dirigentes, transformados em pedintes de ministérios, para honrar os compromissos assumidos. Ata da reunião foi lavrada por Rudolph Atcon, secretário do CRUB.

Em audiência com o Ministro da Educação e Cultura, os reitores, defenderam financiamento e cumprimento do repasse devido. Ameaçaram pedir exoneração em conjunto de seus cargos, caso as verbas do primeiro trimestre não saíssem e só assim foram liberadas. Neste episódio, o objetivo do CRUB, de ser uma organização de dirigentes para atuar em bloco, mostrou resultado positivo.

Os reitores concordaram que a entidade se tornasse intermediária do processo de reestruturação, para tanto, receberiam financiamento proveniente do acordo MEC- Usaid, para empreender a reestruturação administrativa e espacial das Universidades. A implantação das medidas reformistas mudaria a estrutura acadêmica, administrativa e financeira e exigiria um novo modelo de distribuição espacial da Universidade. A origem do problema estava na constituição de Universidades a partir de IES isoladas, que resultou na dispersão espacial e foi um dos impeditivos à desejada integração entre as unidades. Um planejamento integrado teria por finalidade solucionar o problema. Para a tarefa de planejar estas ações, o

CRUB contratou a consultoria de Rudolph Atcon, estudo requisitado pelo CRUB, objetivando uma reforma universitária integral.

O Acordo MEC-Usaid financiaria a reestruturação física das universidades. O Projeto CR-10-PE-5, elaborado e desenvolvido por Rudolph Atcon intitulado: Manual sobre o Planejamento Integral do Campus Universitário foi apresentado ao CRUB em 1970, Advertiu o autor que a obra também é fruto da sua produção pessoal sobre a Universidade contemporânea e que, em todo trabalho, tinha por hábito definir as posições que defendia, objetivando apresentar um argumento completo para a reestruturação da Universidade.

No inicio da sua argumentação, Atcon (1970, p. 8) posicionou-se sobre o planejamento de um campus universitário:

[...] um local geográfico que reúne todas as atividades de uma universidade e as integra de maneira mais econômica e funcional num serviço acadêmico-científico coordenado e da maior envergadura possível, respeitadas as limitações de seus recursos humanos, técnicos e financeiros.

A primeira tarefa seria demolir idéia de cidade universitária, que formaria um cenário para a integração, projeto que não se efetivou. O consultor pretendia superar esta realidade com planejamento. Afirmou que nem mesmo os EUA, que copiaram dos ingleses o modelo de campus, planejaram suas ações. Definiu sua linha argumentativa em defesa do seu projeto, pautando-se na “[...] filosofia integral do planejamento de um campus, em função da organicidade do empreendimento e das novas atribuições que a universidade integral tem”. (ATCON, 1970, p. 10)

Expressou seu desacordo com a tradicional visão de missão da Universidade, ela não seria um gene social que transmite orgânica e passivamente os conhecimentos do passado. Esta concepção refletia-se nos prédios isolados e desconexos entre si e deveria ceder lugar a uma dinâmica diferenciada. Diante do novo papel da Universidade, ela necessitaria de integração entre as unidades físicas e administrativas. Sua missão seria a de desenvolver o indivíduo de acordo com seus interesses; promover contatos estreitos com a comunidade pela extensão; consolidar e ampliar a pesquisa e formar no educando o espírito cívico. A Universidade integral seria um organismo só, o campus um tecido único, solidamente integrado, maleável, funcional.

Fixou os objetivos, voltados para diferentes áreas: educação superior geral; educação e treinamentos não especializados; educação e treinamento de formação profissional; aperfeiçoamento agrícola e industrial; pesquisa científica; cursos de especialização e extensão universitária. A Universidade integral deveria ser econômica, flexível e cooperativa. Teria obrigação de cultivar a pesquisa e a erudição, além de se colocar em permanente reformulação.

Conforme anunciou no início do trabalho, o consultor partiu de princípios e conceitos que criara para apresentar sua compreensão de Universidade. Classificou- as em três tipos: a tradicional, que representaria a aglomeração de IES isoladas e faculdades profissionais sem articulação interna; as em transição, que representariam qualquer grau de avanço em relação às tradicionais; e as de tipo integral, em processo de implantação: “[...] Uma instituição de total interligação de seu ensino, pesquisa, extensão a serviço de todas as carreiras oferecidas, sob uma administração central que atende a atividades e não a meras unidades”. (ATCON, 1970, p. 13)

Na Universidade integral, a autonomia estava garantida, não haveria a intervenção do Estado na administração financeira, acadêmica e científica. Significaria fazer tudo que se considerasse útil, no limite de seus recursos financeiros. Mostrou-se contrário às práticas medievais de se pensar a Universidade como refúgio. Para ele, não deveria haver impunidade, nem mesmo cercas no campus, para evitar qualquer isolamento. Policiamento, só interno, com pessoal da Universidade.

O consultor prosseguiu os esclarecimentos, quanto às definições utilizadas na

No documento UFBA na memória: 1946-2006. (páginas 184-200)