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3 O CASO DOS CRUCIFIXOS NOS TRIBUNAIS BRASILEIROS

3.1 O crucifixo nos Tribunais e a laicidade do Estado

Desde que o Decreto 119-A, de 07 de janeiro de 1890, foi consagrado o Brasil como um Estado Laico. Na Constituição Federal vigente, o princípio da laicidade foi expressamente consagrado pelo artigo 19, inciso I que dispõe:

Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;

A maioria das democracias ocidentais contemporâneas adota a laicidade estatal, é um princípio que opera em duas direções. De um lado, ela salvaguarda as diversas confissões religiosas de intervenções abusivas do Estado nas suas questões internas, como os valores e doutrinas professados, a forma de cultuá-los, sua organização institucional e etc. Mas, do outro lado, a laicidade também protege o Estado de influências abusivas ou indevidas provenientes da esfera religiosa, impedindo qualquer tipo de confusão entre Igreja e Estado, e vice-versa (SARMENTO, 2008).

O Estado ao adotar a laicidade, não quer dizer que tem uma perspectiva

ateísta ou refratária à religiosidade. Na verdade, a negação da existência de Deus, é também uma forma de crença religiosa, e não pode ser privilegiada pelo Estado em detrimento de qualquer outra cosmo visão. Pelo contrário, o princípio da laicidade impõe ao Estado que este se mantenha neutro em relação às diferentes concepções religiosas dentro de nossa sociedade, não podendo o Estado tomar partido em questões de fé, evitando buscar favorecimento ou o embaraço de qualquer crença (SARMENTO, 2008).

O princípio do Estado laico pode ser diretamente ligado a dois direitos fundamentais que tem máxima importância na escala de valores constitucionais:

liberdade de religião e igualdade. No que se refere ao direito de religião, a laicidade caracteriza-se como verdadeira garantia institucional da liberdade religiosa individual. Isto porque, a promiscuidade entre os poderes públicos e qualquer credo religioso, por ela interditada, ao sinalizar o endosso estatal de doutrinas de fé, pode representar uma coerção, ainda que de caráter psicológico, sobre os que não professam aquela ou outra religião (SARMENTO, 2008).

Já a existência de relação direta entre mandamento de laicidade do Estado e o princípio da igualdade é inequívoca. A sociedade brasileira é pluralista, nela convivem pessoas das mais variadas crenças e afiliações religiosas, e até mesmo indivíduos que não professam nenhuma crença, a laicidade se torna um instrumento indispensável para possibilitar o tratamento de todos com o mesmo respeito e consideração (JUNIOR, 2009 <http://docslide.com.br>).

De acordo com o contexto de pluralismo religioso, o apoio dado pelo Estado a qualquer posicionamento religioso implica, necessariamente, em injustificado tratamento desfavorecido em relação àqueles que não abraçam o credo privilegiado, que geralmente são considerados como “cidadãos de segunda classe”.

Algumas pessoas, como, por exemplo, membros da comunidade política, são forçadas a se submeterem ao poder heterônomo do Estado, e este, sempre é exercido com base em valores e dogmas religiosos, o que representa uma inaceitável violência contra os que não os professam (SARMENTO, 2008).

Todos aqueles que não pertencem à confissão religiosa favorecida recebem do Poder Público, a mensagem sub-reptícia, dotada de forte carga excludente, de que as suas crenças são menos dignas de reconhecimento (SARMENTO, 2008).

Lembra Sarmento (2008), que o princípio da laicidade possui múltiplos desdobramentos, um deles é a exigência de diferenciação simbólica entre Estado e

religião. Esta exigência se traduz na proibição do uso de símbolos religiosos, como por exemplo, os crucifixos em estabelecimentos públicos, o uso destes sinaliza a identificação do Estado com as idéias de uma determinada religião da qual provêm estes símbolos.

Fonte: Supremo Tribunal Federal, 2012.

Em nosso contexto constitucional brasileiro, alguém poderia opor-se contra a tese da impossibilidade do uso de símbolos religiosos pelo Estado invocando a menção a Deus, que existe em nosso preâmbulo da Constituição Federal. Com tudo este argumento não seria convincente, pois nosso preâmbulo constitucional é desprovido de força normativa e não informa o princípio da laicidade do Estado, que é explicitamente acolhido pelo texto constitucional (JUNIOR, 2009

<http://docslide.com.br>).

Relata Sarmento (2008) que não se pode alegar que o crucifixo não é um símbolo religioso. Qualquer pessoa, ao ver um crucifixo, vai associá-lo imediatamente ao cristianismo e à sua divindade encarnada. Podemos afirmar que o crucifixo é um dos símbolos religioso mais conhecido em todo o mundo. O crucifixo não é um simples enfeite, usado para embelezar o ambiente. Pelo contrário é detido de um forte sentido religioso, associado diretamente ao cristianismo e à sua figura sagrada - Jesus Cristo.

Quem luta pela manutenção dos crucifixos em espaços públicos, não o faz por razões estéticas, e sim pela identificação com os valores religiosos que este símbolo encarna, e também pela sua crença, refletida ou não, sobre a legitimidade

de o Estado tornar-se um porta-voz destes mesmos valores (SARMENTO, 2008).

A presença desse símbolo religioso em espaços públicos, via de regra, sempre tem uma posição de absoluto destaque e acaba transmitindo assim uma mensagem que nada tem de neutra, associando a prestação jurisdicional à religião majoritária, o que se torna verdadeiramente incompatível com o princípio da laicidade do Estado. A questão posta em debate não é fútil, pois não se trata da melhor forma de decoração dos ambientes públicos, não são flores, são seitas, religiões, formas de pensar, legislar e decidir (SARMENTO, 2008).

Afirmar que seria anti-democrática a retirada dos símbolos religiosos associados ao cristianismo dos tribunais, padece de vários equívocos.Primeira delas, mesmo que a maioria da população brasileira seja majoritariamente cristã, será que esta mesma maioria apoiaria o endosso simbólico da sua fé pelo Estado.

Muitas pessoas mesmo que religiosas, têm a plena consciência sobre a necessidade que há de separar Estado poder público da religião, e não iriam concordar com práticas que sinalizem o endosso estatal de qualquer fé, ainda que seja de sua própria confissão (JUNIOR, 2009 <http://docslide.com.br>).

Poderia se levar a conceber, que a justiça está determinada pelos preceitos católicos, o que faria e faz a parte a se reprimir e se sentir em desvantagem frente a jurisdição.

Relata Sarmento (2008), ainda que a maioria da população apoiasse manifestações simbólicas de preferência estatal por uma determinada religião, tal fato não bastaria para tornar esta medida democrática, não se deve confundir a democracia com o governo das maiorias, deve haver o respeito a uma série de direitos, procedimentos, que atuam para proteger as minorias e assegurar que seja garantido a possibilidade de continuidade da empreitada democrática.

Para Sarmento (2008, p. 198):

Ora, a laicidade do Estado é no Direito brasileiro, um princípio constitucional, que nesta qualidade, foi posto ao abrigo da vontade das maiorias. Trata-se de um princípio diretamente correlacionado aos direitos fundamentais à liberdade religiosa e à igualdade, como já assinalado neste estudo, cujo respeito, portanto, deve ser visto não como um entrave à democracia, mas como um mecanismo essencial ao seu funcionamento, numa sociedade marcada pelo pluralismo religioso e mundividencial.

Não é incorreto afirmar que a presença de crucifixos em tribunais é tradicional no Brasil. O que é uma maneira equivocada é a crença de que o papel do Direito

seja de avalizar e legitimar acriticamente as tradições existentes numa sociedade, por mais excludentes que elas sejam (SARMENTO, 2008).

Fonte: Roberto Arriada Lorea, 2015.

Para Sarmento (2008), o direito como fenômeno social, tem conexões com as tradições e valores dominantes em uma dada sociedade. Todavia, não é certo conceber prescritivamente a ordem jurídica como uma mera instância de afirmação das práticas sociais hegemônicas, já que muitas vezes o papel do direito é exatamente o de combater e transformar hábitos e tradições enraizados, desempenhando um papel emancipador.

Em 2005, o Juiz Roberto Arriada Lorea, da 2ª Vara de família e sucessões do Foro Central de Porto Alegre, propôs uma moção simbólica que sugeria a retirada dos crucifixos das salas de audiência da Justiça gaúcha. Em sua tese o juiz arguia que a presença do símbolo religioso feria o princípio republicano de separação entre Estado e Igreja, a laicidade do Estado brasileiro seria violada pela existência do crucifixo em espaço público. O juiz argumentou da seguinte forma:

de que a presença da imagem religiosa fere a condição leiga do Estado brasileiro, que tem em sua constituição determinada como proibida a referência religiosa por sua parte. A matéria trazia em destaque a foto do crucifixo presente no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) em Brasília e esclarecia a proposta do juiz da 2ª Vara de Família e Sucessões do Foro Central de Porto Alegre. (JUNIOR, 2009 <http://docslide.com.br>).

A moção foi votada no congresso de magistrados estaduais, a votação foi

realizada na cidade de Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, entre os dias 29 de setembro e 1º de outubro de 2005. Lorea não pode comparecer a votação, pois estava fora do país e sua proposta precisou ser apresentada por um colega também juiz, a moção foi votada mais não teve expressiva votação e acabou por ser derrotada (JUNIOR, 2009 <http://docslide.com.br>).

Em fevereiro do ano de 2009, Luis Zveiter o novo presidente do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, determinou que o crucifixo fosse retirado da sala do Órgão Especial daquele Tribunal, e também desativou a capela que existia no Tribunal, que ficava no andar da presidência do Tribunal, e naquele mesmo lugar criou um espaço ecumênico (JUNIOR, 2009 <http://docslide.com.br>).

O CNJ (Conselho Nacional de Justiça) recebeu no ano de 2007 vários pedidos de providências, que pediam a retirada de dos crucifixos afixados em salas dos Tribunais. O argumento central dos pedidos era que a presença de símbolos religiosos em repartições públicas vai contra ao princípio da laicidade que foi consagrado no artigo 19, inciso I da Constituição Federal de 1988 (JUNIOR, 2009

<http://docslide.com.br>).

Para muitos defensores, manter os símbolos religiosos católicos em repartições públicas é uma forma de preconceito e discriminação contra todos aqueles que não comungam da mesma fé. Os defensores acreditam que a religião e qualquer manifestação ligada a ela, devem ficar restritas a vida privada (JUNIOR, 2009 <http://docslide.com.br>).

Sarmento (2008) aborda em seu livro uma importante polêmica:

Será que recusar a possibilidade da presença de cruzes e outros símbolos congêneres nos tribunais significa, necessariamente, rechaçar a constitucionalidade da existência de feriados religiosos como Natal ou Páscoa, ou ainda negar a legitimidade da ação do Estado quando, por exemplo, gasta recursos públicos na conservação do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, ou de igrejas barrocas, em Ouro Preto? A resposta é evidentemente negativa.

A laicidade do Estado trata-se de um típico princípio constitucional, de acordo com a definição de Robert Alexy (2008, p. 81):

Um mandado de otimização, que deve ser cumprido na medida das possibilidades fáticas e jurídicas do caso concreto, e que pode eventualmente ceder em hipóteses específicas, diante de uma ponderação com algum outro princípio constitucional contraposto, realizada de forma cuidadosa, de acordo com as máximas do princípio da proporcionalidade.

Podemos dizer assim que a laicidade não incide em termos absolutos, como as regras, que tendem a operar de acordo com a lógica do “tudo ou nada”. Certas medidas que impliquem em algum tipo de suporte estatal à religião podem ser consideradas constitucionalmente legítimas, se estas poderem ser justificadas a partir de razões não-religiosas, que seja relacionada à proteção de outros bens jurídicos também defendidos e acolhidos pela Constituição, cujo o peso, no caso concreto, sobrepuje a tutela constitucional da laicidade (SARMENTO, 2008).

Isso é o caso da conservação de igrejas barrocas ou monumentos turísticos com conotação religiosa, em que a ação do Estado decorre da sua missão de proteção ao patrimônio histórico, artístico, cultural e paisagístico. O caso também de alguns feriados religiosos, como o Natal e a Páscoa, em que a proteção da liberdade de religião da maioria pode justificar que se lhe conceda a possibilidade de celebração da data, que poderia ficar comprometida casa houvesse a obrigação de trabalhar naquele dia (SARMENTO, 2008).

No caso dos crucifixos nos tribunais não há ponderação de interesses possível, uma vez que não se vislumbra qualquer bem jurídico de estatura constitucional ou mesmo legal que seja promovido com a manutenção destes símbolos religiosos nas cortes de justiça do país (SARMENTO, 2008).

No passado, o Direito buscava fundamentar a sua legitimidade e autoridade na vontade divina revelada. Era esta a compreensão pré-moderna do Direito natural cristão, que ainda hoje conta com alguns seguidores fora das igrejas, porém tornou-se inviável na prática, pois hoje contamos com o pluralismo religioso moral, que existe nas sociedades contemporâneas. A presença de crucifixos em tribunais não é nada mais nada menos que vestígio simbólico da forma antiga e conservadora de compreender o Direito e a Justiça (SARMENTO, 2008).

O Poder Judiciário brasileiro cresceu rapidamente nos últimos anos e têm grande importância, hoje se assiste no Brasil a uma verdadeira judicialização da política e das relações sociais. A justiça também passou a ocupar-se dos grandes conflitos políticos e morais que dividem a Nação, servindo muitas vezes com árbitra final, e decidindo questões tormentosas e delicadas, que vão dos direitos das minorias no processo legislativo até os debates de grande efeito como o aborto e as pesquisas com células-tronco (SARMENTO, 2008).

A grande mudança foi a do cidadão mais humilde que apesar da dificuldade do acesso à prestação jurisdicional, têm passado a procurá-la com mais freqüência,

na busca da solução de seus problemas do cotidiano. Passando assim o Poder Judiciário de instituição quase desimportante, à uma espécie de “guardião das promessas” de direitos humanos e justiça material, asseguradas na Constituição Federal de 1988 e em outros textos legais (SARMENTO, 2008).

Sarmento (2008, p. 201), relata a conclusão central do estudo:

Esta aplicação do papel do Poder Judiciário provoca a necessidade de reflexão sobre a legitimidade de sua atuação. E a conclusão central deste estudo é exatamente a de que tal. legitimidade é negativamente afetada, quando os tribunais se associam a símbolos religiosos, identificando-se a um credo que não é de todos, mas apenas de alguns. Para os jurisdicionados e para a sociedade em geral, esta associação pode comprometer a percepção sobre a imparcialidade do Judiciário, sobre tudo quando estiverem em jogo questões em que a religião favorecida tenha posição firme, como tem ocorrido invariavelmente no Brasil nos casos envolvendo os direitos sexuais e reprodutivos.

Porém em relação aos magistrados, a presença da simbologia religiosa contribuiu para a manutenção de um ethos (o conjunto de hábitos ou crenças que definem uma comunidade ou nação) em que a religião e o Direito não são devidamente diferenciados. Este ambiente pode prejudicar o exercício do dever que pesa sobre todo juiz, de tentar filtrar racionalmente as suas pré-compreensões religiosas, na vontade de evitar que estas tenham influência no resultado de julgamentos (SARMENTO, 2008).

Sarmento (2008, p. 201) conclui em seu estudo sobre os crucifixos nos tribunais e a laicidade do Estado:

Enfim, se a Justiça quer ser a casa de todas e de todos, o que é fundamental para que ela possa cumprir o seu elevado papel no Estado Democrático de Direito, então ela tem de evitar ao máximo as confusões simbólicas com confissões religiosas, ainda que majoritárias. É o que impõe a Constituição da República.

Assim, em março do ano de 2012, o Conselho de Magistratura do Estado do Rio Grande do Sul, determinou a retirada de quaisquer símbolos religiosos que estivessem presentes em espaços do Poder Judiciário do Rio Grande do Sul abertos ao público, respeitando o acordo que foi feito com o processo nº 0139-11/000348-0.

(BRASIL, 2012, Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, <

http://www.tjrs.jus.br>).

O processo nº 0139-11/000348-0 do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul e segue na íntegra a decisão que foi unânime:

PROC. Nº 0139-11/000348-0 - PORTO ALEGRE. RETIRADA DE CRUCIFIXOS E SÍMBOLOS DAS DEPENDÊNCIAS DO TJRS. REDE FEMINISTA DE SAÚDE, SOMOS -COMUNICAÇÃO, SAÚDE E SEXUALIDADE, NUANCES -GRUPO PELA LIVRE ORIENTAÇÃO SEXUAL, LIGA BRASILEIRA DE LÉSBICAS (ADV(S) BERNARDO DALLOLMO DE AMORIM), MARCHA MUNDIAL DE MULHERES, THEMIS - ASSESSORIA JURÍDICA E ESTUDOS DE GÊNERO, INTERESSADOS.

DECISÃO: ACOLHERAM O PLEITO DE RETIRADA DE CRUCIFIXOS E OUTROS SÍMBOLOS RELIGIOSOS EVENTUALMENTE EXISTENTES NOS ESPAÇOS DESTINADOS AO PÚBLICO NOS PRÉDIOS DO PODER JUDICIÁRIO DO RIO GRANDE DO SUL. UNÂNIME.

O relator do processo foi o Desembargador Cláudio Baldino Maciel, e afirmou em seu voto que embora muitos apontem o tema como irrelevante, quando deparado com as questões enfrentadas fica clara a relevância do tema, especialmente quando diz respeito à matéria regida pela Constituição Federal. E também se trata de refletir a respeito da relação entre o Estado e Igreja em um país republicano, democrático e laico (BRASIL, 2012, Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, < http://www.tjrs.jus.br>).

Fundamenta, no que já foi por ora aqui mencionado, que no artigo 19 da Constituição Federal de 1988 veda-se expressamente que a União, Estados e Municípios estabeleçam cultos religiosos ou igrejas, subvencione-os, embaraçar-lhes o funcionamento ou mantenha com eles, ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público. De outro lado, temos no rol dos direitos fundamentais, artigo 5º, incisos VI, VII e VIII, da Constituição Federal que assegura aos cidadãos a liberdade religiosa, a liberdade de crença e de culto, sem esquecer da igualdade, independente das convicções religiosas (BRASIL, 2012, Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, < http://www.tjrs.jus.br>).

Em seu voto o Desembargador Cláudio Baldino Maciel (2012), deixa de forma clara as diferentes direções em que a laicidade opera:

A laicidade opera em duas direções, complementares e importantes: por um lado, o Estado não se pode imiscuir em temas religiosos, ou seja, não pode embaraçar, na dicção constitucional, o funcionamento de igrejas e cultos religiosos ou mesmo manifestação de fé ou crença dos cidadãos, o que significa salvaguarda eficaz para a prática das diversas confissões religiosas; por outro lado, no entanto, a laicidade protege o Estado, como entidade neutra nesta área, da influência religiosa, não podendo qualquer doutrina ou crença religiosa, mesmo majoritária, imiscuir-se no âmbito do Estado, da política e da res pública.

Em palavras mais diretas o Desembargador Cláudio Baldino Maciel quis dizer que o Estado laico protege a liberdade religiosa de qualquer cidadão ou entidade, em igualdade de condições e não permite a influência religiosa na coisa pública (BRASIL, 2012, Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, <

http://www.tjrs.jus.br>).

No Brasil se salvaguarda a crença e a prática religiosa individual ou coletiva ante a ação do Estado, que nelas não pode interferir. Por isso, no Brasil se adota a neutralidade estatal em matéria religiosa, devendo se afastar de qualquer atividade, prática religiosa ou exposição de símbolos religiosos em instituições públicas como forma de garantir a neutralidade frente aos valores religiosos ou mesmo na falta desses valores. Na prática esta realidade está destoando do que foi garantido pela Constituição Federal (BRASIL, 2012, Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, < http://www.tjrs.jus.br>).

O Desembargador Cláudio Baldino Maciel (2012), lembra que hoje em dia é fácil de constatar a existência de uma política de concessão de rádios e televisões que, além de criar inúmeros problemas (criou uma bancada da comunicação social com uma quantidade alarmante de parlamentares titulares de concessões, circunstâncias que viola frontalmente a CF), proporcionou a criação e a manutenção de uma bancada evangélica no Congresso Nacional, hoje com números expressivos, de um total de 513 deputados, 75 compõe a bancada religiosa número maior que a bancada sindical e bancada feminina cada uma com 51 deputados, sendo que no senado têm mais 3 senadores que se juntam a bancada religiosa dando força suficiente para barra a tramitação de qualquer projeto de lei que contrarie elementos de sua doutrina religiosa.

Não haveria nada de errado nesse fato, se o fenômeno não estivesse apoiado, para se criar e manter, em uma extensa rede de rádios e televisões que representam serviço público concedido, cujos os critérios de concessão violam frontalmente a Constituição, para falar ao menos, a isonomia com que tal tema deveria ser tratado no seio de uma nação multirracial, multicultural e multireligiosa como a nossa. E, assim, ocorre no âmbito do Poder Judiciário e outros espaços

Não haveria nada de errado nesse fato, se o fenômeno não estivesse apoiado, para se criar e manter, em uma extensa rede de rádios e televisões que representam serviço público concedido, cujos os critérios de concessão violam frontalmente a Constituição, para falar ao menos, a isonomia com que tal tema deveria ser tratado no seio de uma nação multirracial, multicultural e multireligiosa como a nossa. E, assim, ocorre no âmbito do Poder Judiciário e outros espaços

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