3. Sobre a Morte
3.1 O cruel encontro com a morte.
No fundo, ninguém crê em sua própria morte, o inconsciente de cada um de nós está convencido de sua imortalidade. Com estas afirmações Freud abre o segundo capítulo de seu texto “Reflexões para os tempos de guerra e morte”, e nos convida a refletir a cerca da relação
78 de negação, que estabelecemos com a ideia de nossa própria morte, na tentativa vã de dissimular nossa finitude.
Cada indivíduo esmera-se na tentativa de manter a ideia de morte afastada do convívio cotidiano, na tentativa de eliminá-la da vida. Através de um esforço para reduzir a morte a um fato fortuito. Tal atitude, em contrapartida, exerce um poderoso efeito sobre a vida. Na medida em que quando estes esforços falham, abre-se a dimensão do sofrimento. “O complemento a essa atitude cultural e convencional para com a morte é proporcionada por nosso completo colapso quando a morte abate alguém que amamos”. (FREUD, 1974, pág. 328). A negação do sujeito da idéia de sua própria morte pretende fazer cair no esquecimento seu caráter certeiro, por isso, quando ela se insinua imperiosa, via enfermidade, causa angústia e medo.
Vale a pena nos determos um momento sobre a diferenciação que Freud marca em relação ao medo e a angústia, pois nos valerá mais a frente. A angústia, (angst) no dicionário alemão, significa medo. Em geral, indica um sentimento de grande inquietude perante uma ameaça de dano. Refere-se tanto à ameaças específicas, como inespecíficas. A angústia promove uma reação intensa, trata-se, como ressalta Freud, do afeto que não engana. Ao longo de sua obra, Freud não cessa de destacar que a Angst expressa um estado de transbordamento, de um excesso de estímulos, que causam um afeto descontrolado,25
promovendo a desorganização do aparelho psíquico. O afeto suscitado é visceral e imediato, indica uma reação intensa de ameaça, aniquilação ou dano. O medo por outro lado, protege o aparelho psíquico, ao postergar o encontro com o objeto aflitivo, produzindo um estado de expectativa diante do perigo, resultando certo preparo para ele, mesmo que seja desconhecido. Enquanto o susto, não permite qualquer preparo, trata-se de um estado que se entra correndo perigo, sem estar preparado para ele; o que desestabiliza o aparelho, ao prevalecer o fator surpresa, que pode levar ao trauma, devido a uma inundação energética inesperada do aparelho psíquico26. Desta forma, a experiência da presentificação da morte é causadora de
25 Fonte: notas do tradutor brasileiro da obra de Freud: “Além do Princípio de Prazer”, de 1920. Traduzida pela Imago, sob coordenação de Luiz Alberto Hanns em 2006.
79 angústia, na medida em que falham os recursos de significação, na tentativa de delineá-la e compreende-la. Não há, portanto, objeto definido, ou definição simbólica possível.
Em seu ensaio, Freud, ainda perplexo pela carnificina e grande número de mortos, em decorrência da Primeira Guerra, afirma que a guerra está fadada a varrer este tratamento convencional da morte, na medida em que esta deixou de ser um acontecimento fortuito e se impôs em larga escala. Não será mais possível negá-la ou afastá-la do campo cotidiano. “As pessoas realmente morrem, não mais uma a uma, porém muitas, frequentemente milhares de dezenas em um único dia” (ibidem, pág. 329). E não é justamente isso que ocorre no hospital? Guardadas, é claro, as devidas proporções?
A morte se instala dia-a-dia nos setores, principalmente os de urgência e os de tratamento intensivo. O contato é constante com situações extremas de sofrimento, causados pela instalação da enfermidade e a constante sondagem da morte, que espreita sorrateira, através do corpo degradado do paciente. Ela também afronta a sanidade do médico, colocando a prova a sua finitude ao funcionar como um aviso, de que a morte está por vir, e nos abaterá a todos. Em consequência, o profissional encontra-se incapacitado de manter com a morte uma relação de afastamento.
Diante deste afeto extremamente aflitivo, o aparelho psíquico lança mão de um mecanismo de defesa, a saber, a divisão do conteúdo da consciência. Isto significa, que ao entrar em contato com uma situação muito tensa e que confronta o aparelho, - devido a uma incompatibilidade em sua vida representativa- o indivíduo visa à imediata eliminação deste agente aflitivo, através de uma reação patológica. Uma destas estratégias é a transformação de uma representação forte em uma representação fraca através da retirada do afeto. Desta forma, o ego consegue libertar-se da contradição com a qual é confrontado.
Trazendo luz a nosso questionamento, podemos aferir que o confronto com a morte proporciona uma experiência aflitiva, que coloca em contradição a certeza da imortalidade garantida pelo inconsciente. Desta forma, o contato pungente com a morte, faz tal certeza vacilar, produzindo, portanto, angústia. Como forma de livrar-se desta contradição e afetação, 26Fonte: notas do tradutor inglês da obra de Freud: “Além do princípio do prazer”, de 1920.Traduzida pela Imago, por James Strachey em colaboração com Anna Freud em 1976, versão brasileira.
80 o aparelho psíquico lança mão como estratégia, a retirada de afeto desta experiência, produzindo uma representação fraca, que não proporcione grande choque com a constância do aparelho. A carga retirada, por sua vez, pode ser redirecionada para o corpo, em um fenômeno chamado conversão, através da inervação somática, escoando por um canal impróprio. Ou ainda subsidiar outros tipos de formação sintomática.
Para nosso estudo, lançamos os seguintes argumentos: o profissional de saúde está submetido cotidianamente à experiência de contato direto com a morte. Assim, na tentativa de livrar-se do afeto suscitados- que põe em risco a constância do aparelho psíquico, princípio sempre almejado- produz como formação sintomática a antecipação da morte do paciente no campo discursivo, via protocolar.
Ou seja, conhecimento científico serve de anteparo em relação à afetação frente ao adoecimento, indício da presença da morte. Portanto, na tentativa de livrar-se do afeto suscitado pela impossibilidade de inscrição no campo simbólico, busca-se a linguagem científica para aferir sentido e reconduzir a experiência conflitante, para o campo da certeza. Queremos dizer que, a antecipação da morte do moribundo produz um apaziguamento naquele que cuida, na medida em que, reconfigura a morte como presente, somente, no campo (e corpo) do outro. Podendo assim, fazer prevalecer, novamente, a ideia de sua imortalidade.
Desta forma, as práticas médicas que deveriam estabelecer a cura, em casos extremos, conduzem a morte ao antecipá-la. E em contrapartida, restabelecem o domínio da certeza, tão almejada pelos indivíduos.