CAPÍTULO 1 – O ENVELHECIMENTO HUMANO E A TRANSFORMAÇÃO
1.3 O CUIDADO COMO PRIORIDADE NO PROCESSO DE ENVELHECER
Quando se fala em envelhecimento, não se pode deixar de abordar o cuidado, palavra presente em todos os contingentes populacionais, mas intimamente ligada ao processo de envelhecer. A literatura a seguir abordará algumas peculiaridades do cuidar no cenário da saúde remetendo a alguns questionamentos. Quem é afinal o profissional do cuidado? Como se dá o cuidado? Como transformar a prática idealizada em uma realidade? Como estão sendo preparados os profissionais cuidadores?
Percebe-se que nem todos os profissionais têm em sua formação o privilégio de aprofundar e exercitar o cuidado em sua plenitude e de forma integral e, contudo, nem sempre com a visão humanista, que respeita o ser humano e o considera em sua totalidade, fazendo a verdadeira diferença, pois a existência do outro ser é percebida e enaltecida. O outro dá o sentido do eu. Portanto, cuidar do outro favorece o cuidar de si; através do crescimento do próprio ser, resulta o cuidado pelo ser do outro. É, enfim, uma atitude ética em que os seres humanos percebem e reconhecem os direitos uns dos outros (WALDOW, 2004).
O cuidado envolve responsabilidade, compromisso, comprometimento e envolvimento com seu próprio ser, com o outro e com o universo. Em outras palavras quem cuida envolve, interage, se responsabiliza pelo crescimento e bem estar do outro, uma planta, um animal ou a natureza como um todo.
Seguindo os fundamentos filosóficos do cuidar, Waldow (2004, p. 19) afirma que:
ser é cuidar, e as várias maneiras de estar no mundo compreendem diferentes maneiras de cuidar. Para se tornar um ser de cuidado, um cuidador, o ser precisa, primeiro, ter experienciado o cuidado, ou seja, ter sido cuidado. A capacidade de cuidar está, portanto, relacionada ao quanto e como o ser foi cuidado. Através do cuidado, percebe-se a existência de outros além do que se é; o outro dá o sentido do eu.
Para Silva (2004), falar do cuidado coletivo, do cuidado social, do cuidado pessoal, com o outro, com o ser humano, o convívio, a troca, nada mais é do que tratar do cuidado com a vida. Todos os outros cuidados, ou seja, o cuidado com o que é inanimado, reflete de
alguma forma em cuidado com a vida; inclusive aí existe troca: necessita-se do que é inanimado para ter vida. E ao se pensar com maior profundidade, ainda se conclui que até o que se chama de inanimado possui vida. A autora salienta que aprendeu a definição mais bonita de cuidado em uma aula com o médico e escritor Gaiarsa: “cuidar é colocar em prática o verbo amar”. Ele afirma que o único jeito de ser feliz é cuidar dos que estão próximos. Isso se resume na base de uma vida feliz.
É na valorização da vida, constituída de relações, que a forma como ocorre a comunicação é essencial, e nessa comunicação estão presentes profissionais que cuidam, ouvem, ajudam e desenvolvem a educação em saúde, quando prestam o atendimento com cuidado.
Não precisamos ser os melhores intelectuais, os melhores profissionais; se buscarmos ser pessoas melhores, tudo será consequência. É tão simples... São nos pequenos gestos diários. Se ao acordar e falar “bom dia” a alguém estivermos presentes, atentos e envolvidos naquele instante, estaremos olhando no olho, estaremos realmente desejando um bom dia para o outro e, certamente, o outro perceberá e se sentirá valorizado; estaremos cuidando de uma relação, estaremos cuidando da vida e, mais uma vez, colocando o verbo amar em prática. E quanto tempo este gesto vai levar? Será que não temos tempo? Só se não tivermos mais vida (SILVA, 2004, p. 126).
Como definição de cuidado, Waldow (2004, p. 21) diz que
cuidado é um processo, um modo de se relacionar com alguém que envolve desenvolvimento e cresce em confiança mútua, provocando uma profunda e qualitativa transformação no relacionamento. Repetindo, é ajudar o outro a crescer e se realizar.
Lacerda e Costenaro (1999) explanam que o cuidado é tido como uma essência. Este é mais do que uma simples execução de procedimentos; o cuidado é relação, expressão, envolve empatia, autenticidade, aceitação, um dispor-se, um estar sempre junto com o ser cuidado. Vai além dos aspectos técnico, instrumental ou físico, para atingir um patamar mais elevado, abrangendo todas as dimensões do ser, que inclui também o lado emocional e a parte espiritual.
Waldow (2004) contribui reforçando que o cuidar é o ato consciente de amor, de ajuda; é educar para a liberdade, auxiliar nas horas em que o sujeito necessita para voltar a caminhar sozinho; é respeitado pela individualidade como ser único e ser do mundo, que tem história e que faz a sua história colocando conhecimentos, arte a serviço de quem dele necessita.
O cuidado, segundo Mayeroff (1971), não é necessariamente recíproco. As coisas não respondem na mesma forma em que se responde a elas. Por exemplo, a criança não é capaz de cuidar de seus pais, já o contrário acontece. Da mesma forma, certos pacientes em terapia e outras situações como o coma. Cuidado, é importante ressaltar, não é um negócio, em que ocorre uma troca, isto é, se cuido de você, você cuida de mim.
Já Boff (1999) refere-se ao cuidar como sendo algo mais que um ato, é uma atitude, tem a ver com a postura e o modo de agir de cada um. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, responsabilização e envolvimento afetivo com o outro. O autor ainda privilegia o amor como fenômeno biológico, a ternura, a carícia, a cordialidade, a confiabilidade e a compaixão como dimensões importantes para o equilíbrio e a coexistência.
O cuidado é um sentimento que envolve ligação e zelo, tanto com a existência do outro quanto com a própria; um relacionamento dedicado no qual, sentimentos são transformados em comportamentos e reflexões. Por isso é preciso ir além da mera execução de procedimentos técnicos, embora sejam importantes para a execução do cuidado, afinal são integrantes do trabalho, mas que devem ser realizados de forma que proporcionem autonomia, sempre que possível, e estimule o autocuidado.
Atualmente o mundo está permeado de conflitos, guerras, violência e corrupção. Ao mesmo tempo convive com a beleza, a bondade, a solidariedade e a busca da paz. Contudo, se deixar o não-cuidado prevalecer, será parte de uma sociedade, de homens e mulheres, que tende a se brutalizar, tornando-a desumana e destruindo não só a si própria como também ao meio ambiente que a cerca. Para que isso não se torne uma realidade irreversível é necessário que se busque o sonho, iluminando a escuridão e tornando o cuidado um imperativo moral, parte de nosso dia a dia, como um ideal, um sonho real, consciente, preservando e respeitando a vida, o outro e o meio (WALDOW, 2004).