A gerontologia reúne em seu escopo conceitos oriundos de disciplinas distintas, visando abranger a mutidimensionalidade do processo de envelhecer numa perspectiva interdisciplinar. Dentre os profissionais que atuam em gerontologia está também o enfermeiro que participa no cuidado ao idoso (PAVARINI et al., 2005).
Alvarez e Gonçalves (2006) pontuam que, na enfermagem, o foco e a expressão essencial é o cuidado, apesar de o mesmo não ser uma ação exclusiva dessa classe profissional. A respeito do cuidar de enfermagem em gerontologia afirmam que este, como um processo, está atrelado ao conhecimento da realidade do idoso e família para a construção de ações de enfermagem planejadas. Reforçam as autoras que esse processo compreende a consideração de amplos aspectos vivenciados pelo idoso e pela família, como os biológicos, sociais, psicológicos e espirituais, buscando a promoção da vida e saúde. Elas enfatizam ainda a relação entre profissional e idoso/família, sendo que a mesma deve ocorrer de modo interativo e dinâmico.
Apontam ainda que no cuidado de enfermagem gerontológico, de forma simplificada, tem-se como objetivos principais promover a qualidade de vida, promover apoio, tratamento e cuidados específicos para essa faixa etária buscando compensar as incapacidades e limitações decorrentes do envelhecimento.
Sá e Ferreira (2004) apontam que trabalhar com idosos a partir de uma concepção de cuidados que atendam suas necessidades biológicas e psicossociais considerando a complexidade do processo do envelhecimento é um grande desafio para a Enfermagem Gerontológica. Numa perspectiva de autocuidado, essas autoras salientam que os idosos têm a capacidade de pensar por si mesmos, analisar e decidir sobre o que é bom para si pela reelaboração de conhecimentos, o que muitas vezes é auxiliado por orientações profissionais.
De acordo com Hammersmidt et al. (2006), o cuidado gerontológico de enfermagem deve ser regulado pelo respeito e sensibilidade, mediado pela interação entre profissional e idoso/família. Deve valorizar a interação, reconhecendo a influência mútua, valorizando o cuidado digno na busca do bem-viver, promovendo não só o cuidado técnico, mas todas as dimensões envolvidas no processo de envelhecimento, pela relação dialógica e de uma visão plural de cuidado.
Nessa mesma linha de pensamento, Lima e Tocantins (2009) ressaltam que essa postura sensível que ocorre por meio da interação favorece o desenvolvimento de medidas que levem à manutenção da saúde e bem-estar do idoso. Apontam ainda que os idosos têm necessidade de conversar e esperam também da enfermagem ações não técnicas como a compreensão, o conforto, o consolo e o carinho e que pela interação é possível reconhecer as necessidades de saúde e assistenciais dos idosos.
Caldas (2006) aponta o autocuidado como um cuidado primário em saúde, como uma importante estratégia para a manutenção da saúde funcional de idosos. Afirma, ainda, que quando os pacientes se transformam em companheiros ativos da equipe de saúde, o autocuidado é verdadeiramente alcançado. Para essa autora, o destaque está no estabelecimento de relações abertas e na tomada de decisão de forma compartilhada entre idoso e profissional, exigindo assim uma flexibilidade especial na abordagem profissional.
De acordo com Parissoupoulos e Kozabassaki (apud Caldas, 2006) existe uma conexão íntima entre a responsabilidade e o autocuidado, sendo este uma atividade racional. Também afirmam que os aspectos socioculturais interferem na disposição da pessoa para engajar-se no autocuidado bem como na obtenção e sustentação de comportamentos que levem ao bem-estar e à promoção da saúde.
Neves e Wink (2007, p. 175), ao descreverem suas trajetórias percorridas no desenvolvimento das concepções sobre autocuidado, acreditam que o mesmo é um
processo cognitivo, afetivo e comportamental desenvolvido ao longo da vida que se consolida quando a pessoa compromete-se em assumir responsabilidade pessoal pela condução da sua própria vida em direção à conquista da integralidade nas relações consigo e com o mundo no qual se encontra inserida. Este processo é facilitado quando a pessoa se interessa e busca ajuda de profissionais das várias áreas do conhecimento, se arrisca em aprofundar-se no conhecimento de si, na assunção de um papel ativo em sua vida, no sentido do crescimento e da conquista de melhor qualidade em seu processo de viver.
Lopes et al. (2008), num estudo bibliográfico sobre o autocuidado com indivíduos hipertensos, apontam que um dos fatores que facilitam o desenvolvimento do autocuidado são as atitudes desenvolvidas relacionadas à mudança de hábitos. Salientam o ensino do autocuidado como ferramenta importante para as mudanças necessárias e que o mesmo é apreendido por meio da interação humana. As mesmas autoras apontam a necessidade de os profissionais desenvolverem uma prática profissional regulada pela interação e troca de experiências buscando valorizar o autocuidado como necessário ao desenvolvimento e bem- estar do ser humano.
Alvarez (1990), numa pesquisa realizada com idosas, constatou que as mesmas apresentaram competência para o autocuidado buscando superar limitações decorrentes do processo de envelhecimento. A mesma autora aponta que a teoria do autocuidado, adaptada e aplicada ao idoso, contribui para a transformação de suas crenças e valores, o que favorece a assistência de enfermagem aos mesmos. Ressalta que apesar de os idosos adquirirem alguns conhecimentos de autocuidado decorrentes de experiências de vida ou de situações de saúde e doença, ainda assim é necessária a aquisição de novos conhecimentos que permitam novas práticas de autocuidado que tragam benefícios ao bem- estar.
Honório e Santos (2006), num trabalho de sistematização de prática de enfermagem junto a idosas com incontinência urinária, desenvolvido no Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina, utilizando a teoria do autocuidado associada às
concepções de educação de Freire, concluíram que a educação voltada para o autocuidado propiciou a corresponsabilidade das idosas no processo decisório, foi eficaz e possibilitou uma melhora na qualidade de vida das pesquisadas.
Dentre os diversos modelos teóricos que enfatizam o cuidado, destacamos a teoria de autocuidado de Orem, que é utilizada em diversas especialidades da enfermagem, dentre elas a gerontologia.
CAPÍTULO 3
REFERENCIAL TEÓRICO - A TEORIA GERAL DO AUTOCUIDADO
Na enfermagem, o desenvolvimento de teorias se deu a partir da evolução da profissão e da necessidade de solidificar conhecimentos para a edificação de um saber profissional próprio. Assim, buscou-se construir bases teóricas para fundamentar a pesquisa e a prática. Nesse sentido, as teorias de enfermagem contribuem para a constituição de uma base concreta de conhecimentos (GEORGE, 2000).
Vale lembrar que o desenvolvimento de teorias em enfermagem teve início com Florence Nightingale e prolonga-se até os dias atuais. Em especial, a década de 1970 foi muito rica para a enfermagem no sentido de propostas e construções teóricas, na qual muitas teorias foram apresentadas pela primeira vez, dentre elas a Nursing: concepts of practice, publicada em 1971 por Dorothea Orem (GEORGE, 2000).
O referencial teórico que deu sustentação a este trabalho foi a teoria geral do autocuidado de Dorothea Elizabeth Orem, que pode ser categorizada como teoria orientada para as necessidades/problemas, pois, ao enfocar necessidades ou problemas, busca por intermédio do processo de enfermagem corrigi-los ou resolvê-los (GEORGE, 2000). A ênfase maior foi na parte da teoria de Orem denominada “sistema de apoio-educação”, que permitiu suprir as idosas do apoio e informações necessárias para se conduzirem dentro do próprio processo de cuidado e de promoção de saúde.
A teoria geral formulada por Orem pode ser entendida da seguinte maneira: a necessidade por cuidados de enfermagem no adulto se dá pela ausência ou déficit da manutenção contínua do autocuidado, essenciais à saúde e à vida, fato que ocorre em decorrência de doença ou efeitos desta. Na criança, o déficit de manutenção do cuidado é inerente à incapacidade de pais ou responsáveis. Nessa teoria também fica implícita a promoção da responsabilidade do indivíduo pelo cuidado à saúde. A teoria tinha como foco inicial o autocuidado individual, que posteriormente foi ampliado para grupos, família e comunidade (FOSTER e BENNETT, 2000).
Cabe destacar que, na formulação de sua teoria, Orem não fez proposições específicas para o idoso. Seus apontamentos são mais específicos para cuidados de enfermagem com adultos. No entanto, quando descreve os requisitos desenvolvimentais de autocuidado, fala da necessidade de provisão de cuidados naquilo que caracteriza como
estágios da vida, dentre eles a velhice; estágio este do qual fazem parte as mulheres deste estudo.
Segundo Orem (1995), o cuidado é um termo empregado para significar coisas diferentes em conjunturas diferentes. Nas profissões da saúde, dentre as quais a enfermagem, cuidar significa assistir, fazer provisões de ou para, ser responsável por e cuidar de pessoas.
Orem procurou, ao longo de sua carreira, desenvolver conceitos de autocuidado de enfermagem, definindo-os como a prática de atividades, iniciadas e executadas pelos indivíduos, em seu próprio benefício, para a manutenção da vida, da saúde e do bem-estar. Em seu modelo geral de enfermagem, apresentou três construções teóricas: a Teoria do Autocuidado, a Teoria do Déficit do Autocuidado e a Teoria dos Sistemas de Enfermagem, todas interligadas e inter- relacionadas, tendo como foco básico o autocuidado e sendo, ainda, passíveis de aplicação a todas as pessoas que necessitem de cuidado (FOSTER e BENNETT, 2000).