CAPÍTULO II: Sobre os sentidos do cuidar
2.8 O Cuidar como Ofício
É chegado o momento de tentarmos vislumbrar de que forma o percurso teórico que fizemos nos auxiliará na compreensão da atividade profissional do enfermeiro, particularmente no que tange aos significados simbólicos do cuidar.
Neste sentido, acreditamos que vale retomar brevemente o itinerário teórico exposto neste capítulo. Primeiramente buscamos compilar as reais condições em que se
deu a profissionalização da enfermagem, o que constitui um aspecto importante pois nos traz a realidade concreta dos fatos acompanhada do imaginário a ela associado. A seguir, propusemos a consideração de que muito freqüentemente as ciências naturais dissociam os cuidados de ordem física e psíquica, uma vez que vêem o ser humano de forma compartimentada; a cada profissional é dado cuidar da mente ou do corpo, quando eles, “em separado”, apresentam-se “doentes”.
Na seqüência tivemos por intenção colocar em pauta a subjetividade inerente aos cuidados ofertados pelo enfermeiro ao paciente, já que é uma relação humana que ali está presente, e, assim sendo, são duas pessoas inteiras que estão envolvidas em uma situação em que um solicita e outro provê alguma ordem de cuidados.
Feitas as considerações acerca da profissão e da conseqüente impossibilidade de se colocar em separado uma atuação do enfermeiro que pudesse ser apenas de cunho técnico e dirigida restritamente ao corpo do paciente, fomos em busca da compreensão de quais poderiam ser os sentidos simbólicos para o enfermeiro em trabalhar como uma profissão que tem no cuidar sua principal função.
Como um locus de estudo capaz de nos oferecer o simbolismo desta vivência do enfermeiro, fizemos uma volta ao desenvolvimento emocional infantil, posto estar nele as origens de um cuidado que, vivido e internalizado na infância, poderia vir a ser transposto simbolicamente para as atuais relações vividas em meio à atividade profissional. Foi então que o estudo da família como uma instituição que provê cuidados essenciais e particularmente da relação primeira que o bebê estabelece com o mundo externo e com uma pessoa, a mãe, se tornou nosso foco de atenção.
Findamos nossas considerações teóricas, cumprindo este trajeto com uma referência à vivência de uma relação entre mãe e bebê que inicialmente parece ser predominantemente corporal bem como apontamos a sua estreita correspondência com o desenvolvimento psíquico.
O percurso teórico assim estabelecido neste capítulo abre a possibilidade de pontuarmos as seguintes reflexões acerca da vivência de ter como Ofício o Cuidar:
A história da enfermagem a que tivemos acesso nos leva a pensar que desde os seus primórdios, a essência desta profissão é a prestação de um cuidado que guarda semelhanças com os cuidados que uma mãe provê aos seus filhos e aos entes mais próximos de sua família. Lentamente, aos conhecimentos domésticos e maternos foram
incorporadas técnicas e saberes científicos característicos a área das ciências naturais, o que resultou em uma ampliação da forma de atuação do enfermeiro. Acreditamos, contudo, que a profissionalização não desfez a semelhança entre a atuação do enfermeiro e uma espécie de maternagem, que nos parece estar presente no bojo da profissão.
Esta maternagem, que entendemos o enfermeiro “exercer” em sua atuação se assemelha à função materna de acolher, conter e responder às demandas inicialmente físicas e psíquicas de seu bebê. Queremos explicitar que ao enfermeiro parece ser necessária uma disposição interna para que possa acolher e oferecer continência física e até mesmo psíquica ao paciente, pois é uma pessoa que está diante de si que se apresenta enferma, e não apenas um de seus órgãos, como por vezes a compartimentalização das ciências naturais nos quer fazer crer.
Acreditamos que a capacidade de continência física e psíquica do enfermeiro é posta à prova a todo instante durante sua atuação, uma vez que geralmente ele tem de lidar com situações em que a dor, a fragilidade e o sofrimento humanos estão de alguma forma presentes. Seja em decorrência de uma dor física do paciente, ou de um diagnóstico ruim que ele recebeu, seja quando da necessidade de acompanhar um paciente terminal; em diversos momentos é necessário ao enfermeiro compartilhar de situações difíceis com seu paciente, como a degradação de sua saúde e de seu corpo, a presença iminente da morte, a incerteza quanto a um prognóstico.
Enfim, são situações em que o enfermeiro deve se dispor a não apenas oferecer cuidados de ordem física, mas também psíquica na medida em que tem de dispor de recursos internos para ser um suporte suficientemente forte, que dê continência a intensos sentimentos provenientes da situação em que se encontra o paciente, bem como de elaborar ao mesmo tempo as próprias angústias suscitadas por cada situação, com cada paciente.
Nem sempre, necessariamente, a capacidade de desempenhar este papel a que estamos nos referindo como a uma função materna é desempenhada por uma mulher, posto que aludimos a uma função que pode estar presente também em um homem. Uma função que a princípio faz parte das atribuições maternas, mas que é também característica de profissões em que o cuidar é central durante a atuação profissional, como podemos observar em Winnicott:
Os cuidados em torno da criança giram em torno do termo “segurar”, principalmente se permitirmos que seu significado se amplie à medida que o bebê cresce e que seu mundo vai se transformando mais complexo. O termo pode incluir, com muita propriedade, a função do grupo familiar,e, de uma forma mais sofisticada, pode também ser empregado para caracterizar o trabalho com casos, tal como ele se dá nas profissões cuja característica básica é a prestação de cuidados (WINNICOTT, 1998, p. 53).
Lembremos que o termo “segurar” na obra de Winnicott refere-se ao aspecto físico do holding materno, e este mesmo conceito pode ser empregado para caracterizar as profissões que têm como característica básica a prestação de cuidados, ou seja, a mesma concepção que apreendemos acerca dos cuidados maternos direcionados ao bebê pode estar presente na atuação e na função desempenhada pelo enfermeiro. Uma função que não deixa de ser materna, no sentido em que guarda relações com uma maternagem que pode ser de fato continente às necessidades físicas e psíquicas do bebê, às necessidades físicas e psíquicas do paciente.
Passado e presente das vivências do enfermeiro se entrelaçam nesta função materna que ele acaba por desempenhar; um cuidado sentido e internalizado na infância se refaz constantemente de forma simbólica em sua atual atividade profissional. Na vida adulta e profissional se torna possível, re-elaborar e construir subjetivamente novos referenciais acerca dos cuidados que podem ser vivenciados, ainda que não como o sujeito de um cuidado recebido na infância de forma passiva, mas ativamente na vida adulta.
As representações simbólicas forjadas na mente do enfermeiro com base nas atuais relações de cuidado, coadunadas às já existentes, advindas de seu passado, formam então novas articulações da vida mental, enriquecendo e ampliando o “repertório” emocional de sua vida mental na medida exata daquilo que conhecemos como a possibilidade de reelaborar e ampliar nossos próprios recursos egóicos.
Quanto ao contato físico entre enfermeiro e paciente, acreditamos ser através dele que se dá a possibilidade concreta de re-viver e re-elaborar tais vivências passadas: é através de um contato físico que uma relação de cuidados se estabelece. O corpo do paciente e do enfermeiro estariam igualmente envolvidos nesta situação não fosse pela diferença de que é o enfermeiro quem deve ser continente à situação vivenciada. Inicialmente, em nossa vida, para que pudéssemos ter acesso à continência psíquica, foi
necessário que antes houvesse um corpo que nos contivesse fisicamente, vivência esta bastante arcaica e que pode também permear os significados simbólicos do cuidar.
Concluindo nosso conjunto de formulações teóricas e de reflexões, gostaríamos de deixar presente a idéia de que o Cuidar como Ofício constitui-se em mais que um objeto de estudo de nossas investigações, em que buscamos os significados simbólicos do cuidar para o enfermeiro, mas é, em essência, uma pequena amostra da forma como o ser humano vivencia muito de sua subjetividade quando em contato com sua atividade profissional.