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O custo dos riscos psicossociais no trabalho no Brasil

2.1 Os riscos psicossociais no trabalho no Brasil

2.1.2 O custo dos riscos psicossociais no trabalho no Brasil

Perito da Previdência Social há nove anos, o médico do trabalho João Silvestre da Silva-Júnior foi

responsável por uma pesquisa de mestrado,

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realizada em 2012, no âmbito da Faculdade de

Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), sobre as causas dos transtornos mentais

relacionados ao ambiente de trabalho. “O cientista notou que a violência no trabalho ocorre pela

humilhação, perseguição, além de agressões físicas e verbais e listou quatro razões principais

que prejudicam a saúde mental no ambiente corporativo”.

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A primeira razão identificada na pesquisa foi a “alta demanda de trabalho”. Segundo o

pesquisador “as pessoas têm baixo controle sob o seu ritmo de trabalho” e “são solicitadas a

realizar várias e complexas tarefas”. O outro aspecto mencionado foram os “relacionamentos

367 SILVA JÚNIOR, João Silvestre da. Afastamento do trabalho por transtornos mentais e fatores associados: um estudo caso-controle entre trabalhadores segurados da Previdência Social. 110 f. (Doutorado em Saúde Púbica) – Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo. São Paulo. 2012.

368 “A pesquisa coletou dados na unidade de maior volume de atendimentos do INSS da capital paulista, a Glicério. Foram ouvidas 160 pessoas com algum tipo de transtorno mental. Silvestre informa que, entre as pessoas que pediram o auxílio doença nos últimos quatro anos, uma média de 10% apresentava algum tipo de transtorno”. CRUZ, Fernanda. Pesquisa aponta causas dos transtornos mentais provocados pelo ambiente de trabalho. Agência Brasil. 11 mai. 2013. Disponível em: <https://goo.gl/SEpcUh>. Acesso em 13 out. 2016.

369 CRUZ, Fernanda. Pesquisa aponta causas dos transtornos mentais provocados pelo ambiente de trabalho. Agência

interpessoais ruins, tanto verticais (com os chefes), quanto horizontais (entre os próprios

colegas)”.

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A terceira razão mencionada foi “o desequilíbrio entre esforço e recompensa. Você se dedica ao

trabalho, mas não tem uma recompensa adequada à dedicação. A gente não fala só de dinheiro.

Às vezes, um reconhecimento, um elogio ao que você está desempenhando”, segundo explica João

Silvestre.

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Por fim, o último, embora não menos importante aspecto que aparece como conclusão

da pesquisa é a dedicação excessiva ao trabalho, que também foi apontada como um fato de risco

para o desenvolvimento de doenças que abalam a a saúde mental.

Todas os aspectos apontados pelo autor da pesquisa já foram descritos há muito como sendo riscos

reconhecidamente classificados como “psicossociais”.

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É certo que a originalidade do estudo

reside no fato de ter sido realizado um trabalho de campo na cidade de São Paulo no tocante a

estes fatores. Todavia, não causam surpresa as constatações, tendo em vista que diversas

classificações já apontaram tais fatores, dentre uma série de outros, como sendo as causas para o

adoecimento psíquico relacionado ao trabalho. Colocadas estas circunstâncias, cabe a indagação a

respeito de qual o custo da exposição contínua dos brasileiros a estes fatores de risco.

O impacto dos riscos psicossociais no trabalho nos gastos públicos, ainda que subestimado por

uma cultura de subnotificação das doenças do trabalho de um modo geral e das doenças mentais

relacionadas ao trabalho de um modo específico, é certamente de alta monta. Segundo “o Anuário

Estatístico da Previdência Social de 2011, mais de 211 mil pessoas foram afastadas em razão de

transtornos mentais, gerando um gasto de R$ 213 milhões em pagamentos de benefícios”.

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Em

2014, mais de 220 mil pessoas no Brasil receberam auxílio-doença pago pelo INSS por

transtornos mentais e comportamentais, sendo que 83.237 destes brasileiros foram diagnosticados

com quadro depressivo.

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370 CRUZ, Fernanda. Pesquisa aponta causas dos transtornos mentais provocados pelo ambiente de trabalho. Agência

Brasil. 11 mai. 2013. Disponível em: <https://goo.gl/SEpcUh>. Acesso em 13 out. 2016. 371

CRUZ, Fernanda. Pesquisa aponta causas dos transtornos mentais provocados pelo ambiente de trabalho. Agência

Brasil. 11 mai. 2013. Disponível em: <https://goo.gl/SEpcUh>. Acesso em 13 out. 2016.

372 BARUKI, Luciana Veloso. Riscos Piscossociais no Trabalho e Saúde Mental do Trabalhador. São Paulo: LTr, 2015, p.41.

373 CRUZ, Fernanda. Pesquisa aponta causas dos transtornos mentais provocados pelo ambiente de trabalho. Agência

Brasil. 11 mai. 2013. Disponível em: <https://goo.gl/SEpcUh>. Acesso em 13 out. 2016.

374 REVISTA CIPA. Mais de 200 mil pessoas no Brasil receberam auxílio-doença por transtornos mentais em 2014. 9 mar. 2015. Disponível em: <https://goo.gl/1LB5My>. Acesso em 11 out. 2016.

Em 2014, saíram dos cofres da Previdência Social R$ 25,6 bilhões em benefícios para

trabalhadores com os mais diversos problemas de saúde.

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Se pensarmos que os problemas

mentais e comportamentais representam a terceira causa de longos afastamentos do trabalho por

doença, perdendo apenas para as lesões e contusões por esforços repetitivos, é possível afirmar

que o Estado brasileiro gasta certamente uma quantia astronômica para custear o afastamento de

trabalhadores que adoeceram devido à exposição aos riscos psicossociais no ambiente de trabalho.

No entanto, para além do custo financeiro, há que se falar ainda no custo social, familiar e pessoal

da exposição aos riscos psicossociais no trabalho, que certamente é imensurável. Alguns setores

são campeões em adoecimento. A título de exemplo, podemos mencionar a atividade de ensino. É

cada vez maior o número de professores que adoece em função da baixa valorização, das pressões

e da falta de apoio e estrutura para lidar com a sala de aula. Em 2014, “mais de 1.200 professores

da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro ficaram licenciados por depressão ou transtornos

mentais”, número este correspondente a 12,5% do total de 9.680 mil docentes que se afastaram

por meio de licença médica no referido ano. Neste setor, “o afastamento por motivos psiquiátricos

é a segunda maior causa, perdendo apenas para os 33% por problemas ósseos e fraturas”.

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Do

mesmo modo, no varejo, no teleatendimento e no setor bancário, as metas abusivas, as práticas de

assédio institucionalizadas e as longas jornadas têm levado a um quadro grave de adoecimento.

Ainda que não se afastem, boa parte dos trabalhadores (alocados nestes e nos demais setores da

economia), estão trabalhando doentes e muitas vezes às custas de medicamentos psicoativos.

Trata-se do fenômeno do presenteísmo. Em oposição ao absenteísmo, que ocorre quando o

trabalhador falta ao trabalho, presenteísmo é o nome dado ao fenômeno de se estar de corpo

presente no ambiente de trabalho, mas, por vários motivos o profissional não tem produtividade.

Ou seja, o indivíduo está fisicamente presente, mas a mente não está.

Uma pesquisa realizada pela International Stress Management Association (Isma) com cerca de

1000 profissionais cujas idades variaram entre 25 e 60 anos “detectou que o problema está

diretamente ligado ao excesso de estresse negativo no trabalho. O presenteísmo se apresenta com

375 REVISTA CIPA. Mais de 200 mil pessoas no Brasil receberam auxílio-doença por transtornos mentais em 2014. 9 mar. 2015. Disponível em: <https://goo.gl/1LB5My>. Acesso em 11 out. 2016.

376 NETO, Laura. Depressão tira 1.210 professores de sala da rede estadual do Rio: afastamento por motivos psiquiátricos foi a segunda maior causa. O Globo. 1 mar. 2015. Disponível em: <https://goo.gl/VaS4QY>. Acesso em 13 out. 2016.

sintomas físicos, emocionais e comportamentais”.

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A figura abaixo ilustra alguns desses

sintomas, segundo as conclusões da pesquisa realizada pela Isma.

377 ZH VIDA. Entenda o que é presenteísmo, problema que causa desânimo e excesso de tensão no trabalho. 22 jun 2016. Disponível em: <https://goo.gl/SR6FLC>. Acesso em 11 out. 2016.

Figura 1 – Presenteísmo: o que a pesquisa revelou

Fonte: ZH VIDA. Entenda o que é presenteísmo, problema que causa desânimo e excesso de

tensão no trabalho. 22 jun 2016. Disponível em: <https://goo.gl/SR6FLC>. Acesso em 11 out.

2016.

Isto posto, não restam dúvidas de que o problema dos riscos psicossociais no trabalho representa

hoje um grande desafio a ser enfrentado pela sociedade brasileira. Parece necessário entender

então quem são os atores envolvidos nesta seara para conhecer suas potencialidades e aspectos

positivos, bem como os pontos falhos, e que impedem um enfrentamento adequado do tema.

Aparentemente, um sistema jurídico repressivo é o caminho que o país tem procurado seguir. No

entanto, suspeita-se que este caminho ainda se encontra “por percorrer”, tendo em vista as falhas

institucionais existentes. De todo modo, conforme passa-se a discutir, um sistema preventivo,

embora ideal, não parece ser a tônica no caminho trilhado pelo Brasil.