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Capítulo 2 – O lugar do endividamento externo

2.4. O custo social do pagamento da dívida externa

Podemos olhar para os custos do endividamento sobre diversas perspectivas e tentaremos brevemente resumir algumas das consequências mais evidentes, a saber: (1) a transferência de recursos reais para o exterior; (2) a queda do produto, o aumento do desemprego e da inflação; (3) uma maior concentração da renda; (4) o aumento da vulnerabilidade externa; e (5) a perda de autonomia na política econômica.

Qualquer processo de endividamento, por menor que seja, pressupõe que obrigações assumidas no presente tenham reflexos diretos nas ações e obrigações futuras. No caso da dívida externa brasileira, houve um comprometimento das receitas futuras “acreditando-se” que o período do “milagre” seria eterno. E que a partir daquele momento o país estaria inserido no rol de países do “Primeiro Mundo”. Por incompetência ou

80 Segundo Rabah Benakouche, entre 1968 e 1980 tivemos o chamado período de endividamento

explícito, com uma política econômica clara e orientada para tal. (BENAKOUCHE, Rabah. Bazar da dívida

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cinismo, as autoridades brasileiras não contavam com as mudanças radicais ocorridas na economia mundial ao longo da década de 1970, os sucessivos choques do petróleo, o aumento absurdo das taxas de juros internacionais, a deterioração nos termos de troca e as sucessivas crises por que passou o capitalismo a nível mundial. No entanto, não era possível desconsiderar que qualquer política econômica baseada na dependência externa estaria sujeita às flutuações das economias centrais. Por outro lado, nem o “milagre”, nem o recurso à poupança externa para financiar o crescimento, seriam suficientes para alterar a posição do Brasil na divisão internacional do trabalho.

Dessa forma, o ciclo vicioso do devedor que necessita de novos empréstimos para pagar os contraídos no período anterior, tornou-se a tônica da economia brasileira a partir do final dos anos 1970.81 No triênio 1982-1984 o serviço da dívida alcançava quase US$ 20 bilhões, variando entre 7% e 7,8% do PIB. Como vimos, a transferência de recursos ao exterior se deu na forma de recessão e compressão da demanda interna, para gerar saldos comerciais que pudessem suprir o serviço da dívida.

A transferência de recursos reais para o exterior, durante a década de 1980, da América Latina rumo aos países centrais, parece não ter tido precedentes na história do capitalismo. Por isso, cabe aqui fazer uma breve comparação com outras situações históricas semelhantes.

Ressalte-se que essa transferência latino-americana é a maior e mais conhecida que houve na história mundial. A maior indenização paga por um país europeu foi realizada pela França para a Prússia ao perder a guerra, que representou 5,6% do PNB francês, em 1872-1875. O segundo maior pagamento feito a título de indenização é da Alemanha

aos países “aliados”, por ter sido responsável pelo início da Primeira

Guerra Mundial; tais valores atingiram 2,5% do PIB alemão, com pagamentos realizados entre 1926 e 1931. Cabe destacar ainda o que se deixou de pagar, devido à moratória adotada pelo Plano Hoover, em 1932.82

Na América Latina, entre 1980 e 1990, a transferência líquida de recursos chegou a US$ 198,3 bilhões. A dívida externa, que era de US$ 166,6 bilhões em 1979, alcançou

81 Sabemos que o endividamento externo brasileiro não se inicia na década de 1970, mas ressaltamos que

nesse período se altera a natureza do capital que ingressa no país e, sobretudo, o volume de empréstimos. Além disso, a economia passa a ser programada de acordo com a quantidade de capital passível de ser captado no mercado internacional. (Ver BENAKOUCHE, Rabah. Bazar da dívida externa brasileira. São Paulo: Boitempo, 2013, p.45-46.).

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US$ 443 bilhões em 1990.83 O PIB per capita da América Latina teve uma queda de 8%

de 1980 a 1984. Isso quer dizer que se os países eram pobres, periféricos, subdesenvolvidos, ou como se queira denominar, eles ficaram ainda mais pobres nesse período.

No Brasil, especificamente, a situação não foi diferente, as desigualdades só aumentaram e a renda tornou-se mais concentrada, afinal, como sempre, os lucros são privados e os prejuízos socializados, pois,

Quando se trata de um país subdesenvolvido, quase sempre não há disponibilidade de recursos de capital ou de produção para elevar a oferta, sendo apenas possível reprimir a demanda. Quanto a reprimir a demanda, as medidas do governo do país pobre atingem apenas aos mais pobres, que dependem das decisões quotidianas para sua sobrevivência. A repressão ao consumo atinge assim aos compradores de feijão, roupas e geladeiras, mas não aos compradores de terreno, barcos e aviões. Cortada a procura dos pobres, a crescente dependência das importações segue lampeira o seu caminho, a financiar viagens turísticas em torno do planeta e a comprar no exterior geringonças eletrônicas cada vez mais sofisticadas. Dessa forma, a redução do crédito atinge apenas os mais pobres, e a produção que eles já não podem comprar se transforma em bens exportáveis, mostrando a grande

eficiência que a economia “Robin Hood” às avessas possui.84

A transferência de recursos ao exterior, nesses termos, foi ainda mais cruel, pois, foi feita neste contexto de queda da produção e do emprego, e aumento da concentração da renda. O PIB per capita, em 1980, era de US$ 3052 e caiu para US$ 2770, em 1984.85 O índice, considerando 1980 = 100, caiu para 73,2 em 1984.86 A taxa da variação do PIB foi de 9,1% em 1980, -3,1% em 1981, 1,1% em 1982, -2,8% em 1983, 5,7% em 1984. Já o produto industrial cresceu 9,1% em 1980, caiu -0,4% em 1981, -0,4% em 1982, -6,1% em 1983, 6,1% em 1984.87 A formação bruta de capital fixo em relação ao produto era de 22,9% em 1980 e caiu para 16,9% em 1984.88

83 CANO, Wilson. Soberania e política econômica na América Latina. São Paulo: Editora UNESP, 2000, p.35. 84 BARBOSA, Wilson do Nascimento. A Crise Econômico-Financeira e o Recurso a uma Política Anticíclica.

1986. Disponível em: <https://sites.google.com/site/dnbwilson/>. Acesso em: 01 out. 2014.p.12-13

85 Valor em dólares de 2000. IBGE. Estatísticas Históricas do Brasil, Século XX. 86 IPEA. IPEADATA: base de dados macroeconômicos.

87 ABREU, Marcelo Paiva (Org.). A ordem do progresso: cem anos de política econômica republicana, 1889- 1989. Rio de Janeiro: Elsevier, 1990.

88 Estatísticas históricas do Brasil: séries econômicas, demográficas e sociais de 1550 a 1988. 2. ed. Revista

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A variação do salário mínimo real foi de 2,5% em 1980, -1,9% em 1981, 0,7% em 1982, -10,2% em 1983, -8,8% em 1984, -10,1% em 1985.89 Entre 1980 e 1985, os salários pagos pela indústria caíram 13,67%90 e a parcela da renda total apropriada pelos 1% mais ricos e pelos 10% mais ricos cresceu pouco mais de 2%, enquanto que a parcela apropriada pelos 50% mais pobres caiu 0,60%.91 Em 1981 havia pouco mais de 50 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza e, em 1984, esse número alcançou 63 milhões de pessoas.92 Em 1981 o coeficiente de Gini era de 0,584 e aumentou para 0,598 em 1985.93

A queda da renda, do produto e do investimento são provas de que a política recessiva, posta em prática para gerar os saldos comerciais necessários para o pagamento da dívida, obteve sucesso. Porém, a inflação ainda era um problema e, ao menos no discurso, ela era combatida. A inflação era outro ator perverso para os mais pobres pois servia, antes de mais nada, para rebaixar os salários dos trabalhadores. Entre 1980 e 1985 as taxas anuais de inflação foram de 110%, 110,2%, 95,2%, 99,7% 211%, 223,8% e 235,1%, respectivamente.94 Dívida externa, dívida interna, déficit público e inflação, são parte, e porque não consequência, de um mesmo processo.

O déficit público não poderia ser assim analisado, deixando-se de lado a história do país. As elites ou as classes dominantes sempre fizeram poupança no exterior. Cada país subdesenvolvido é caracterizado

oficialmente como um “importador de capitais”. No caso latino-

americano, tais países exportam mais capitais do que importam. Daí a escassez de divisas em que vivem. Daí a dificuldade para um país que exporta inclusive ouro e pedras preciosas – como o Brasil – pagar anualmente ao exterior algo além de suas despesas de juros. Enquanto as benesses geradas pelo endividamento externo e interno tomam diferentes destinos, os custos resultantes se consolidam como

“públicos” e se inscrevem no orçamento do país como “déficit”.

Analisado socialmente, trata-se de um procedimento sem surpresas. Insuficiência interna de poupança; insuficiência de investimentos; endividamento; déficit público; são todos elos inseparáveis de uma mesma cadeia de eventos.

[...]

O resultado da política de endividamento havia de ser uma ampliação estrutural do déficit. Na ausência de divisas, ou de crescente poder de compra no exterior, eventuais valorizações da produção local deviam levar a correções cambiais, para cobrir os gastos da dívida externa e

89 Ibidem.

90 Ibidem.

91 IPEA. IPEADATA: base de dados macroeconômicos. 92 IPEA. IPEADATA: base de dados macroeconômicos. 93 IPEA. IPEADATA: base de dados macroeconômicos. 94 Fundação Getúlio Vargas, Conjuntura Econômica – IGP-DI.

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assegurar o pagamento dos juros. A política doméstica deve continuamente recorrer à dívida mobiliária, emitindo títulos ou base monetária. Essa chamada inflação de custo inviabiliza o crescimento sustentado da economia local.95

Ou seja, o processo de endividamento externo imobilizou completamente o Estado, único ente capaz, dentro do contexto periférico, de aumentar os níveis de investimento e, portanto, buscar o crescimento da economia. Além de, potencialmente, criar uma política redistributiva que pudesse minimamente favorecer a parcela mais pobre da população.

O endividamento externo trouxe também como consequência um aumento da vulnerabilidade externa do país. Com o grande peso da dívida nas costas, a economia brasileira tonou-se muito mais suscetível às flutuações da conjuntura internacional, mudanças de preços, com consequente deterioração dos termos de intercâmbio, o aumento das taxas de juros internacionais, as variações do ritmo de crescimento das economias centrais, o aumento do protecionismo, as especulações com moeda no mercado financeiro internacional, as desvalorizações das moedas conversíveis, etc. Dessa forma, pôde-se ver o estrago causado na economia nacional com o segundo choque do petróleo e o aumento brusco das taxas de juros nos Estados Unidos, ambos ocorridos em 1979. Isso significa que as decisões tomadas pelos formuladores da política econômica durante a Ditadura, no período do endividamento explícito, fizeram com que o país perdesse o pouco de autonomia que ainda lhe restava.

No período de análise (1969-1986), o Brasil pagou um preço enorme para colocar-se entre os primeiros da fila dos países em “vias de

desenvolvimento”. Sua capacidade autônoma de gerar políticas

econômicas que correspondessem à sua especificidade esgotou-se, com a perda da relativa autonomia. O país teve que enquadrar-se no esquema do FMI, que sempre lhe teve reservada uma função secundária na divisão internacional do trabalho. Dessa situação é difícil escapar. As tentativas mais à esquerda, buscando formular soluções heterodoxas que não sejam simples esparadrapos na situação real de profundo desequilíbrio, carecem – como o Plano Cruzado – de força política de sustentação dentro do governo.96

95 BARBOSA, Wilson do Nascimento. Políticas econômicas do governo e estagnação: duas décadas perdidas (1981-2000). São Paulo, 2004. Relatório de Pesquisa. Programa de Pós-Graduação em História

Econômica, Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. p.57-59.

96 BARBOSA, Wilson do Nascimento. A Crise Econômico-Financeira e o Recurso a uma Política Anticíclica.

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Neste sentido, o constante vai-e-vem de ministros da área econômica rumo aos Estados Unidos, e de membros do FMI e dos bancos credores em missões especiais no país, dão uma ideia de quão soberano era o Brasil para pôr em prática as suas políticas econômicas. As Cartas de Intenção eram o principal meio de controle dos órgãos internacionais em relação à economia. E foram várias ao longo da década de 1980, oito, até 1988. Durante o governo Figueiredo, o “superministério” comandado por Delfim Netto ou mesmo o Banco Central, com seus presidentes Ernane Galvêas, Carlos Langoni e Affonso Celso Pastore, pareciam ter menos poder e controle sobre a economia brasileira do que Paul Volcker, presidente do FED (Banco Central dos Estados Unidos), Donald Reagan (Secretário do Tesouro dos Estados Unidos) e Jacques de Larosière (diretor-geral do FMI).