1.3 U M CONCEITO EM DISPUTA
1.3.2 O D ISCURSO VENCEDOR
O posicionamento de Le Corbusier ao final da década de 1930 amadureceu de fato após o fim da Segunda Guerra Mundial, no que a historiadora Romy Golan chamou de “inversão de sinais” . A arte mural continuava a ser proclamada como apropriada para humanizar a arquitetura 40
moderna. No entanto, artistas e arquitetos se empenhavam em redimir o muralismo do tom politico que este adquiriu nos anos de 1930. Buscava-se enfim, o que se chamou de uma Nova Monumentalidade, algo condizente com os valores que estavam sendo forjados dentro de uma nova ordem mundial.
Os grandes porta-vozes destas propostas eram os artistas, arquitetos e intelectuais que já mostravam estas tendências em seus discursos no entreguerras. Com o fim da Grande Guerra, seus argumentos ganhavam a força do discurso vencedor, e a sistematização necessária para se estabelecer como um modelo internacional. Neste sentido, as reuniões do CIAM foram um veículo importante para a consolidação e disseminação das práticas vinculadas a esta nova monumentalidade. Os CIAMs de 1947, 1949 e 1951 mantiveram ativas as discussões sobre a
LÉGER, Fernand. A parede, o arquiteto, o pintor. Palestra do IV CIAM, 1933. p. 117. Este e outros textos foram
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publicados pela Ed. Nobel, em português, em 1989. Cf. LÉGER, F. Funções da pintura. São Paulo: Nobel, 1989. GOLAN, Romy, op. cit. p.181.
síntese das artes. Os resultados destes encontros eram observados mundialmente como uma agenda para a sustentação de um muralismo moderno. Este deveria manter-se longe da figuração, como um modo de evitar as narrativas nacionalistas, e utilizar-se de técnicas modernas, como os mosaicos de pastilhas de vidro.
Esta abordagem era considerada como uma libertação das artes maiores de um escopo limitado. De fato ela resultou na ampliação dos usos da arte mural, uma vez que a partir desse momento, observou-se uma aplicação constante desta arte não apenas em construções oficiais, mas em diferentes empreendimentos, como residências, lojas, restaurantes, clubes, etc. Nas palavras de Golan, neste período, ocorreram diversas
(…) tentativas de vários arquitetos e artistas de redimir os complexos arquitetônicos monumentais por uma nova - humanista ao invés de populista - re-escrita pós-guerra do conceito de síntese das artes, com a intenção de transformação, ou pode-se mesmo dizer de descontaminação, da ideia de obra de arte total que existia antes. 41
Embora os debates acerca dos usos da arte mural pelos governos totalitários para a afirmação de uma ideia de identidade nacional fosse algo localizado, o apelo para uma nova monumentalidade, apropriada à atualização arquitetônica que se dava nos anos de 1950 foi aceito de forma positiva nas Américas. Nos Estados Unidos, um dos debates europeus para o qual a produção mural se voltou é justamente o que Golan chamou de uma tendência “mais humana”, uma ressignificação da relação entre arte e arquitetura. É possível notar a disseminação destes ideais na América do Norte, como no texto introdutório ao catálogo Murals in Architecture, uma exposição acontecida sob os auspícios da Sociedade Nacional de Pintores Muralistas, em Nova York:
Após a Segunda Guerra Mundial, a arquitetura americana estava sob a influência de teorias funcionalistas da Bauhaus - e por muitos anos os murais foram considerados um elemento estranho ou intrusivo na concepção arquitetônica. Mas o impacto visual é também a função de um edifício e os arquitetos estão novamente compreendendo isso - e estão de novo chamando os artistas por sua influência humanizadora na fria e impessoal arquitetura dos dias de hoje. 42
Finalmente as palavras de Léger proferidas no CIAM de 1933 - revistas e publicadas nas décadas de 1940 e 1950 tanto nos Estados Unidos, como na França - encontravam o cenário ideal.
Idem, p.05. Livre tradução: (…) the attempts by various architects and artists to redeem monumental architectural
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complexes by a new - humanist rather than populist - postwar rewriting of the concept of the synthesis of the arts, intent on shedding, or one might even say decontaminating itself from, the concept of the total work of art of the one that preceded it.
American Federation of Arts. “Murals in architecture”. [Exhibition] sponsored by the National Society of Mural
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Painters and the Architectural League of New York; circulated by the American Federation of Arts under the auspices of the Aline Rhonie Brooks Estate. Published [New York, The Society, 196-]. Livre tradução: Following the Second World War, American architecture was under the influence of the functionalist theories of the Bauhaus - and for many years murals were considered to be an extraneous or intrusive element in the architectural concept. But visual impact is also a function of a building and architects are again realizing this - and are again calling for the artists for their humanizing influence on the cold impersonal architecture of today.
Os universos dentro dos quais a arte mural floresceu nas Américas não alimentavam nenhuma simpatia especial pelas questões a respeito do uso social e nacional do muralismo. Pelo contrário, este argumento, trazido à tona pelos italianos nos anos de 1930, parecia distante e desbotado perto da sedutora ideia de tornar a arquitetura moderna mais palatável ao grande público por meio da inserção de belos murais. A partir desta abordagem, os murais passaram a estar presente em diversos projetos pelas cidades, das residências às escolas, restaurantes, clubes, cinemas, etc.
Este movimento certamente garantiu uma enorme plataforma de divulgação para a síntese das artes. A nova monumentalidade, livre dos temas nacionais triunfava enfim em uma renovada proposta urbana de integração das artes, mesmo que isso significasse que a arte voltava a se transformar naquilo que um dia uniu italianos e franceses em um mesmo lado: um produto para o consumo das elites.