Quando centramos as nossas análises sobre as ações para o reconhecimento jurídico e das práticas da Igreja Católica, percebemos que os caminhos traçados para a separação entre os poderes político e religioso no Brasil e em Portugal seguiram caminhos distintos. Mesmo com propósitos parecidos, a
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SILVA, Isabel, 2013, p. 262.
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execução dos projetos laicizadores foi divergente devido aos modelos adotados pelos representantes políticos de cada país.
Um dos principais pontos que colaborou para a distinção do processo de laicização no Brasil e em Portugal foi o reconhecimento da personalidade jurídica da Igreja. A proposição garantia o direito de manutenção das práticas católicas em cada lugar. O reconhecimento decorreu “dos próprios ordenamentos jurídicos do Estado e da Igreja: ou se reconhecem um ao outro ou se ignoram”210
.
No Brasil, as reivindicações por um Estado independente da Igreja Católica acompanharam os debates sobre a implantação do sistema republicano. Em meados do século XIX, as discussões sobre o fim da vinculação do clero ao trono imperial era uma das pautas dos intelectuais, positivistas e alguns religiosos que enxergavam diversas problemáticas na união. Temáticas como a obrigatoriedade do registro civil, o ensino laico, que já era uma reivindicação dos homens das letras dos principais centros de ensino; o casamento civil, o controle dos óbitos e dos cemitérios fora das amarras da Igreja estiveram presentes entre as diversas discussões nos anos que antecederam a República211.
Com a proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, membros do governo provisório se empenharam na elaboração de novas normas jurídicas para o país. A iniciante conjuntura política era o momento para se quebrar os privilégios presentes no império e perpetuados pela dependência do clero ao poder real. Para as negociações entre o Estado e a Igreja Católica foram nomeados o jurista Ruy Barbosa (1849 – 1923), ministro da fazenda do governo de Marechal Deodoro da Fonseca (1827 – 1892), e o arcebispo Dom Antônio de Macedo Costa (1830 – 1891), respeitado entre os eclesiásticos e já experiente nos debates com o governo.
210
MATOS, Luís Salgado de. Para uma tipologia do relacionamento entre o Estado e a Igreja. In. FERREIRA, António Matos; MATOS, Luís Salgado de (Org.). Interações do Estado e das Igrejas: instituições e homens. Lisboa: ICS, 2013. p. 29.
211
O registro civil foi criado com o decreto nº 5604 de abril de 1874, de autoria do deputado João Alfredo Correia de Oliveira. A obrigatoriedade dos registros foi estabelecida com o decreto nº 9886 de março de 1888.
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A República no Brasil chegou com dois sentimentos para os membros da Igreja Católica, em um momento de instabilidades e tensões em diversos setores do clero. O novo sistema político foi visto por alguns como uma possível salvação, devido à liberdade que poderia ser adquirida pelo clero, com o fim do regime do padroado, a possibilidade de executar seus ajustes internos e a liberdade de realizar as publicações dos seus regimentos sem a necessidade da autorização prévia do governo. No entanto, o 15 de novembro de 1889 também foi recebido com ressalvas pela possibilidade da implantação de um anticlericalismo defendido por alguns grupos de republicanos. O decreto de separação entre os dois poderes também foi observado como uma afronta à Igreja Católica, que perdia o status de religião oficial do país. Sua representação diplomática deixava de participar dos atos públicos e constituía um Estado não confessional, com a Igreja Católica na posição de qualquer outra prática religiosa212.
Mesmo com a instabilidade dos primeiros anos da República, integrantes do governo provisório reforçaram os compromissos firmados com os diversos setores da sociedade, com garantias da continuidade das suas práticas socioculturais, a exemplo dos católicos, mesmo em um sistema de governo que defendia o Estado laico. Neste instante, amparava-se o princípio da liberdade individual, com a rejeição de organizações autoritárias em suas crenças e tradições. No âmbito religioso, a Igreja teve sua influência limitada, para que, assim, não reprimisse a liberdade individual com a imposição de um dogma213.
Três dias após as movimentações que levaram à Proclamação da República, o governo provisório, representado pelo ministro das relações exteriores Quintino Antônio Bocayuva (1836 – 1912), enviou uma correspondência ao Internúncio Apostólico no Brasil, Monsenhor Francesco Spolverini (1887 – 1891), com explicações sobre os acontecimentos e as mudanças políticas decorridas no país. Com o documento, garantida-se as práticas religiosas e as
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FAUSTO, Boris (Dir.) O Brasil Republicano: sociedade e instituições (1889 – 1930). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004. T. 03, V. 02. p. 325.
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intenções para a manutenção dos debates entre as instituições. Na carta, destacou-se que:
[…] O Governo Provisorio, como declarou na sua proclamação de 15 do corrente, reconhece e acata todos os compromissos nacionaes contrahidos durante o regimen anterior, os tratados subsistentes com as pontencias estrangeiras, a divida publica externa e interna, os contractos vigentes e mais obrigações legalmente estatuídos. No governo provisório, de que é chefe o Sr. Marechal Manoel Deodoro da Fonseca, tenho a meu cargo o Ministro das Relações Exteriores e é por isso que me cabe a honra de dirigir-me a S. E., assegurando-lhe em conclusão que o governo provisório deseja vivamente manter as relações de amizade que teem existido entre a Santa Sé e o Brasil. Aproveito esta primeira occasição para ter a honra de offerecer a S. E. as seguranças da minha alta consideração214.
A segurança estabelecida pelo governo e os diálogos travados entre os membros do poder civil e do clero, foram pontos fundamentais para as negociações entre as instituições durante o processo que buscava implementar um projeto de secularização no país. As declarações realizadas pelo Ministro das Relações Exteriores demonstraram a construção de uma nova diplomacia entre o governo brasileiro e a Santa Sé, que naquele momento passou a se apoiar nos fundamentos de colaboração internacional.
Diferente do que é defendido por Isabel Corrêa da Silva, no Brasil percebemos atritos entre o Estado e a Igreja, mesmo antes da prisão dos bispos de Olinda e de Belém do Pará, com questões que se arrastaram até o início da República215. Em uma nação com forte poder dos religiosos sobre a população, desde os tempos da colônia, os membros do novo governo agiram para apaziguar as relações entre as duas instituições, que se demonstraram pouco amistosas no decorrer do império. Durante as discussões para a publicação da lei de separação entre o Estado e a Igreja, os católicos liderados por Dom Macedo Costa, foram atuantes nas causas para a manutenção das suas práticas e nas críticas às ações
214
Secção Central. Rio de Janeiro. Ministero das Relações Exteriores, 18 de novembro de
1889. Archivio Segreto Vaticano (Ciudad del Vaticano). Archivio della Nunziatura Apostolica in
Brasile. Nº 68, fasc. 329. Doc. 147.
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de laicização simbólica. Com as negociações entre os dois poderes, buscava-se um equilíbrio das tensões herdadas dos períodos anteriores.
Segundo Isabel Corrêa da Silva, a Questão Religiosa (1872 – 1875), no Brasil, não apresentou contornos de uma militância política com contribuições de livre pensadores. Em sua pesquisa, a autora demonstrou que o evento foi um episódio sem desdobramentos para as negociações entre o Estado e o clero, após 15 de novembro de 1889. No entanto, sabemos que a prisão dos bispos e a intervenção política de D. Pedro II nas decisões da Igreja Católica, foram alguns dos pontos que enfraqueceram o seu poder, inaugurando um novo momento nas afinidades entre o político e o religioso.
Simone Tiago Domingos demonstrou em sua tese de doutoramento as diversas querelas que constituíram uma questão religiosa durante o império brasileiro. O seu trabalho apresentou as dificuldades enfrentadas pelos membros da Companhia de Jesus para se instalarem no Brasil, incentivada em grande medida pela limitação que o governo impôs às ações da Igreja Católica216.
A rejeição das ordens regulares obedeceu a uma política centralizadora e defensora de um Estado forte, que investiu no trabalho para a extinção gradativa das organizações eclesiásticas do país. As propostas defendidas pelo Ministro da Justiça do Império Brasileiro, José Tomás Nabuco Araújo (1813 – 1878), previam a proibição da vinda de noviços ao país e o confisco dos bens das suas ordens217.
Para Simone Domingos, a Questão Religiosa no império foi resultado de um processo de laicização da sociedade. Para a autora, o processo para o fim da aliança entre a esfera política e religiosa aconteceu antes mesmo da publicação
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DOMINGOS, Simone Tiago. Política e Religião: repercussões da polêmica sobre o retorno dos jesuítas ao Brasil durante o Segundo Reinado (1840 – 1870). 2014, 313 p. Tese (Doutorado em História). Universidade Estadual de Campinas / Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Campinas, 2014. p. 02, 03, 48, 87.; Cf. ALTOÉ, Valeriano. “O Altar e o Trono” – um mapeamento
das ideias políticas e dos conflitos no Brasil – Estado no Brasil (1840 – 1889). 1994, 397 p. Tese (Doutorado em História). Universidade Federal Fluminense / Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Niterói, 1994.
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da legislação secular, com o isolamento da Igreja Católica em relação às decisões políticas do país218.
Como resultado desta política anticlerical, os membros da Igreja Católica adotaram uma posição defensiva para garantir a sua atuação na sociedade. O enfraquecimento do clero durante o Império impediu a organização de um movimento estruturado contra a República, seja pela sua desorganização ou pela “limpeza” das ações eclesiásticas já realizadas durante o século XIX, o que livrou os republicanos de organizarem medidas anticlericais219.
Durante os debates para a elaboração do Decreto 119-A, a Questão Religiosa direcionou a escolha das instituições para um debate diplomático, a fim de conter os atritos que ainda estavam presentes no cenário político brasileiro220. André Luiz Caes demonstrou como, a partir dos eventos da década de 1870, ocorreram mudanças significativas na organização e na forma de atuação da Igreja Católica. Após o episódio, os projetos de romanização tomaram força na constituição de um clero militante. Tais modificações foram percebidas por pensadores republicanos, que intensificaram suas propostas de constituição de um Estado laico e contrário à influência romana, presente nos debates para a elaboração de uma lei de secularização para o país221.
Os dirigentes políticos, os intelectuais e os militares que assumiram o poder foram diplomáticos nos debates com a Igreja. No início da República, evitaram-se posturas anticlericais radicais, por não haver a necessidade da implementação de uma política laicista e para que não se desencadeassem movimentações contrárias ao novo sistema de governo. Mesmo sem a participação efetiva da
218 DOMINGOS, 2014, p. 91. 219 DOMINGOS, 2014, p. 100 – 101, 104. 220 SILVA, Isabel, 2013, p. 213. 221
CAES, Andre Luiz. As portas do inferno não prevalecerão: a espiritualidade católica como estratégia política (1872-1916). 2002. 218 p. Tese (Doutorado em História), Universidade Estadual de Campinas / Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Campinas, 2002. p.10.; Cf. MARTINS, Karla Denise. O Sol e a Lua em tempo de eclipse: a reforma católica e as questões políticas na Província do Grão-Pará (1863-1878). 2001. 220 p. Dissertação (Mestrado em História), Universidade Estadual de Campinas / Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Campinas, 2001.; VILLAÇA, Antônio Carlos. Historia da Questão Religiosa. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1974.; CASTELLANI, José. Os Maçons e a Questão Religiosa. Londrina: Trolha, 1996.
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população nas decisões em torno da Proclamação da República, o grupo tinha o poder de legitimar as suas deliberações, referendando as mudanças que aconteciam a cada dia222. Conhecedor do poder dos católicos frente a decisões políticas, o clero manteve suas atividades voltadas para os fiéis e transferiu as discussões que se restringiam apenas às instâncias governamentais para o âmbito público.
A devoção dos fiéis, com uma “religiosidade que se perdia e se confundia num mundo”, não possibilitava imposições que estruturassem um culto com normatizações radicais. Por isso, os debates sobre as questões que envolvem a política e a religião se desenvolveram a partir de um amplo diálogo entre as instituições, com respeito às particularidades na devoção do povo e na forma de atuar dos eclesiásticos223.
Os cultos grandiosos, as procissões, a arquitetura estruturada para a devoção, os diversos modos de externar a fé e a proximidade com os fiéis também colaboraram para a condução das negociações entre o Estado e a Igreja. O chamado “catolicismo barroco”224
foi determinante para que os representantes do Estado não fizessem grandes alterações nas estruturas dos cultos após a proclamação da república.
A Igreja Católica também abriu mão de alguns pontos, principalmente no que concerne à indicação de religiosos para os cargos vacantes, logo após a queda do Império e antes da publicação da constituição republicana. As articulações diplomáticas do clero junto ao Estado foram realizadas pelo Internúncio Apostólico Monsenhor Francesco Spolverini (1887 – 1891), que organizou um programa de atividades, na tentativa de garantir a execução do projeto de romanização da Igreja no final do século XIX225. O ato foi importante
222
Cf. CARVALHO, 1987.
223
HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 149 – 150.
224
Cf. REIS, 1998.
225
GOMES, Edgar da Silva. A Dança dos Poderes: uma história da separação Estado – Igreja no Brasil. São Paulo: D’escrever, 2009. p. 179 – 182. Após a morte de Dom Macedo Costa em 20 de
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para a condução do projeto de Restauração Católica, que foi estruturado no início do século XX com a participação de intelectuais comprometidos com os valores da Igreja.
A separação político-religiosa trouxe benefícios à administração dos dois poderes institucionais. Se para o Estado foi uma oportunidade de diminuir os gastos com o financiamento dos membros da Igreja Católica, com a manutenção de algumas instituições e encerrar o compromisso com apenas um seguimento religioso, enquanto no Brasil outras práticas estavam ganhando espaço de atuação, para a Igreja era o momento de reestruturar a sua administração e efetivar projetos com a Cúria romana, evitando, assim, as intervenções governamentais.
Com o padroado, as nomeações episcopais e a criação de novas dioceses eram controladas pelo Império, o que acarretava um poder limitado para a Igreja Católica. Com a implementação das ideias republicanas, o clero teve a oportunidade de reconstituir o seu terreno político e de atuação, com o aumento do número de arquidioceses, dioceses e prelazias religiosas226.
A laicização no Brasil foi instituída com o Decreto 119-A, com sete artigos que versaram sobre a proibição da intervenção governamental nas questões religiosas, a liberdade de cultos, o fim do padroado, dentre outras normas que estabeleceram as novas diretrizes para as relações entre o Estado e as igrejas, sobretudo, a Igreja Católica Apostólica Romana.
O documento procurou atender as solicitações dos principais envolvidos com os debates sobre o projeto de secularização, a exemplo dos republicanos, positivistas, protestantes227, maçons e católicos. Buscava-se acatar as
março de 1891, o Internúncio Apostólico Monsenhor Francesco Spolverini assumiu os debates com os representantes do governo brasileiro.
226
No ano da Proclamação da República o Brasil possuía uma província eclesiástica, uma arquidiocese e onze dioceses. Com a reestruturação administrativa, em 1930 o clero brasileiro possuía dezesseis arquidioceses, cinquenta dioceses, vintes prelazias ou prefeituras apostólicas. Neste projeto também se percebeu o aumento considerável no número de religiosos atuando nas diversas localidades do país. Cf. FAUSTO, 2004, p. 330.
227
Cf. LÉONARD, Émile G.. O Protestantismo Brasileiro: estudo de eclesiologia e história social. São Paulo: ASTE, 2002.
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reivindicações dos republicanos, principalmente sobre a separação dos poderes civil e religioso, e da elite eclesiástica, que esperava ações que não trouxessem prejuízos ao seu patrimônio, ao reconhecimento jurídico da Igreja Católica e à não efetivação de ações anticlericais ou anticongregacionalistas. O projeto pensado por Ruy Barbosa, que organizou o Estado, a religião e a sociedade, tinha como exemplo o constitucionalismo dos Estados Unidos da América, que não se demonstrou contrário à participação das religiões na vida pública228.
Pode-se dividir o documento em três partes, que são estruturadas no indivíduo, nas instituições e na administração que envolve os debates diplomáticos entre o Estado e a Igreja. No momento inicial, em que se estabeleceram as normas sobre as práticas religiosas, o primeiro artigo proibiu a publicação de leis que instituíssem uma religião oficial, ou que fizessem distinções entre os habitantes a partir de crenças e cultos. Com o texto, o governo provisório abriu espaço para a atuação de outras religiões, a exemplo dos protestantes e dos espíritas. Mesmo com a oportunidade de reorganizar a sua estrutura administrativa, o clero católico se demonstrou incomodado com a igualdade jurídica das religiões no Brasil.
Com o Artigo 1º, os religiosos não estavam mais submissos aos ministros civis, que poderiam determinar saídas, nomeações, abertura e fechamento nas circunscrições religiosas. Deste modo, a Igreja Católica poderia atuar como uma instituição independente, atendendo apenas às determinações legais que regiam o país, estabelecidas na nova Constituição Republicana de 1891.
Por meio do artigo 2º, tem-se o reconhecimento das atividades de todas as confissões religiosas, seja no âmbito público ou privado. Com isso, foram garantidas as práticas das organizações religiosas, sendo proibida a interrupção das suas cerimônias. O texto permitiu a execução das procissões e festas pela
228
RANQUETAT JÚNIOR, Cesar Alberto. Laicidade à Brasileira: um estudo sobre a controvérsia em torno da presença de símbolos religiosos em espaços públicos. 2012, 310 p. Tese (Doutorado em Antropologia Social). Universidade Federal do Rio Grande do Sul / Instituto de Filosofia e Ciências Humana, Porto Alegre, 2012. p. 60.
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Igreja Católica, que podem ser observadas como uma forma de propaganda simbólica dos seus ensinamentos entre a população229.
Evitaram-se grandes modificações no modelo de cultos dos católicos, como as proibições das procissões, dos cortejos fúnebres e das festas. A nova ordem garantiu o “espetáculo” proporcionado pelo catolicismo nas ruas e nos templos, pois o principal objetivo era a reestruturação do universo civil e religioso, e não o fim das práticas eclesiásticas no âmbito social ou a execução de uma laicização simbólica.
No terceiro artigo, ficou estabelecida a liberdade das práticas individuais e das instituições, com a conglomeração das ações coletivas. No texto, as Igrejas foram reconhecidas como instituições organizadoras das manifestações que representam a crença, com o respeito às distinções de cada culto.
Membros de outras religiões, como os protestantes, demonstraram a satisfação com a decisão do governo, pois poderiam desenvolver seus projetos de forma igualitária fora de um Estado confessional. Parte dos missionários e religiosos enxergavam as mudanças no Brasil como um progresso social. Para Lacey Wardlaw, a nação caminhava a passos largos com o progresso, como filho “[…] primogênito da liberdade – a liberdade política – que dá a nação o direito de se governar a si mesma – a liberdade religiosa – que garante ao individuo o pleno direito de seguir conscienciosamente as suas convicções religiosas”230
.
Segundo Sérgio Willian de Castro, o posicionamento de Lacey Wardlaw era claramente republicano, porém deve-se ler seus escritos como uma preocupação acerca do estabelecimento das missões protestantes no Brasil, em caso do fortalecimento de um partido católico que trabalhasse pela reestruturação de uma
229
A proposta também foi garantida no Código Penal de 1890, no artigo 119º, que estabelecia prisão de três meses para os perturbadores das manifestações religiosas. O Capítulo IIIº, entre os artigos 185º e 188º, garantia o livre exercício dos cultos no Brasil, com penas para aqueles que atentassem contra a ordem estabelecida pelo Estado. Cf. Decreto nº 847 de 11 de outubro de
1890 que Promulga o Código Penal. Disponível em
<http://legis.senado.gov.br/legislacao/ListaNormas.action?numero=847&tipo_norma=DEC&data=18 901011&link=s> Acesso em, 19 nov. 2013.
230
WARDLAW, Lacey. O Clero Cearense e a Moralidade. Libertador, Fortaleza, p. 03, 06 dez. 1890.
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religião oficial. Temia-se que as conquistas do Decreto 119-A não fossem efetivadas, com o retorno da Igreja Católica como parte integrante do Estado231. Com o que foi estabelecido no artigo terceiro, a Igreja Católica e os representantes do Estado travaram uma longa discussão sobre o reconhecimento das suas atividades no âmbito privado. Com a afirmação de que as igrejas tinham “o pleno direito de se constituirem e viverem collectivamente, segundo o seu credo e a sua disciplina, sem intervenção do poder publico”232
, os eclesiásticos compreenderam que poderiam adotar as cerimônias católicas como uma forma