• Nenhum resultado encontrado

3 ESGOTAMENTO SANITÁRIO: UM PANORAMA

3.3 ESGOTAMENTO SANITÁRIO: O DEFICIT

3.3.1 O deficit do esgotamento sanitário na RMG

Ao se analisar a questão do acesso ao esgotamento sanitário na RMGV, constata-se que os programas desenvolvidos desde 1994 – Prodespol, Prodesan e Águas Limpas – não conseguiram prover o atendimento nem sequer da metade da população metropolitana até 2014 – duas décadas depois (BRASIL, acesso em 10 abr. 2016).

Pela Tabela 10, observa-se que, até 2003, os resultados apurados com o Prodespol/Prodesan em termos de atendimento foram muito tímidos. Com o Águas Limpas, houve uma evolução, mas muito aquém de um cenário de universalização, principalmente ao se analisar cada município isoladamente, e não a média da zona metropolitana.

Com base nos dados disponíveis no SNIS, verifica-se que, em 2014, a RMGV tinha uma população total de 1,88 milhão de habitantes (BRASIL, acesso em 10 abr. 2016). A média da população atendida por esgotamento sanitário (793.621 habitantes) equivaleu a 42,12% da população total, conforme sintetizado na Tabela 10.

Tabela 10 – População metropolitana atendida por esgotamento sanitário – 2003/2014

Município

População total (hab.)

Pop. total atendida por esgotamento sanitário

(hab.)

Pop. total atendida por esgotamento sanitário (%) 2003(1) 2012(2) 2014(3) 2003(1) 2012(2) 2014(3) 2003(1) 2012(2) 2014(3) Cariacica 339.612 352.431 378.915 20.292 81.096 106.746 5,96 23,01 28,17 Fundão 13.873 17.632 19.585 0 0 4.019 0,00 0,00 20,52 Guarapari 96.619 107.836 118.056 12.882 45.705 52.233 13,33 42,38 44,24 Serra 351.686 422.569 476.428 126.293 192.516 210.028 35,91 45,56 44,08 Viana 56.405 66.745 73.318 15.631 21.299 24.439 27,71 31,91 33,33 Vila Velha 370.727 424.948 465.690 8.073 113.234 171.342 2,18 26,65 36,79 Vitória 302.633 333.162 352.104 138.553 198.696 224.814 45,78 59,64 63,85 TOTAL 1.531.555 1.725.323 1.884.096 321.724 652.546 793.621 21,00 37,82 42,12

Fonte: Elaboração própria com base em Brasil (acesso em 10 abr. 2016).

(1)

Conclusão do Prodespol/Prodesan.

(2)

Conclusão do Águas Limpas.

(3)

Dados mais atuais por ocasião desta pesquisa.

Os dados constantes nas Tabelas 11 e 12 demonstram que, a despeito de Prodespol/Prodesan e Águas Limpas, mais da metade, ou seja, mais de 1 milhão de habitantes da RMGV, permaneceu sem atendimento de esgotamento sanitário até

2014. Vitória foi o único município metropolitano em que o deficit atingiu menos da metade da população já em 2012, enquanto em Cariacica e Fundão70 o percentual

de atendimento não chegou a um terço da população nem em 2014.

Tabela 11 – Deficit de esgotamento sanitário na RMGV – 2003/2014

Município

Deficit de esgotamento

sanitário na população total (hab.)

Deficit de esgotamento

sanitário na população total (%) 2003(1) 2012(2) 2014(3) 2003(1) 2012(2) 2014(3) Cariacica 319.320 271.335 272.169 94,02 76,99 71,83 Fundão 13.873 17.632 15.566 100 100 79,48 Guarapari 83.737 62.131 65.823 86,67 57,62 55,76 Serra 225.393 230.053 266.400 64,09 54,44 55,92 Viana 40.774 45.446 48.879 72,29 68,09 66,67 Vila Velha 362.654 311.714 294.348 97,82 73,35 63,21 Vitória 164.080 134.466 127.290 54,23 40,36 36,15 TOTAL 1.209.831 1.072.777 1.090.475 78,99 62,18 57,88

Fonte: Elaboração própria com base em Brasil (acesso em 10 abr. 2016).

(1)

Conclusão do Prodespol/Prodesan.

(2)

Conclusão do Águas Limpas.

(3)

Dados mais atuais por ocasião desta pesquisa.

Além do deficit no atendimento, o índice de esgoto tratado – referente à água consumida – continuava muito baixo em 2014, conforme demonstra a Tabela 12. Dos 112,58 milhões de metros cúbicos de esgoto gerados, menos da metade foi tratada em praticamente todos os municípios metropolitanos, com exceção de Vitória, onde o índice não era muito acima de 50%. Destaque-se o desempenho do tratamento inferior a um quinto do volume gerado em Cariacica, Fundão71 e Serra.

Constata-se ainda que, em alguns municípios metropolitanos, houve queda do índice de esgoto tratado, de 2012 para 2014, a exemplo do que ocorreu em Cariacica, Guarapari e Serra. Aliás, na Serra, essa redução vem acontecendo desde a conclusão do Prodespol/Prodesan. O mesmo se verificou em Viana, no período de 2003 a 2012.

70

Destaque-se que a Cesan atende parte do município de Fundão por meio da infraestrutura disponível no município da Serra, ficando a sede sob a responsabilidade do Poder Executivo Municipal.

71

Tabela 12 – Volume de esgoto gerado e índice de esgoto tratado – 2003/2014 Município

Volume de esgoto gerado (1.000m³/ano)

Índice de esgoto tratado referido à água consumida (%) 2003(1) 2012(2) 2014(3) 2003(1) 2012(2) 2014(3) Cariacica 12.749 15.836 16.339 4,75 20,96 17,04 Fundão 335 456 766 0 0 14,78 Guarapari 4.906 6.213 6.694 0 44,21 38,91 Serra 26.334 33.037 37.475 22,22 19,6 17,61 Viana 1.582 2.728 2.851 35,09 28,4 28,8 Vila Velha 18.251 22.290 23.880 2,55 39,45 42,58 Vitória 22.359 24.578 24.579 22,98 45,67 54,51 TOTAL 86.516 105.138 112.584

Fonte: Elaboração própria com base em Brasil (acesso em 10 abr. 2016).

(1)

Conclusão do Prodespol/Prodesan.

(2)

Conclusão do Águas Limpas.

(3)

Dados mais atuais por ocasião desta pesquisa.

A conjuntura delineada nas tabelas anteriores, de precariedade no acesso aos serviços de esgotamento sanitário, não retrata uma realidade exclusiva da RMGV. Os investimentos feitos ao longo das últimas décadas priorizaram o abastecimento de água, tornando o esgotamento sanitário o componente do saneamento básico que apresenta deficit mais elevado, principalmente nas áreas periféricas dos centros urbanos e nas zonas rurais, onde se concentra a população mais vulnerável (GALVÃO JÚNIOR; PAGANINI, 2009). Por ter efeito político maior, os investimentos em saneamento enfatizaram a universalização do abastecimento de água em detrimento dos realizados em coleta e tratamento de esgoto (NOSAKI, 2007, apud DANTAS et al., 2012).

Verifica-se também, a exemplo do que ocorre em outras partes do País, que as intervenções nesse setor privilegiaram, ao longo do tempo, regiões economicamente mais abastadas e mais adensadas.

Rezende e Heller, citados no “Manual de procedimentos para auditoria no setor de saneamento básico”, elaborado pelo Departamento de Segurança e Saúde no Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego, ratificam essa posição, afirmando que as intervenções em saneamento estiveram vinculadas a “[...] aspectos econômicos, interesses dominantes, os quais foram os principais determinantes do caráter das ações coletivas”, em lugar da superação das carências sociais do País. “Isto determinou a exclusão de diversos segmentos da sociedade das políticas de saneamento, as quais predominaram nas áreas de interesse econômico.” Essa

ênfase em abastecimento de água, em detrimento de ações “menos lucrativas”, também fragmentou a visão do saneamento e repercutiu institucionalmente em “[...] precária interação entre governos estaduais e municípios” (REZENDE; HELLER, 2002, apud BRASIL, 2002, p. 5-6).

Saiani (2006), citado por Saiani e Toneto Júnior (2010, p. 80), relaciona o deficit de acesso aos serviços de saneamento básico no Brasil ao “[...] perfil de renda dos consumidores – capacidade de pagamento (tarifas) – e à existência de economias de escala e de densidade no setor”. A redução de custos de expansão e manutenção dos serviços mediante o aumento da população a ser atingida facilita a oferta em áreas de adensamento populacional. “Tal fato sugere que os investimentos realizados ao longo do tempo no setor foram motivados mais pela possibilidade de retorno econômico do que pelo grande retorno social que tais serviços podem gerar” (SAIANI, 2006, apud SAIANI; TONETO JÚNIOR, 2010, p. 80).

A universalização, frequentemente, não foi o objetivo dos investimentos feitos. Em alguns casos, esses investimentos destinaram-se a melhorias em sistemas já existentes, sem que fossem priorizadas localidades em situação mais precária. Em outros, contemplaram, com recursos do Orçamento Geral da União (OGU), intervenções em locais que poderiam ter sido feitas com aporte do próprio prestador de serviços, do próprio estado ou do próprio município (PEREIRA, 2017)72.

Outro fator a ser considerado para que os investimentos realizados não tenham diluído o deficit nesse setor é que, muitas vezes, os critérios exigidos para o acesso a recursos onerosos73 – provenientes do FGTS e do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), por exemplo – excluem justamente os municípios que mais precisam desses recursos. Ao mesmo tempo, nada é feito para ajudá-los a ter condições de atender a esses critérios (PEREIRA, 2017)74.

72

PEREIRA, T. S. T. Entrevista concedida para esta pesquisa pela engenheira civil Tatiana Santana Timóteo Pereira, analista de Infraestrutura da Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental (SNSA) do Ministério das Cidades. Vitória, 2017.

73

Recursos onerosos são empréstimos e financiamentos ao setor público para a realização de obras e serviços voltados ao desenvolvimento urbano e institucional. Geram a obrigatoriedade de retorno financeiro e dependem de ateste de capacidade de pagamento e de limite de endividamento.

74

Pereira (2017)75 considera “preocupante” a tentativa de ampliar investimentos via transferência da prestação dos serviços à iniciativa privada, que, “[...] ao contrário do que é dito [...]”, não utiliza recursos privados para investir, mas também recursos públicos, “[...] com o objetivo principal do lucro e não da melhoria das condições de vida da população”.

Gonçalves (2016)76 adverte que o modelo de saneamento por que o País optou desde a década de 1970, com o Planasa, estruturou o setor majoritariamente em companhias estaduais de saneamento, ou seja, em entidades que são públicas, mas que operam como empresas privadas. Houve um erro nessa modelagem, porque essas empresas não vão atuar em regiões deficitárias, uma vez que não terão retorno dos investimentos.

Gonçalves (2016)77 destaca que os aportes de recursos do Governo Federal e do Bird feitos em esgotamento sanitário no Espírito Santo, a partir da década de 1990, deveriam ter colocado o Estado em uma situação muito mais favorável do que aquela em que está atualmente em termos da cobertura que os sistemas de esgoto proporcionam à população. Contudo, segundo Gonçalves, houve grande ineficiência na gestão desses recursos por parte do Estado, primeiramente porque

[...] houve mau uso do dinheiro em vários momentos. [...]

Foram construídas essas grandes estações do Vale Mulembá, de Araçás, de Guarapari, de Bandeirantes, que são as maiores operadas pela Cesan e que custaram muito mais caro do que deveriam custar e que quando entraram em operação resultaram num custo operacional e de manutenção elevadíssimo, que já estava previsto, e que foi objeto de denúncias. É claro que um investimento dessa natureza na construção de um valor bem mais caro e, depois, custos de operação e manutenção bem mais elevados vão fazer com que falte dinheiro para a expansão do sistema de esgotamento sanitário sob a ótica da universalização. [...]

Segundo, pelo despreparo, desconhecimento tecnológico do corpo técnico das instituições na maioria, até bem pouco tempo, quase que totalmente públicas. Aí eu coloco a Cesan e as autarquias municipais que manifestamente têm um nível de conhecimento e atualização tecnológico muito baixo. E isso faz com que as opções tecnológicas, por ocasião dos editais dos projetos, sejam, com muita frequência, inadequadas. Um exemplo é esse que acabei de dar dessas estações.

Opta-se por sistemas mais caros, mais complexos, mais difíceis de operar e manter.

75

Ver Nota 72.

76

GONÇALVES, R. F. Entrevista concedida para esta pesquisa pelo engenheiro civil Ricardo Franci Gonçalves, doutor em Saneamento e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. Vitória, 2016.

77

Então, essa combinação de corrupção com desconhecimento tecnológico resulta num grau de ineficiência que é materializado pela baixíssima cobertura do esgotamento sanitário no Espírito Santo. Os investimentos realizados não foram poucos. Deveriam ter apresentado resultados

melhores (GONÇALVES, 2016)78.

Observa-se, a despeito dos investimentos, uma evolução ainda muito tímida em termos de universalização dos serviços de esgotamento sanitário, levando a se concluir que a plena aplicabilidade dos ditames da Lei n.º 11.445/2007, que vigora há uma década, ainda vai demandar algum tempo, a começar pela carência do planejamento, estabelecido no Capítulo IV da LNDS – e também no Capítulo IV da Lei n.º 9.096/2008.

Nem mesmo as sanções referentes à suspensão dos contratos de concessão e de repasse de recursos federais para projetos de saneamento básico, para aqueles entes que não tivessem cumprido os requisitos de planejamento e regulação, chegaram a motivar a maioria dos municípios a dar tempestivamente os passos iniciais rumo à elaboração de uma política na área de saneamento.

Assim, conforme será exposto no subitem a seguir, a questão do planejamento foi um tanto postergada pelos titulares dos serviços.