2 PREMISSAS PARA UMA APROXIMAÇÃO À PRÁXIS DA MEDIAÇÃO
5.1 Introdução às memórias de uma orientadora
5.1.5 O delineamento das funções de cada parceiro
Ao longo dos três anos de Projeto, foi-se delineando as funções específicas de cada
parceiro, trabalhando para atingir os objetivos gerais em comum: pelo acesso físico e à
linguagem teatral, a ida ao teatro e o contato com o espetáculo; pelo incentivo à criação do
espectador - ao trabalho de sua subjetividade em um processo autoral e produtivo de leitura da
obra -; pela democratização dos meios e modos de produção dos espetáculos.
Com isso, coube à Universidade a viabilização do acesso à linguagem teatral,
utilizando-se da metodologia dos jogos de mediação, cujo objetivo específico era a formação
do mediador teatral. Coube à FCC a viabilização do acesso físico do público ao teatro;
contemplação e curadoria dos espetáculos, cujo objetivo específico era a distribuição e a
circulação das produções teatrais nas regionais de cultura da cidade. Coube ao NRE a
organização do público e do espaço da escola para a realização das oficinas de mediação teatral,
cujo objetivo específico, seguindo as orientações do PCN de Arte (BRASIL, 1998) e das
Diretrizes educacionais (CURITIBA, 2012), era a educação estética do estudante, apreciador
artístico.
Figura 9 – Apresentação aos parceiros da FCC e do NRE: estabelecendo as parcerias
do Projeto
Ressalto que nosso papel da universidade foi de catalisar essas parcerias e
cooperações possíveis - e já existentes entre as escolas e as estruturas culturais e artísticas da
cidade – atentando-nos à disponibilidade e ao interesse de cada instância envolvida, com base
no contexto pedagógico das disciplinas na educação básica e superior. A partir desse terreno
tecido em parceria, os mediadores concretizariam suas propostas de mediação teatral,
colocando em movimento sua formação, o seu repertório e experiências em educação e cultura.
Orientadora. Fui espectadora do espetáculo, mediadora entre as instituições
parceiras, docente da disciplina PINTE. Fui proponente do projeto de formação de público e
mediação teatral. Orientei o Projeto como um todo, desde a preparação do mediador e sua
elaboração das oficinas e jogos à coordenação geral e pedagógica do Projeto junto aos
coordenadores das regionais de cultura e educação. Observei e acompanhei os discentes em
suas ações nas escolas e nos teatros. Houve momentos em que auxiliei o discente durante a sua
mediação, sem interromper sua práxis
195.
Ao centralizar o contato com os artistas e os coordenadores do projeto, barrei, por
vezes, uma aprendizagem coletiva e autônoma do mediador fundada na proximidade aos
parceiros da arte, educação e cultura do Projeto. Essa centralização se esboçou desde o início,
quando utilizei o quadro, abaixo, explicitando as ações iniciais de cada envolvido e o grau de
responsabilidade concentrado nos docentes e orientadores do projeto pela proposição e
desenvolvimento das atividades de mediação teatral:
195 Os docentes atuavam como organizadores de ideias e estimuladores delas. Em sala, traziam novos jogos para nosso conhecimento, leituras relevantes, possibilidades de condução dos jogos, entre outras coisas. Nas visitas às escolas, nós aplicávamos os jogos e os professores auxiliavam se achassem necessário, mas não interferiam na nossa condução. (Dayane, Questionário, 2019). Desde o começo ficou muito claro que esse trabalho era em conjunto e que todos deveriam contribuir e participar. Os docentes atuaram mais como mediadores e orientadores entre os dois grupos [de mediadores], auxiliando através da reflexão sobre o trabalho, os exercícios, sobre o público e instigando-nos a pensar sobre formas de tornar a mediação possível para cada realidade. (Jeanelys, Questionário, 2019).
Figura 10 – Organograma apresentado aos parceiros da Fundação Cultural de
Curitiba/FCC e do NRE.
Fonte: Elaborado pela autora (2015).
Mediadores teatrais. Licenciandos em teatro foram espectadores ao assistirem ao
espetáculo para, posteriormente, analisá-lo. Elaboraram e coordenaram as oficinas e os jogos
de mediação teatral. Para desenvolver as habilidades de ouvir e conhecer o público, trabalhando
em equipe, os mediadores atuaram como: instrutores - quando instruíam e intervinham no jogo
no sentido de coordená-lo
196para o maior envolvimento do público neste processo de criação –
e jogadores - quando jogavam junto ao público para demonstrar e estimular
197a sua
participação no jogo, bem como para se aproximar e acolher pessoalmente os participantes,
“fator fundamental para a aprendizagem em Arte, área em que a marca pessoal é fonte de
criação e desenvolvimento” (BRASIL, 1998, p. 56).
196 [...] quando o seu Pedro [um estudante da EJA] se colocou pra fazer o primeiro exercício e os outros estudantes começaram a interagir e a se divertir com as ideias, eu me larguei na proposta e percebi que tudo ia rolar como num fluxo, como quando estou fazendo uma aula prática de teatro e me entrego às experiências. A pequena e significante diferença é que tínhamos que cumprir um papel ali, de sermos mediadores, de organizarmos e potencializarmos aquela vivencia deles. (Débora, Relato, 2016).
197 [...] Também penso que a participação dos mediadores fazendo os jogos – sendo os primeiros – possibilitou o inicio do jogo e despertou a coragem dos alunos participarem. (Gilmar, Relato, 2016). [...] Quando percebemos que os alunos estavam arredios, nos ‘infiltramos’ nos jogos, participando junto com eles e... Deu certo! Eles começaram a se soltar... (Celia Raquel, Relato, 2016).
Agentes culturais. Coordenadores regionais de cultura da FCC, administradores
de espaços e atividades culturais e artísticas de determinada região na municipalidade, foram
curadores e espectadores dos espetáculos, mediadores entre a universidade, a escola e o artista.
Coordenaram o Projeto junto à orientadora e organizaram o espaço (teatro) para a apresentação
teatral e oficinas de mediação.
Artistas. Proponentes do projeto artístico realizaram a apresentação artística e se
disponibilizaram a conversar com o público. Seu espetáculo e, quando possível, seu processo
de criação, foram pesquisados e estudados pelos mediadores, servindo de material para a
elaboração das oficinas e jogos de mediação teatral. A parceria com os artistas ocorreu em
diferentes níveis, influenciando a práxis do mediador: em 2015, o artista como produtor do
projeto artístico esteve mais próximo aos universitários; em 2016, o artista, não produtor do
próprio projeto artístico, manteve-se mais distante; enquanto, em 2017, a artista, como discente
da universidade, esteve próxima aos mediadores. Neste contexto, evidenciamos a dificuldade
encontrada em nos aproximarmos dos artistas quando intermediados por um produtor. Devido
a este fato, em 2016, o estreitamento de laços entre o artista e o mediador foi menor, não
acessando o processo da Cia., refletindo na criação de jogos de preparação menos vinculados
às análises estéticas e pedagógicas do mediador.
Coordenadoras pedagógicas. Coordenadoras regionais da EJA foram
espectadoras, mediadoras entre a universidade, a FCC e a escola. Coordenaram o Projeto junto
à orientadora, organizando as professoras e os estudantes participantes, bem como o espaço da
escola para a oficina de mediação.
Turma da EJA. Composta por professores e estudantes iniciantes na linguagem
teatral, recebeu a equipe de mediadores na escola, na sala de aula, e participou dos encontros e
jogos de mediação como jogadores de teatro. A turma foi o público-alvo do Projeto,
participando de atividades antes, durante e depois da ida ao teatro. Professoras. Em sua maioria
mulheres, pedagogas, foram espectadoras, jogadoras teatrais, mediadoras entre a universidade
e os estudantes, entre mediadores e o público. Estudantes. Adultos e jovens trabalhadores,
jogadores teatrais, espectadores e mediadores entre a universidade e a escola, entre os
estudantes.
Em todas as funções apresentadas, ser espectador foi fator comum entre todos os
participantes. Além das atribuições específicas de cada profissional em sua área educacional ou
cultural, todos exerceram a função de mediador em seus locais de trabalho e estudo. Estes foram
mediadores na medida em que coordenaram o contato do público-alvo com os outros parceiros
do Projeto. Ressalto que a função pedagógica do mediador teatral, propriamente dita, foi
atribuída ao discente, acompanhado pelo/pela docente orientador/a.
Exponho, no quadro abaixo, a responsabilidade predominante da coordenação do
Projeto exercida pelos docentes, pelos coordenadores regionais de cultura e educação e pelos
professores. O foco esteve no desenvolvimento das competências e habilidades do licenciando
enquanto mediador teatral e dos estudantes e professores enquanto público de teatro.
Quadro 1 – Funções dos participantes
Trabalhos dos Parceiros no Projeto
Público Mediador Professor ou Agente cultural Orientador Coordenador Regional da FCC Coordenador Regional da EJA Professor da EJA Discente Futuro professor Futuro agente cultural
Estudante da EJA
5.1.5.1 - Formação da equipe mediadora: atribuições docente e discente
Na tentativa de compreender e organizar as atribuições dos mediadores e da
orientadora, após análise dos três anos do Projeto, pude observar similaridades metodológicas
entre a disciplina PINTE e a disciplina Estágio Supervisionado
198, por ambas contribuírem no
processo de formação do professor de teatro colocando-o em contato com a realidade da escola.
A docente, neste período, orientou a formação e a avaliação do processo de ensino
e aprendizagem dos discentes; os acompanhou in loco, contribuindo com observações, em
conjunto com grupo de mediadores, com avaliações dos materiais pedagógicos produzidos,
procurando aprimorar o desempenho geral do projeto.
Destaco que devido ao trabalho conjunto e de acompanhamento da orientadora
junto ao grupo de mediadores in loco nas escolas e nos teatros, aos poucos foi se constituindo
uma equipe mediadora que se ocupou em efetivar o projeto coletivo de formação de público.
Dessa maneira, foi possível diagnosticar a apreensão dos conhecimentos em mediação teatral
pelos discentes, trabalhando as etapas recorrentes, como na disciplina Estágio; caracterização e
observação do público durante a prática dos jogos, influenciando na reelaboração e regência
dessas ações.
198 O Estágio Curricular Supervisionado (Regulamento 2018 do curso de Licenciatura em Teatro da UNESPAR) é uma disciplina obrigatória do curso. A disciplina é dividida nos últimos quatro semestres do curso. No 3º ano o estágio é realizado na Escola: Estágio Supervisionado na Escola I - práticas de educação teatral no Ensino Médio e Estágio Supervisionado na Escola II - práticas de educação teatral nos anos finais do Ensino Fundamental. No 4º ano o estágio é realizado na Comunidade: Estágio Supervisionado na Comunidade I - práticas de educação teatral em distintos espaços não formais da educação e Estágio Supervisionado na Comunidade II - práticas extracurriculares de educação teatral com a faixa etária correspondente à Educação Infantil e aos anos iniciais do Ensino Fundamental em distintos espaços formais ou não formais da educação.
Figura 11 – Equipe mediadora: relação entre orientadora e mediadores
Fonte: Elaborada pela autora (2020).
Com base no regulamento da disciplina Estágio Supervisionado
199, proponho
reforçar a importância do docente orientador no acompanhamento do processo de mediação
teatral do discente, atuando como supervisor no campo. A seguir, apresento as etapas
conciliares das disciplinas, a partir das reflexões sobre as experiências passadas, prospectando
as futuras: (1) A caracterização da escola: as primeiras informações sobre a escola e seus
estudantes e professores foram fornecidas pelas coordenadoras pedagógicas da EJA. No
entanto, avaliamos que essas informações foram insuficientes, impulsionando-nos a aprofundar
essa caracterização. (2) A observação da atuação pedagógica das professoras das turmas
deveu-se à observação de suas atuações nos jogos de mediação teatral ora como jogadoras
teatrais ora como mediadoras, contribuindo para o desenvolvimento da competência
pedagógica dos universitários mediadores. A observação do modo como as professoras se
relacionavam com os jogos e com os seus estudantes embasou compreensões dos discentes
sobre modos de ser mediador instrutor neste contexto. (3) A elaboração do projeto de
mediação teatral pelos mediadores perpassou a contínua elaboração, discussão e a avaliação
das oficinas e jogos, na universidade. (4) A regência do mediador ocorreu em diversos espaços
formativos de educação, na escola e no teatro.
199Vale ressaltar que o total de horas de PINTE I (2020) é de 68 horas e de estágio obrigatório o total é de 100 horas, distribuído nos semestres da seguinte forma: 10 horas de caracterização, 15 horas de observação, 20 horas de regência e 55 horas na elaboração de projetos e relatórios.
Discentes mediadores Docente