A urbanização, de maneira simples, é representada pelo aumento da porção urbana e incremento populacional em determinados períodos. Em relação ao espaço, o processo de urbanização significa o incremento espacial de escala e densidade, além das várias atividades desenvolvidas nas cidades. Se, no início do século XX, havia pouco mais de dezesseis grandes cidades com mais de um milhão de habitantes, muitas em países de capitalismo avançado, hoje temos mais de 500 cidades com mais de um milhão de habitantes, nas mais diversas partes do mundo. Pouco mais de 7% da população poderia ser considerada urbana. Hoje, porém, em países como o Brasil, mais de 80% da população vive em cidades. O que leva Harvey a afirmar que o século XX foi o século da urbanização (Apud TORRES, 1996).
Neste processo crescente, observa-se a dinâmica de territorialização e conseqüente apropriação dos espaços naturais. Sobrepõe-se a relação das questões urbanas e ambientais e, atualmente, estas discussões têm reforçado as questões sociais em nome da chamada sustentabilidade urbana.
Segundo Ascerald (2001, p.43), “a sustentabilidade urbana tem conduzido a uma nova matriz técnica das cidades, pensada por razões de qualidade de vida – componentes não mercantis da existência quotidiana e cidadã da população urbana”. O documento desenvolvido pelo PNDU – Programa de Las Naciones Unidas para el Desarrollo, que teve como finalidade criar uma metodologia de gestão ambiental urbana, afirma que, se o desenvolvimento sustentável tem como objetivo o melhoramento da qualidade de vida humana, isso requer o seu manejo correto. Inclui a transformação dos ecossistemas com a finalidade de aproveitar seus bens e serviços, minimizando, porém, os conflitos derivados da exploração dos mesmos, maximizando a harmonização entre as ações e as atividades necessárias e distribuindo os custos e benefícios ecológicos entre as populações envolvidas.
Tal ação significa uma nova forma de desenvolvimento social capaz de estabelecer um vínculo equilibrado entre a sociedade e o meio ambiente, considerando que a degradação ambiental não é uma conseqüência da atividade humana, e sim uma resultante de alguns estilos de modelo de desenvolvimento (PNDU, 1997).
Outra discussão refere-se à publicação do relatório preparatório para a Conferencia Global sobre o Futuro Urbano URBAN 21, realizada em Berlim. O relatório é dividido em quatro capítulos: no primeiro, abordam-se as mudanças do milênio e define as
dimensões de sustentabilidade, no segundo, as tendências e os resultados das cidades em 2025 e possíveis cenários e, nos últimos capítulos, delineiam-se os desafios urbanos de gestão e política e os princípios básicos de um plano de ação para um desenvolvimento urbano sustentável (HALL, 2000).
Segundo esta Agenda Global para as cidades no século XXI – Urban Future 21 são 7 (sete) as dimensões de sustentabilidade urbana para alcançar uma cidade propriamente sustentável: Economia Urbana Sustentável, Sociedade Urbana Sustentável, Habitação Urbana Sustentável, (Meio) Ambiente Urbano Sustentável, Acessibilidade Urbana sustentável, Democracia Urbana Sustentável e uma Vida Urbana Sustentável. A agenda supõe que uma boa governança possa ser elemento central de derivação para um desenvolvimento humano sustentável (Figura 1).
Figura 1 – Dimensões de Sustentabilidade Urbana
Fonte: HALL, Peter e PFEIFFER Ulrich. Urban Future 21: a Global Agenda for Twenty-First Century Cities, 2000, p.139.
Neste panorama, a turma V da linha de pesquisa “Urbanização, Cidade e Meio Ambiente” iniciou a discussão das possíveis interfaces de pesquisa. No entanto, questionamentos gerais e aprofundamentos necessários foram levantados. O primeiro trata da necessidade de estudar a evolução histórica do processo de urbanização de Curitiba. O segundo discute os conceitos de qualidade de vida em todos os níveis de conhecimento científico, os modos de entender e interpretar suas diferentes concepções, além de estratégias e tendências para avaliar as implicações do crescimento urbano sobre a qualidade de vida. E por fim, reconhece-se necessidade de discutir as possibilidades de minimizar os conflitos entre qualidade de vida e o crescimento urbano. Após essa discussão preliminar definiu-se a temática proposta pela turma V: O Desafio do Crescimento Urbano com Qualidade de Vida.
Nesta temática, as concepções de Meio Ambiente e Desenvolvimento, Território e Evolução Histórica tornaram-se uma tríade inter-relacionada, que produz o cenário da proposta inicial do programa comum. O primeiro conceito - meio ambiente e desenvolvimento - incluíram as principais temáticas em discussão na relação entre sociedade e natureza. O território e a evolução histórica são questões de espaço-tempo. Tem-se, como território, a região conurbada de Curitiba, e quanto à evolução histórica, entende-se que não se podem desvincular as atuais circunstancias como resultado de transformações, desde a sua gênese, sejam elas sociais, econômicas, ambientais e culturais. Na relação entre espaço e tempo, portanto, ficou estabelecida a conurbação da RMC – Região Metropolitana de Curitiba, como recorte espacial para o programa comum e, como recorte temporal, o período compreendido no quadro contemporâneo de Curitiba.
O Diagrama 1 representa o resultado do primeiro brainstorm das questões relacionadas com a urbanização e seus elementos representativos sobre a qualidade de vida.
Por exemplo, no que concerne ao processo de urbanização, as questões de infra-estrutura básica como comunicação, saúde e transporte são desafios freqüentes no planejamento das cidades e, geralmente na maioria delas, a sua ineficiência gera grande impacto sobre a qualidade de vida.
Em relação à habitação, discussões referentes às moradias dignas, à ilegalidade fundiária e a sua legitimação pelos poderes públicos, têm sido uma prática de necessidade, porém uma solução ambientalmente insustentável. Em relação à qualidade de vida e habitação, é temática emergente a segurança e o bem-estar. Por outro lado, a quantidade mínima de áreas verdes tem sido objeto freqüente de medição de qualidade de
vida. Embora existam valores quantitativos desejáveis, a sua existência nos ambientes urbanos tem sido ressaltada principalmente na conservação de áreas de proteção ambiental.
EVOLUÇÃO
Diagrama 1 – Relações de urbanização e suas implicações na qualidade de vida Fonte: Oficina II, Turma V – MADE - UFPR, 2004.
A questão de consumo geralmente está no cerne da discussão da qualidade de vida humana, pois se refere às expectativas e necessidades humanas, nem sempre objeto de quantificação. Redclif cita Manfred Max-Need, quando aponta diferentes dimensões de qualidade de vida, acrescentando a dimensão do consumo e de outros componentes, como um tipo de satisfação (Apud HERCULANO, 2000). A perda constante das individualidades, no processo de globalização, também tem avançado nas discussões da revalorização da dimensão cultural, e a sua permanência pode ser considerada uma questão de qualidade de vida.
Na Agenda Global para as cidades no século XXI – Urban Future 21 anteriormente citada, a última dimensão, entre as 7 (sete) elencadas, refere-se à Vida Urbana Sustentável e diz respeito à construção de uma cidade vivenciável, considerando os diferentes aspectos de uso do solo e o ambiente construído que remetem a uma importante questão – a qualidade de vida urbana. Difere das outras dimensões sobre sustentabilidade urbana pela
sua dimensão subjetiva, em razão de existirem lugares no mundo onde a qualidade de vida é reconhecida, porém de difícil mensuração e quantificação. No entanto, sabe-se que os itens descritos não são os únicos na discussão dos efeitos da urbanização sobre a qualidade de vida, e a sua superação ou amenização depende de processos complexos como o da correta implementação de políticas públicas que decorrem de processos culturais e de processos econômicos.
Em um segundo momento de discussão, observou-se que as relações de cultura, sociedade, política, economia e tecnologia inerentes a cada sociedade, são definidores do ambiente produzido. Segundo Redclif, quando refletimos sobre a qualidade de vida, o que vem a ser uma reflexão sobre nós mesmos e sobre nossa ação em relação ao nosso ambiente, que transformamos em nossa própria imagem. Construímos e reconstruímos, destruímos e reformamos a partir de nossa cultura, da nossa sociedade (Apud HERCULANO, 2000). Tais referências hierarquizadas, como demonstra o Diagrama 2, sobressaem como elementos do plano conceitual e do plano concreto, e refletem nas questões dos projetos individuais de pesquisa.
NÍVEL CONCEITUAL
NÍVEL CONCRETO
CULTURA SOCIEDADE
POLÍTICA ECONOMIA TECNOLOGIA
QUALIDADE DE VIDA URBANIZAÇÃO
Diagrama 2 – Referências conceituais Fonte: Oficina II, Turma V – MADE-UFPR, 2004.
A partir disso, destacaram-se como palavras-chave, comuns nas intenções de pesquisa, termos no plano conceitual tais como utopia, segregação e percepção, e no plano mais concreto, expressões tais como espaço construído, uso e ocupação do solo/ legislação e saneamento. Nesse momento, um possível caminho entre interfaces de pesquisa pôde ser delineado, como se pode observar no Diagrama 3.
Iniciou-se uma discussão a respeito da divisão, formando-se subgrupos, entre os componentes da linha de pesquisa urbana para possibilitar a prática interdisciplinar.
Tal encaminhamento pode ser vislumbrado com a definição de objetivos específicos de referências conceituais. Em relação à utopia, existe a necessidade de estudar a relação entre urbanização e utopia, apontando-se suas principais bases e definindo-se os pressupostos para sua concretização, na suposição de que sempre há um desejo de boas intenções nas práticas e propostas urbanas.
conceituar e analisar a de diferentes grupos da população curitibana;
percepção
estudar a relação entre urbanização e , apontando suas principais bases e definindo os pressupostos para sua concretização;
discutir o processo de segregação socioespacial;
interpretar o sob
avaliar as implicações do processo de urbanização nas questões de saneamento e saúde pública;
Diagrama 3 – Interfaces de pesquisa Fonte: Oficina II, Turma V – MADE-UFPR, 2004.
No caso da percepção, base teórica2 da Oficina I, seu aprofundamento conceitual e analítico sobre diferentes grupos da população curitibana sobressaiu como temática importante. A discussão da segregação socioespacial no processo de urbanização, reflete a própria produção do espaço de Curitiba, sendo um dos objetivos comuns entre os componentes. Tal reflexo é inerente à análise das diferentes formas de uso e ocupação do solo e possibilita a identificar as bases legais correlatas que produziram a cidade. E, interpretar o espaço construído sob a ótica das questões socioambientais seria um dos caminhos de compreensão da configuração dos vários espaços curitibanos. E por fim, a avaliação das implicações do processo de urbanização nas questões de saneamento e saúde pública, faz-se como intenção individual entre alguns componentes da linha urbana.
O Diagrama 4 representa um quadro sintético de objetivos gerais e específicos, e ilustra as interfaces de pesquisa do programa comum da turma V da linha de pesquisa Cidade, Urbanização e Meio Ambiente.
Diagrama 4 - Programa-comum: objetivos gerais e específicos Fonte: Oficina II, Turma V – MADE-UFPR, 2004.
ANDRÉIA
2 Após as primeiras reuniões em grupo, a percepção sobressaiu como um conceito-chave nas discussões. Em virtude disso, os coordenadores da linha de pesquisa Cidade, Urbanização e Meio Ambiente decidiram fazer um seminário com pesquisadores envolvidos nessa temática. Entre eles o Prof. Marcio de Oliveira que abordou questões da sociologia e as representações sociais, a Prof. Eda Teresinha Tassara que discorreu sobre a abordagem da Psicologia e a Percepção Urbana, a Prof. Roti Turin especificamente sobre a Semiologia e, por fim a Prof. Salete Kozel apresentou a tese de doutorado referente ao estudo da percepção na Geografia.
Questões gerais como a evolução histórica, território e conurbação e meio ambiente fazem o panorama de discussão sobre a relação entre sociedade e natureza, e são, portanto, inerentes a todos os projetos individuais. Observa-se que alguns componentes poderão delinear estratégias para a prática da interdisciplinaridade, principalmente no que concerne às referências conceituais comuns.
A discussão seguinte consistiu na elaboração de um cronograma preliminar dos subgrupos, como se pode observar no Diagrama 5. As atividades pretendidas da prática interdisciplinar foram realizadas, em um primeiro momento, por meio da elaboração de referenciais teóricos principais e reuniões de discussão temática. Sabe-se que este também é um dos objetivos do grupo, o qual entende que tal prática deve somar experiências e que diferentes olhares contribuirão para compreender a complexidade do fato urbano.
Março Abril Maio Junho Julho Agosto
Utopia Percepção Segregação
Uso do Solo/ Legislação Saneamento
Espaço Construído Periodo Temática
Diagrama 5 – Cronograma preliminar dos subgrupos Fonte: Oficina II, Turma V – MADE-UFPR, 2004
A temática proposta para o programa comum de pesquisa tem emergido como um dos maiores desafios de nossa civilização urbano-industrial, e como preocupação de transformar estratégias na busca caminhos de sustentabilidade baseada na qualidade de vida.
A turma V da linha de pesquisa Cidade, Urbanização e Meio Ambiente pretende, na produção de pesquisas de grupos e individuais, contribuir para avançar no entendimento do Desafio da Urbanização com Qualidade de Vida.