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O desaparecimento do conceito de Vertretung

Aquela ligação da linguagem com a realidade ganharia sua expressão mais nítida, então, no conceito de Vertretung: “a possibilidade da proposição repousa sobre o princípio de substituição dos objetos por sinais” (4.01312). Com o desaparecimento da noção de Vertretung, consequência direta da nova postura de Wittgenstein em relação à praticabilidade da análise lógica segundo o modelo tractariano, também deve cair por terra a ideia de que seja possível, em poder de uma determinada linguagem, estabelecer o significado de seus elementos por meio da vinculação do sinal com itens na realidade. Pois a possibilidade de uma Erläuterung dos sinais primitivos repousa principalmente sobre a ideia de que é possível notar aquilo que é comum ao sinal (na medida em que ele tem uma sintaxe) e o objeto no mundo que pode por ele ser significado. Ou seja, não existe possibilidade de elucidação (à maneira tractariana) sem a ideia de que a significação só acontece quando existe isomorfismo entre representante e representado. Se interpretarmos as Erläuterungen como definições ostensivas, o que parece estar correto se levarmos em conta as Thesen de Waismann130, é preciso que essa maneira de estabelecer o significado dos sinais passe por profundas mudanças depois que a ontologia do Tractatus é rechaçada.

Nos manuscritos que serviram de base à composição das Bemerkungen, encontramos uma série de observações, posteriormente incorporadas à obra, sob o título de “O problema da Vertretung”, que atestam a centralidade das questões suscitadas por essa noção tão importante para o Tractatus:

130 WWK, p. 246.

Das Problem der Vertretung.

Denn wenn ich wünsche daß p der Fall ist so ist ja nicht p der Fall und in dem Sachverhalt des Wünschens muß p vertreten sein, wie ja im Ausdruck des Wunsches. (MS 107, 243-4)

Nesta passagem, que vai aparecer em PhB §26, Wittgenstein enuncia qual é seu problema:

quando proposições falsas aparecem em atitudes proposicionais, é preciso que haja algo que substitui o estado de coisas que a proposição afirma, pois, de outra forma, eu não desejaria ou acreditaria em nada, uma vez que o que a proposição expressa não é algo no mundo. Sem os objetos que existem necessariamente, como é possível dizer que eu desejo ou acredito em algo? Precisamos, portanto, de uma nova noção de Vertretung, uma noção que nos permita resolver o paradoxo do falso que se recoloca quando a solução tractariana é tomada como impraticável. – Como é que se pode dizer o falso se aquilo que o discurso falso diz não existe e, assim, não é nada?

Na passagem incorporada a PhB §26c Wittgenstein parte para uma tentativa de solução do problema. Como é que posso desejar algo que não é o caso? O que substitui (vertritt) o estado de coisas desejado no estado de coisas do desejo? Se tento dizer aquilo que p simboliza (para o que ele é uma instrução), não faço senão oferecer mais um sinal. Isto é, estou preso na linguagem e não consigo fazer a passagem do sinal ao que ele simboliza.

Mesmo quando trata-se de imitar uma ação (e portanto um evento), não há como escapar de utilizar um sinal, pois, depois de realizada a ação, devo pedir que a pessoa a imite, e essa ação futura que deve ser realizada, embora seja semelhante à passada, ainda não aconteceu, de modo que algo deve a vertreten na minha instrução. – A questão é: como algo que não existe se deixa vertreten? A resposta é que não há propriamente relação de Vertretung aqui, que a proposição nos dá tudo o que precisamos para saber o que é que deve ser o caso para que ela seja verdadeira (mesmo que, e principalmente porque, sua verificação ainda não ocorreu). O que temos, então, é um sinal que tem como seu sentido uma possibilidade no mundo, e esse salto do sinal para o que ele designa acontece de uma vez, quando aquilo que a proposição visa de fato ocorre.

4.5 A NOVA FIGURATIVIDADE

No Tractatus, para que uma proposição represente uma determinada situação, “deve

ser possível distinguir na proposição tanto quanto seja possível distinguir na situação”,

“ambas devem possuir a mesma multiplicidade lógica (matemática)” (4.04). Assim, se uma determinada situação envolve 3 objetos, dois deles possuindo a mesma forma lógica conectados por um terceiro de outra categoria, ela pode ser representada por meio de todo e qualquer sinal proposicional que contiver dois sinais que possuem a mesma sintaxe e um terceiro (e, é claro, a sintaxe desses sinais deve espelhar as possibilidades combinatórias dos objetos que eles substituem). Supondo que “a” e “b” sejam esses sinais que possuem a mesma sintaxe, isto é, que podem sempre ser substituídos um pelo outro salva significatione, e “R” o terceiro sinal, teremos como possibilidades de sinal proposicional “aRb” e “bRa”.

Ambos estes sinais podem ser postos em relação projetiva com o mundo de modo que a proposição resultante tenha a mesma multiplicidade lógica nos dois casos: há dois objetos de mesma forma lógica ligados por um terceiro de forma lógica distinta. O que nos impediria de fazer isso, segundo a interpretação do Tractatus que sustenta a necessidade de um batismo dos objetos, é que, uma vez ligado a a, o nome “a” deixa de poder ser usado para qualquer outro objeto de mesma forma lógica, o mesmo valendo para o nome de “b”. Assim, “aRb”

descreve um fato diferente de “bRa”, as condições de verdade dessas proposições (o que deve acontecer para que elas sejam verdadeiras) são distintas.

Se a relação entre a linguagem e a realidade não é mais de isomorfismo como no Tractatus – com a correspondência formal entre objetos sempiternos e sinais simples – , isso não quer dizer, entretanto, que a ideia de figuratividade tenha sido completamente descartada, isto é, ainda permanece a ideia de que há uma relação interna entre uma proposição e o que ela descreve. Ao reter a noção de multiplicidade (PhB § 10), Wittgenstein continua no mesmo registro do Tractatus, sem no entanto sustentar a tese de que existiria uma linguagem que explicitaria completamente a multiplicidade dos fatos na superfície de seu sinal. Isto se deve ao fato de que não há mais a suposição de que existe uma estrutura última da realidade que pode ser colocada em correspondência com nossa linguagem por meio de uma sintaxe que reproduza, para os sinais, o mesmo comportamento combinatório que tem lugar entre os objetos. A multiplicidade da proposição diz respeito agora à sua capacidade de nos guiar na busca daquilo que ela afigura, isto é, à sua capacidade de nos dirigir ao espaço em que deve ser encontrada a situação que ela descreve (ou a ação que ela ordena, ou o evento que a satisfaz). Estamos aqui diante de uma das consequências do desaparecimento do conceito de Vertretung, pois tornou-se impossível compreender a proposição como uma Bild confeccionada por meio de uma correspondência biunívoca entre elementos do sinal e objetos

na realidade. Sem que haja substituição de objetos por sinais, agora basta à proposição ser capaz de, não importando sua complexidade ou estrutura,131 nos dar as instruções corretas para procurar um determinado fato no mundo, isto é, ela deve nos indicar em que espaço deve ser procurado esse fato e indicar quais são suas características a fim de que possamos reconhecê-lo. Esse espaço, por sua vez, uma vez descartada a ideia de um espaço lógico fundado ontologicamente na existência de objetos indestrutíveis, é garantido tão somente pela gramática das palavras que usamos nas proposições. Assim, há um espaço das cores na medida em que os nomes de cores têm uma gramática que permite certas combinações entre eles e entre as proposições em que eles aparecem, e proíbe outras.

Se formos aos manuscritos, constataremos que o contexto imediato de PhB §10 (MS 108, 58) é o da discussão sobre fatos positivos e negativos – a ocorrência e a não ocorrência de estados de coisas, como queria o Tractatus. Esta série se inicia assim: “Wenn ich sage ich habe heute Nacht nicht geträumt, so muß ich doch wissen wo nach dem Traum zu suchen wäre.” (3.1.1930)

A questão parece ser a de que, se concebermos o significado das palavras como aquilo que lhes corresponde no mundo, eu não posso dizer que sonhei quando não sonhei, pois, uma vez que não sonhei, não haveria sonho para servir de referência para minhas palavras. Mas a noção correta é justamente a contrária: “der Satz „ich habe geträumt” darf auf die Situation angewendet nur falsch aber nicht unsinnig sein.”. A solução tractariana consistia em postular objetos necessariamente existentes que serviriam de significado para os termos de ambas as proposições – a afirmação de que sonhei e sua negação – e assim garantiriam que, mesmo que não houvesse sonho, a afirmação dessa situação tem um sentido na medida em que todos seus termos têm significado. Sem os objetos tractarianos e as proposições elementares em que eles aparecem como devemos pensar o problema da proposição falsa?

Agora, passa a ser preciso que eu saiba onde é que devo procurar pelo sonho a fim de determinar qual deve ser a resposta da realidade à minha proposição; quando digo verdadeiramente que não sonhei, devo saber o que seria o caso, caso eu tivesse sonhado. É algo nesse sentido que Wittgenstein fala na alínea seguinte: a proposição negativa e a positiva devem formar uma unidade, uma Signalscheibe (signal dial – conforme a tradução inglesa de PhB § 86) que possui duas posições, e isso de modo que eu reconheça, mesmo dada a posição negativa, qual é o dial em questão, e assim seja capaz de distingui-la de outras. A

131 É justamente a recusa de sustentar que toda proposição é essencialmente complexa que faz surgir uma nova noção de análise completa nas Bemerkungen. Cf. [Prado Neto, 2003], p. 47-49.

consequência imediata dessa conexão entre uma proposição e sua negação parece então ser a de que não há mais como conceber o significado de uma proposição como função do significado de seus termos: quando emito uma proposição que afirma a existência de algo que não existe, não posso estabelecer a que correspondem algumas de minhas palavras, e no entanto a proposição não deixa de ter sentido. Eu sei o que seria o caso se ela fosse verdadeira, sei onde a coisa em questão deve ser procurada. O sentido de minha proposição, então, é garantido pela existência de um lugar que contém a possibilidade do evento em questão, possibilidade esta a que se dirige à Signalscheibe “sim – não”. Mas, à diferença do Tractatus, essa possibilidade deixou de ser garantida por objetos necessariamente existentes, tornando impossível dar conta do significado dos elementos subproposicionais em termos da Vertretung de objetos por sinais.

Essa tentação de pensar ser sempre preciso encontrar uma referência para as palavras que usamos nos leva a postular certas entidades como os significados das palavras nas proposições negativas. Quando digo que não estou com dores no braço, então, fico tentado a pensar que tenho, no lugar onde apareceria a dor, uma sensação difusa (schattenhaftes Gefühl). Não há nada no lugar, e é justamente isso que torna a proposição negativa uma descrição correta da situação, bastando apenas que eu saiba onde devo procurar isso que digo não existir. “Inwiefern enthält der gegenwärtige, schmerzlose, Zustand die Möglichkeit der Schmerzen?”: ao fazer uso do dial “dor – sem dor”, a pressuposição tácita é a de que, no lugar onde está agora a dor, ela poderia não aparecer, e vice-versa. Deste modo, se a proposição verdadeira é aquela expressa pela posição negativa do dial, a posição verdadeira é, não obstante, possível: isso é o que se manifesta pelo fato mesmo de dizermos que a proposição que afirma a presença de dor é falsa, e não um contrassenso. Assim, pode ser que a resposta a essa questão seja que a situação de ausência de dor contém a possibilidade da dor porque a proposição “estou com dores…”, quando aplicada a essa situação, é falsa e não Unsinn.

Uma outra maneira de salvar a doutrina referencialista estrita seria dizer que, para que a palavra “dor” tenha significado, é necessário que se reconheça a dor quando ela aparece.

Assim, haveria uma espécie de anterioridade da proposição positiva sobre a negativa, o sentido da última dependendo do significado que ganha o termo no caso de a proposição positiva ser verdadeira. Mas, se Wittgenstein nos diz em seguida que isso não é mais necessário que o reconhecimento da ausência de dor, a prioridade não é mais da ocorrência (afirmada pela proposição positiva) sobre a ausência, e sim do espaço de possibilidades sobre o que é de fato. Isto é, para que a palavra tenha um significado, o que preciso saber é onde

procurar tanto por uma ausência quanto por uma presença; ser capaz de reconhecer a presença é apenas parte do que é exigido, pois como eu seria capaz de dizer que a proposição positiva é falsa se eu não for capaz de reconhecer a ausência? Esta parece ser a nova situação da linguagem após o desmoronamento do modelo de análise do Tractatus, que nos proveria com um mundo em que as palavras nunca ficariam destituídas de significado e em que toda presença ou ausência se resumiria à ocorrência ou não ocorrência de concatenações entre objetos indestrutíveis. Se o significado, assim concebido, não está mais sempre garantido, é preciso buscar uma nova noção de sentido para as proposições, e é a isto que responde a ideia de um espaço comum onde devem ser procurados o fato positivo e o fato negativo.

Se é ainda possível dizer que a palavra só tem significado no contexto de uma proposição (sendo que não é a própria palavra que introduz uma situação de presença, mas seu uso como em “estou com dores”), isso agora quer dizer que a palavra introduz toda uma régua que se afirma coincidir em uma marcação com a situação por meio de uma proposição.

Assim, “estou com dores” e “não estou com dores” são marcações distintas sobre a régua, régua esta que é introduzida pela palavra “dores” e que contém as duas marcações como possibilidades de medição. Logo, dizer que a palavra só tem significado na proposição agora significa que uma aplicação da régua da dor deve envolver a especificação de um ponto da escala como aquilo que é o caso; apenas a régua, sem dizermos em que ponto dela ela coincide com a situação, não diz nada. Mas, nesse sentido, não pode haver prioridade de uma marcação na régua sobre outra, isto é, não é a marcação “estou com dores” que á fundamental: ela está em pé de igualdade com a outra marcação, uma vez que o significado de ambas é garantido tão-somente pela aplicabilidade da régua á situação.

Essa questão da aplicabilidade aparece na alínea seguinte, posteriormente descartada por Wittgenstein (“Wenn das Messer nicht auf dem Buch liegt so liegt auch kein Schatten des Messers auf dem Buch, aber die Multiplizität ist vorhanden die die Möglichkeit gibt und im Satz ist sie benutzt und als Wirklichkeit dargestellt.”): ela seria garantida pela multiplicidade que está presente na situação mesmo quando não aplicamos a régua a ela. Seria essa multiplicidade que é representada numa proposição como a realidade (a multiplicidade das respostas, a possibilidade de haver dor e não havê-la como possibilidade ontológicas). Isto é claramente uma reminiscência do Tractatus: a aplicabilidade de nossa linguagem depende de que a realidade se articule da mesma forma que nossas expressões; se não existe identidade de multiplicidade entre a situação e a proposição (4.04-4.041), não é possível haver representação. Agora, nos manuscritos, essa multiplicidade garantiria a aplicação de réguas

que a possuem na figura das marcações que contêm – a multiplicidade ontológica seriam as possibilidades de resposta da realidade.

Mais uma alínea descartada, que viria a reaparecer no Big Typescript [TS 213, 103], é esta: “Was wäre das für eine Frage: Könnte denn alles nicht der Fall sein und nichts der Fall sein? Könnte man sich einen Zustand einer Welt denken in dem mit Wahrheit nur negative Sätze zu sagen wären? Ist das nicht offenbar alles Unsinn? Gibt es denn wesentlich negative und positive Zustände?” – Ora, no Tractatus havia estados essencialmente negativos e positivos: positivos eram as concatenações de objetos, negativos, a ausência de concatenação (NB, p. 97f – “Negative facts only justify the negations of atomic propositions.”). A pergunta é, portanto, se é possível termos uma linguagem em um mundo em que apenas proposições negativas são verdadeiras. Ora, isso era plenamente possível no Tractatus: descreveríamos, neste caso, o mundo possível em que nenhum estado de coisas ocorre. Mas essa possibilidade era garantida por uma positividade que está além de toda expressão possível: pela existência necessária dos objetos. É porque há objetos necessariamente existentes e indestrutíveis que se torna possível descrever um mundo onde nada é o caso. É também por conta disso que podemos falar de estados essencialmente positivos e negativos: os primeiros são as concatenações efetivas de objetos, os últimos a ausência de vinculação. Agora, se não há mais objetos que existem necessariamente e, como veremos mais à frente, existem pressupostos factuais para o funcionamento da linguagem, não é mais possível descrever um mundo como esse: em algum momento chegaremos à descrição de ocorrências efetivas, ocorrências que garantem a aplicabilidade de nossa linguagem a outras possibilidades.

No Tractatus, então, posso descrever a situação em que nada é o caso porque minhas palavras não deixarão de ter significado nessa situação. Mas e quando essa garantia de significado não existe – se aquilo que era o objeto tractariano é tão perecível quanto suas concatenações? Aqui se insinua uma posição segundo a qual o que conta como fato positivo e o que conta como fato negativo dependem apenas do referencial em relação ao qual os eventos são medidos; sem um referencial absoluto, parece não ser possível dizer que há estados essencialmente positivos ou negativos.

E finalmente atingimos o parágrafo das Bemerkungen de que partimos (PhB, §10): se aqui Wittgenstein fala de Bildhaftigkeit, a ligação com o que precedeu é naturalmente a crítica à noção de objeto como o que existe necessariamente e garante que nossas proposições possam funcionar como figurações de fatos possíveis. Sem os objetos e, por conseguinte, sem fatos essencialmente positivos ou negativos, como fica a noção de figuratividade? E mais,

como fica a noção de multiplicidade (isomorfismo) que era o fundamento da figuratividade das proposições no Tractatus? – A aplicabilidade de uma régua à realidade estaria garantida pela multiplicidade presente na realidade; é essa multiplicidade que utilizamos na proposição e serve para representar a realidade. Se dores e sonhos devem se comportar como posições de objetos no espaço, isso quer dizer que há um espaço em que aqueles podem aparecer e que, mesmo que esteja vazio, tem uma determinada estrutura. Seria a essa estrutura que nos referimos quando construímos proposições sobre o que pode ocupar ou não esse espaço. Ora, a Bildhaftigkeit de nossas proposições, no Tractatus, residia no isomorfismo entre ela e a realidade. Precisava ser possível recriar, na proposição, uma estrutura idêntica à que os objetos significados por suas partes constituintes podem formar na realidade. Mas agora esse caráter figurativo das proposições é precisado ao tomarmo-las como instruções para construir modelos: o que mudou?

Uma proposição como “o livro é vermelho”, tomada como a instrução para construir um modelo, me diria para pegar um livro e pintá-lo com a cor vermelha. Para isso, preciso saber onde procurar um objeto físico como um livro, preciso saber o que quer dizer um objeto ter uma cor, onde procurar por tinta vermelha (e saber reconhecê-la quando a encontro) e aplicá-la ao objeto que encontrei. Essa atividade, portanto, pressupõe um conhecimento gramatical (onde procurar as coisas, reconhecê-las quando as encontramos, como elas se organizam), e se a palavra precisa ter essa multiplicidade (da atividade desejada), isso parece querer dizer que deve ser possível apreender, na proposição, a gramática das palavras ali empregadas. Isso, talvez no sentido em que “vermelho” não deve aparecer como a propriedade de uma nota musical; pois aqui eu não saberia como construir o modelo correspondente! Agora, se isso deve esclarecer a figuratividade das proposições, podemos pensar que ela reside na relação que as convenções gramaticais estabelecem entre as palavras e os eventos no mundo. Eu sei o que é uma cor na medida em que sei que valores essa variável (“cor”) pode assumir em proposições; esse conhecimento “guia minha mão” quando sou instruído a construir algo colorido, isto é, eu pego algo que será corretamente descrito como algum dos valores da variável “cor”. O mesmo com o livro: eu realizo a atividade desejada na medida em que pego um objeto que é corretamente descrito como um livro (“Isto é um livro”).

É razoável então pensar que esta passagem deva ser lida no interior do quadro estabelecido por PhB § 6, acerca das definições ostensivas. Se não é possível, com a linguagem, sair da linguagem, então a figuratividade da proposição não pode ser esclarecida

apelando para as características daquilo que ela quer representar: se regras gramaticais se

apelando para as características daquilo que ela quer representar: se regras gramaticais se