4.3 O condicionamento do tema às relações de trabalho subordinadas na
4.3.1 O descompromisso com os trabalhadores precários
Para entender o atual momento das relações de trabalho, cumpre registrar que, nas últimas duas décadas do Século XX, surgiu uma nova conjuntura histórica, afastada do labor instituído pelos modelos fordista e taylorista de trabalho. Estes padrões tiveram seu auge no Estado do Bem Estar
Social, em que a maioria dos trabalhadores se concentravam nas fábricas e eram empregados.
A mundialização, fundada na “lógica financeira”, ultrapassou o terreno apenas econômico e impregnou “todos os âmbitos da vida social, dando conteúdo a um novo modo de trabalho e de vida” (THÉBAUD-MONY; DRUCK, 2007, p. 25).
Para a maioria da população a globalização está sendo perversa. Conforme Milton Santos (2008, p. 19-20):
De fato, para a grande maior parte da humanidade a globalização está se impondo como uma fábrica de perversidades. O desemprego crescente torna-se crônico. A pobreza aumenta e as classes médias perdem em qualidade de vida. O salário médio tende a baixar. A fome e o desabrigo se generalizam em todos os continentes. Novas enfermidades como a SIDA se instalam e velhas doenças, supostamente extirpadas, fazem seu retorno triunfal. A mortalidade infantil permanece, a despeito dos progressos médicos e da informação. A educação de qualidade é cada vez mais inacessível. Alastram-se e aprofunda-se males espirituais e morais, como os egoísmos, os sinismos, a corrupção.
A perversidade sistêmica que está na raiz desta evolução negativa da humanidade tem relação com a adesão desenfreada aos comportamentos competitivos que atualmente caracterizam as ações homogêneas. Todas essas mazelas são direta ou indiretamente imputáveis ao presente processo de globalização (MILTON SANTOS, 2008).
Hoje, há uma massa de desempregados, não empregáveis, trabalhadores informais ou na forma do “EU S. A.”26
que não tem a proteção das normas trabalhistas, fenômeno que não vem sendo delineado pela doutrina jurídica clássica27.
Há ainda uma precarização estrutural do trabalho, com a proliferação de “distintas formas de ‘empresa enxuta’, ‘empreendedorismo’, ‘cooperativismo’, ‘trabalho voluntário’ etc., dentre os mais diversos modos alternativos de trabalho
26
Denominação dada para aqueles trabalhadores que constituem empresas formalmente, mas, na prática, laboram para uma única empresa, mas sem os encargos trabalhistas e previdenciários a cargo do contratante.
27
A refutação do trabalho subordinado como único objeto do direito do trabalho foi exposta na dissertação defendida por Isabele de Albuquerque Moraes D’angelo neste programa de pós- graduação, com o tema: O poder disciplinar do empregador e a subordinação do empregado versus gestão participativa: refutando e redefinindo os fundamentos teóricos do Direito Individual do Trabalho. A necessidade de deslocamento do objeto do direito do trabalho para abranger todos os trabalhadores foi antes defendida nas seguintes obras de Everaldo Gaspar Lopes de Andrade: Direito do trabalho e pós-modernidade: fundamentos para uma teoria geral. São Paulo: LTr, 2005 e Princípios de direito do trabalho e seus fundamentos teórico-filosóficos: problematizando, refutando e deslocando o seu objeto. São Paulo: LTr, 2008.
precarizado” (ANTUNES, 2009, p. 233). Ricardo Antunes (2009, p. 233-234) esclarece que o exemplo das cooperativas é eloquente, pois elas surgiram como reais meios de defesa dos trabalhadores contra a precarização do trabalho e como meio de combate ao desemprego. Entretanto hoje proliferam as
cooperativas falsas, como verdadeiros “empreendimentos patronais, para
destruir direitos sociais do trabalho”.
As diversas modalidade de flexibilização do labor também revestem o caráter de exploração do trabalho humano, com a redução ou perda de direitos e garantias pelos trabalhadores.
Ricardo Antunes bem se pronuncia sobre a questão:
Entre as distintas formas de flexibilização – em verdade, precarização – podemos destacar, por exemplo, a salarial, de horário, funcional ou organizativa. A flexibilização pode ser entendida como “liberdade da empresa” para desempregar trabalhadores; sem penalidades, quando a produção e as vendas diminuem; liberdade, sempre para a empresa, para reduzir o horário de trabalho ou de recorrer a mais horas de trabalho; possibilidade de pagar salários reais mais baixos do que a paridade de trabalho exige; possibilidade de subdividir a jornada de trabalho em dia e semana segundo as conveniências das empresas, mudando os horários e as características do trabalho (por turno, por escala, em tempo parcial, horário flexível etc.); dentre tantas outras formas de precarização da força de trabalho (ANTUNES, 2009, p. 234). Martin Carnoy identifica quatro elementos da transformação do trabalho relativas a sua flexibilização:
a) Jornada de trabalho – o trabalho no modelo flexível não fica restrito ao modelo tradicional de 35 a 40 horas por semana, com expediente integral.
b) Estabilidade no emprego – não há o compromisso com a permanência
futura no emprego, o labor flexível é regido por tarefas.
c) Localização – embora a maioria dos trabalhadores ainda exerça as suas
atividades em local de trabalho da empresa, há uma tendência crescente de que os trabalhadores laborem em outros locais, durante todo o tempo ou em parte dele, como em casa, em trânsito ou em outras instalações de uma empresa subcontratada.
d) O contrato de social entre o empregado e o patrão – no contrato
tradicional há um compromisso firmado com o empregador com os direitos dos trabalhadores bem definidos, geralmente com níveis padronizados de salários,
benefícios sociais, opções de treinamento e um plano de carreira previsível (CARNOY apud CASTELLS, 1999, p. 331-332).
O novo modelo de emprego vinculado às tecnologias da informação está fazendo com que a forma tradicional de trabalho, conforme supradelineada, esteja em declínio em todo o mundo, favorecendo o labor flexível que se desenvolve, ao mesmo tempo, nas quatro dimensões supramencionadas. Há o crescimento dos trabalhadores temporários, da terceirização, da subcontratação, aumentando a desigualdade e desvalorizando a mão de obra (CASTELLS, 1999, p. 332-335, 345).
A flexibilização por parte do trabalhador, o contratante mais fraco, é um fator de risco, pois a força de trabalho é deixada completamente descoberta e verifica-se a perda de direitos e garantias sociais. Ela não soluciona o problema do desemprego, sendo uma imposição à força de trabalho para que sejam aceitos salários reais mais baixos e em piores condições (VASAPOLLO apud ANTUNES, 2008, p. 234-235).
A precarização das relações de trabalho também se verifica pela fragmentação do setor produtivo das empresas globais para locais que lhes propiciem custos mais baixos de produção, por disporem de vastos recursos humanos a baixo custo (CASTILLO, 2009, p. 26).
Por um lado, há a fragmentação técnica de uma empresa multinacional,
de modo que “um pedaço da produção pode ser feita na Tunísia, outro na
Malásia, outro ainda no Paraguai” (SANTOS, 2008, p. 26), mas, por outro lado, há “uma unidade política de comando” (SANTOS, 2008, p. 26).
A fragmentação produtiva é um modo claro de se verificar a mais-valia mundial. Esta gera, por sua vez, uma maior desarticulação dos trabalhadores, pois o comando empresarial é global, mas a mobilização da classe trabalhadora geralmente não o é.
Neste novo modelo de produção e administração globais há a integração do processo de trabalho e a desintegração da força de trabalho, em face de uma opção política e econômica feita por governos e empresas para propiciar os aumentos das produtividades e lucratividades a curto prazo (CASTELLS, 1999, p. 304).
A mais-valia universal se tornou possível, visto que a produção ocorre em escala mundial, por meio de empresas transnacionais, as quais competem entre si em uma concorrência feroz, em que somente sobrevivem aquelas que obtêm a mais-valia maior. Verifica-se que há um novo patamar de internacionalização, com a mundialização de produtos, do dinheiro, do consumo, da dívida, do crédito e da informação; uma sustentando e arrastando a outra, de modo elas se impõem mutuamente (SANTOS, 2008, p. 29-30).
As mazelas decorrentes do modelo neoliberal, nas relações individuais de trabalho foram assim sintetizadas por Andrade (2005, p. 247):
Do ponto de vista, das Relações Individuais, pode-se identificar, dentre outros problemas, os seguintes: a substituição das relações de trabalho estáveis, previsíveis e de longo prazo, por outro sistema baseado na complexidade e heterogeneidade da classe que vive do trabalho, com suas múltiplas e variadas modalidades de contratos atípicos – flexíveis, desregulamentados, temporários, de curta duração, de tempo parcial etc.; o aparecimento crescente e irreversível do trabalho informal – precário, desprotegido – não amparado pelas normas imperativas oriundas da tradição do Estado do Bem –estar Social; e, finalmente, o desemprego estrutural. (ANDRADE, 2005, p. 247)
Portanto, a atual globalização neoliberal e a internacionalização dos processos produtivos acompanham milhões de trabalhadores desempregados, subempregados e precarizados pelo mundo todo. Com o sistema fordista prevalecia o trabalho pleno e de duração indeterminada, mas agora há uma massa de trabalhadores com um contrato de curta duração ou de meio expediente ou mesmo que prestam seus serviços poucas horas do dia e/ou por poucos dias da semana (VASAPOLLO apud ANTUNES, 2008, p. 235).
Marchal Berman (2001, p. 286-288) é contundente quando identifica quem pertence à atual classe trabalhadora. Para ele o essencial não é trabalhar em uma fábrica ou se utilizar das mãos, mas a necessidade de vender o seu trabalho ao capital para que possa sobreviver. Identifica até mesmo a possibilidade de o trabalhador alterar a personalidade para que a sua força de trabalho possa ser comprada.
Ricardo Antunes traz alguns números exemplificativos do crescimento do subproletariado:
A titulo de ilustração: tomando-se o período de 1982 a 88, enquanto se deu na França uma redução de 501.000 empregos por tempo completo, houve o aumento de 111.000 empregos em tempo parcial (Bihr, 1990, apud Antunes, 1995: 44 e Bihr, 1991:88-9). Ou seja, vários
países do capitalismo ocidental avançado viram decrescer os empregos em tempo completo ao mesmo tempo em que assistiram a um aumento das formas de sub-proletarização, exemplificados pelos trabalhadores parciais, precarizados, temporários (ANTUNES, 2006, p. 211-212)
[...] aproximadamente 35% a 50% da população ativa britânica, francesa, alemã e americana encontra-se desempregada ou desenvolvendo trabalhos precários, parciais, dando a dimensão daquilo que corretamente se chama de sociedade dual (Gorz, apud Antunes, 1995, e Gorz, 1990 e 1990a) (ANTUNES, 2006, p. 212).
Toda esta gama de trabalhadores em situação precária, que corresponde a uma grande parcela, não é abarcada pelas soluções jurídicas da doutrina clássica.
4.3.2 O descompromisso com os trabalhadores afetados pelo desemprego