M. F. e SUA GRAMATICA
3. O desenho d’O dialeto caipira
fundador e acontecimento. O discurso fundador, como Orlandi (1993) pro-põe, não rompe com um passado: reorganiza-o, promovendo outras filiações;
dito de outro modo, o discurso fundador rearranja uma memória e funda uma discursividade, estabelecendo aí um pré-construído, ou seja, “o já-dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada da palavra” (Orlandi, 1999, p. 31); a partir dele instauram-se discursividades, que podem ou não a ele se referir. O acontecimento, ao contrário, se faz na hiância entre o não sentido e o sentido; estabelece-se no espaço de ruptura; é da ordem daquilo que irrompe e reclamada sentidos; melhor dizendo: é um real a ser capturado e significado pelo imaginário.
Julgamos possível, como já dissemos, considerar O dialeto caipira como discurso fundador e acontecimento linguístico na medida em que, ao mesmo tempo em que instaura uma discursividade sobre determinado aspecto da língua do/no Brasil (isto é, o dialeto caipira), denomina e delimita uma região dessa língua, instaurando um desenho sobre certo falar; Amadeu Amaral, com efeito, dá para esse (por ele assim nomeado) “dialeto caipira” um contorno fonético, sintático, lexical. Trata-se de um gesto de nomear e caracterizar essa porção da língua do/no Brasil; de um gesto de instaurar e descrever esse dialeto; de um gesto de dar contornos e nomear esse dialeto, gerando uma memória. Resta a questão, no entanto, de que desenho é esse que Amadeu Amaral institui e des-creve; que aspectos são por ele trazidos. Isto nos levou a analisar de que língua do/no Brasil e de que “dialeto caipira” está se falando; que dialeto Amadeu Amaral está instituindo, nomeando e descrevendo.
“o tom geral do frasear [do dialeto caipira] é lento e igual, sem a variedade de inflexões, de andamentos e esfumaturas que enriquece a expressão das emoções na pronunciação portuguesa” (idem, p. 4).
Lentidão e monotonia versus riqueza e emotividade: tal é, aí, a oposição que negativiza o dialeto caipira. Enquanto o lusitano apresenta uma “pronun-ciação vigorosa e rápida” (ibidem, p. 4), o dialeto caipira traz em si a marca da lentidão, cuja principal causa seria a quase total ausência de “adoçamento e elisão das vogais átonas” (ibidem, p. 4), fenômeno fortemente presente no português de Portugal. O excesso de vogais está, aí, associado ao desvio e ao erro, marcas fundamentais do dialeto caipira.
Mas se por um lado o excesso resulta em uma penalização que faz sig-nificar língua e sujeito como da ordem da lentidão, por outro lado, quando a falta se apresenta no dialeto caipira, tampouco ela é positivizada. Quando, por exemplo, se olha para a ocorrência de ditongos:
“em Portugal, bem como no falar da gente culta no Brasil, há notório sincretismo no uso dos ditongos ou e oi. Para o caipira tal sincretismo não existe”, o que leva a pronúncias como “lavôra, ôro, estôro, côro, côve [...]” (ibidem, p. 7)
Dito de outra forma, temos a contradição aí operando: é agora a falta que se coloca no lugar do desvio, em contraposição à língua matriz portuguesa, ao passo que, no que se referia à fonética, era o excesso que colocava o dialeto no lugar do erro. O que se observa, de qualquer modo, é, tanto num caso quanto em outro, a oposição “dialeto caipira” versus “língua portuguesa”, em que o pri-meiro é posto no lugar da falha, dialeto percorrido por desvios, dialeto limitado e pobre; e o segundo, no lugar da legitimidade, no lugar da língua bem falada e rica. Se o falante caipira pronuncia demoradamente as vogais, o excesso se faz impeditivo de uma pronúncia “vigorosa e rápida”, rica em diferentes modos de pronunciação de vogais; se o falante caipira suprime a semivogal dos ditongos, a falta se faz desvio e erro.
Sobressai, pois, a oposição entre língua do/no Brasil, que está para a dialetação, e língua portuguesa de Portugal, que está para a legitimidade, para o bem falar e, finalmente, para a alta literatura.
Tanto é assim que, ao chegarmos aos aspectos lexicais, deparamo-nos com a lista de “vocabulário” colhida por Amadeu Amaral. Ali, sua lógica de incluir/excluir aquilo que constará como vocabulário típico do dialeto caipira se inscreve no lugar do lusitano: ao se efetuar o registro do léxico do dialeto
caipira, àquilo que é colhido só é dada existência pelo discurso literário portu-guês; dito de outro modo, Amaral só registra vocábulos que ainda estejam em uso pelos “roceiros” e, ao mesmo tempo, tenha sido usado na (considerada) alta literatura portuguesa. É, mais uma vez, a língua de Portugal que sustenta e permite variações, mas que irremediavelmente permanece como legítima língua matriz:
“Este glossário não se propõe reunir [...] todos os brasileirismos correntes em S. Paulo. Apenas registra vocábulos em uso entre os roceiros, ou caipiras, cuja linguagem, a vários respeitos, difere bastante da da gente das cidades, mesmo inculta. [...] Deixamos de lado, em regra geral, aqueles [vocábulos] que não temos visto usados senão em escritos literários.” (Amaral, p. 36)
Não será de espantar, a partir daí, que muitos dos vocábulos recolhidos tragam, junto à sua definição, um exemplo de uso colhido de textos de Camões, Gil Vicente e Padre Vieira, ainda que seja para ilustrar o próprio dialeto caipira:
i) para, por exemplo, exemplificar o uso de “atanazar”, recorre-se a Gil Vicente: “Veis aquelios azotar/Com vergas de hierro ardiendo/Y despues atanazar?” (idem, p. 49);
ii) para exemplificar “estumar”, recorre-se a Gregório de Matos: “Esti-mando-lhe um cão pecheuiigue/O demo do gato botou ceitil” (ibidem, p. 102);
iii) e, para exemplificar “antão”, recorre-se a nada menos que Os lusíadas, de Camões: “Filhos forão, parece, ou companheiros,/E nella antão os íncolas primeiros” (ibidem, p. 43).
O olhar volta-se para o dialeto caipira, na tentativa de capturar e listar seu vocabulário próprio; no entanto, o que permite, sustenta e legitima a captura é o discurso lusitano, através do discurso literário de Portugal. Só se pode capturar aquilo que de antemão esteve presente na considerada alta literatura portuguesa. Tem-se, novamente, a língua matriz de Portugal como referên-cia básica, elemento fundamental, estando o dialeto caipira em condição de assujeitamento, em condição de variação dessa língua-base, em condição de dialetação, inconstância e flutuação, sem constituir língua.
Em síntese, Amaral propõe-se a capturar o “falar do caipira”, listando seu vocabulário; propõe-se a olhar para o Brasil; propõe-se a nomear e descrever um aspecto (a saber: o dialeto caipira) do “linguajar brasileiro”. Ao instituir, nomear e descrever tal dialeto, no entanto, inscreve-se na posição-sujeito do português, instaurando uma discursividade e uma memória tais que, a partir
de então, torna-se evidente e natural que o “dialeto caipira” só pode ser da ordem do desvio, do erro, da anedota. Funda-se uma discursividade em que o dialeto caipira é colocado como parte deturpada de um linguajar nacional também já em condição de corrupção; é em Amadeu Amaral, ainda, que se dá esse gesto de nomear e descrever tal “dialeto caipira”, dando-lhe um desenho, circunscrevendo-o e dando-lhe, em última análise, um lugar.
A anedota trazida por Cereja e Magalhães funda-se em larga medida no
“mau uso” da língua, mau uso este marcado fortemente no r retroflexo (“os pedar”), invariavelmente associado ao falante caipira e, daí, ao “mau uso”, ao desvio, ao vício. Retoma-se aí aquilo que já está em Amadeu Amaral posto como “alterações normais” dos fonemas, em relação à língua de Portugal:
Na sua prolação, em vez de projetar a ponta contra a arcada dentária superior, movimento este que produz a modalidade portuguesa, a língua leva os bordos laterais mais ou menos até os pequenos molares da arcada superior e vira a extremidade para cima, sem tocá-la na abóbada palatal. Não há quase nenhuma vibração tremulante. Para o ouvido, este r caipira assemelha-se bastante ao r inglês post-vocálico. É, muito provavelmente, o mesmo r brando dos autóc-tones. (Amaral, 1920, p. 5, grifo nosso)
O exemplo de Cereja e Magalhães, pois, vem atestar a permanência no imaginário disso que doravante se denomina e se entende como “dialeto caipira”; o exemplo de Cereja e Magalhães, finalmente, vem atestar que, tal é essa discursividade fundada por Amaral, é evidente e natural que o dialeto caipira só pode estar no lugar da deturpação, do erro, do riso e da anedota, parte atrasada e deturpada de um linguajar brasileiro já ele mesmo corrompido, tomando-se como referência a língua-matriz lusitana, lugar da alta literatura e da legitimidade.
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Nehemias Nasaré Lourenço
Universidade Estadual da Paraíba
Ricardo Soares da Silva Universidade Estadual da Paraíba ReSUMO: O latim oferece dificuldades quanto à paridade do sistema clas-sificatório quando apenas considerado o binômio “clássico” e “vulgar”. Tal divisão pode configurar arestas complicadas quanto à sua percepção, porque o latim vulgar além de ser língua usada na informalidade da elite quanto, numa perspectiva diacrônica, não é um produto derivado diretamente do clássico.
Para descortinar o falso “consenso”, apreciamos a origem do latim vulgar, suas nomenclaturas e perspectivas assinaladas por gramáticos, filólogos e linguistas que pesquisam a história da língua portuguesa e a derivação românica do latim no Império, tais como Oswaldo Antônio Furlan (2006), Ernesto Faria (1958), Ismael Coutinho (2005) etc.
PALAVRAS-CHAVe: latim, vulgar, clássico, sistema classificatório.
AbstrAct: The Latin offers us some difficulties in relation to the classificatory system parity when we consider just the « classic » and « vulgar » binomial. This division might produce complicating edges due to its perception this because the Vulgar Latin besides be a language used into the elite informal speech, in a diachronic perspective, it is not directly a product that has came from the classic one. To disprove the “false” consensus, we appreciate the Vulgar Latin origin and also its nomenclature and perspectives pointed through gramma-rians, philologists and linguists that reach out the Portuguese language history and the Latin Romanic derivation into the Empire, such as Oswaldo Antônio Furlan (2006), Ernesto Faria (1958), Ismael Coutinho (2005) etc.
KEY WOrDs: Latin, vulgar, classic, classification system.
Prolegômenos ao estudo do latim.
Hoje, a língua latina tem sido uma constante em grades curriculares de cursos acadêmicos, tais como: Direito, Administração, Filosofia, Ciências Bio-lógicas e, principalmente, Letras. Contudo, muitos estudantes de nível superior não conseguem entender o motivo pelo qual essa disciplina é lecionada.
Cremos que um desses motivos seja a aquisição de uma melhor compre-ensão histórica da nossa língua vernácula e de sua evolução. Para isto, não podemos prescindir de estudar um pouco de filologia, que nos orienta com subsídios histórico-linguísticos. Asseveramos que a modalidade “vulgar” do latim é pouco estudada e, talvez por isso, considerada desimportante por uns menos esclarecidos. Também, dada a simplicidade com que certos autores opõem a modalidade vulgar à clássica, não é de se espantar que o estudo do latim privilegie o erudito em detrimento do popular.
Não satisfeitos com a discriminação linguística e histórica, sobretudo de classificação, do LV1, tomamo-lo para investigar a conceituação, a origem, os tipos de classificação e as perspectivas assinaladas por gramáticos, filólogos e linguístas - que pesquisam a história da língua latina e sua derivação portu-guesa; além de constatar sua derivação românica no Império, buscando, desse modo, dar-lhe uma conceituação mais honrosa e justa. Tal procedimento nos encaminhará à constatação de que o “vulgar” não é derivado do “clássico”.
Inicialmente, faz-se necessário compreendermos as definições referentes ao “latim” para chegarmos a uma melhor conceituação de seu entendimento.
Em seguida, veremos como se classificam e se definem o Latim Clássico (LC) e o Latim Vulgar (LV), contributos que nos servirão de alicerce para a pesquisa, iniciando o estudo histórico-linguístico.
Grande parte dos dicionários escolares tais como os minidicionários An-tonio Olinto (2001) e Soares Amora (2009) e o dicionário Escolar da Língua Portuguesa (1976)2 definem, de forma simplória, o termo “latim” como sendo uma língua que era falada pelo povo, pela massa, que habitava o pequeno
terri-1 LV refere-se ao Latim Vulgar.
2 Optamos por usar os dicionários escolares face aos acadêmicos por crermos que o que vale nesse momento é o fato destes serem a documentação, quiçá mais importante, que possuímos no léxico da língua portuguesa comprovando, desse modo, que o latim (termo encontrado em qualquer dicionário da língua portuguesa) é sim importante ao estudo de nossa língua vernácula. Também, por considerarmos que a vivacidade da língua faz com que as palavras não morram. Elas podem até entrar em desuso, mas continuam guardadas ou em um processo de constante modificação, fatos que fazem com que elas existam, como aconteceu com a língua latina.
tório denominado Lácio (Latium), na Península Itálica. Partindo dessa definição, podemos dar continuidade ao procedimento do objetivo deste trabalho, vendo a história do latim como ponto de ancoragem e o fato de que não se trata de uma língua primária, porém, de uma derivação de outras línguas que lhe precederam.
É interessante, também, vermos que o latim teve sua evolução com etapas bem demarcadas quanto ao uso do sistema linguístico, mas com interseções históricas de coexistência de povos e abrandamentos de aspectos e que, em suas etapas subsequentes, originou as línguas românicas, que consideramos ser o latim transformado através do tempo e do espaço.
Com efeito, o latim não é documentalmente oriundo da língua indoeu-ropeia, pois a mesma não existia como língua, senão como um conjunto de línguas originárias e hipotéticas, das quais não se encontram atualmente nenhum registro escrito. Aceita-se, pois, como hipótese a ideia generalista de um sistema de correspondências entre línguas de um tronco comum, o que nos faz refletir sobre uma possível existência de um nascedouro linguístico a que chamamos de indoeuropeu. Faria afirma que:
O latim pertence à grande família das línguas indo-européias, como numerosas outras línguas da Europa e da Ásia, entre as quais mencionaremos o grego, o sânscrito, o hitita, etc. Cumpre, porém, desde logo, notar que esta língua polida, manejada com maestria pelos vigorosos escritores da época áurea da literatura latina, não saiu já assim burilada do primitivo indo-europeu. Fruto sazonado de uma prolongada elaboração, representa êsse momento o seu maior esplendor, que no decurso de sua alongada história fora precedido de vários estágios perfeita-mente demarcados. Seguir-se-iam a ele também outros estágios subseqüentes, que iriam culminar na formação das línguas românicas, que nada mais são do que o próprio latim transformado através do tempo e do espaço. (FARIA, 1958, pp. 5-6) Não obstante, o Latim não vai ligar-se subsequentemente ao indoeuro-peu, mas às unidades linguísticas que lhe precedem imediatamente ou ladeiam historicamente, como o ítalo-céltico e o itálico. Decerto, o Latim pertence à família linguística indoeuropeia, como ocorre com outras línguas da Ásia e da Europa, muito embora ele tenha sua origem no corpo linguístico de um latim primitivo, que deu sinais de existência escrita no século VI a.C., pois que não surgiu já forjado em sua modalidade clássica. Necessariamente, ele foi se transformando através do tempo e ao sabor do contato entre povos de falares diversos – como o úmbrio, o osco e o sabélico – pertencentes ao ramo itálico.
Dessa miscelânea linguística, sobrepujou-as o latim; dele, surgiram as línguas novilatinas. Assim, enuncia Farias:
(...) permanecido do indo-europeu nenhum documento escrito, nenhuma inscrição, devemos preliminarmente observar que o indo-europeu como idioma pròpriamente dito não existe. O que há é um sistema de correspondências entre as chamadas línguas indo-européias, correspondências essas que sugerem a pré-existência de uma unidade comum que se convencionou chamar de indo-europeu. Entretanto, como julgam notáveis lingüistas e filólogos que têm estudado o assunto, não vai o latim prender-se diretamente ao primitivo indo-europeu, mas dêle está separado por outras unidades lingüísticas subseqüentes como o ítalo-céltico e o itálico.
(FARIAS, 1958, pp. 5-6)
Assim, a Língua Latina tem em seu histórico o fato de ter sido amplamente usada por vários povos e por um dos maiores impérios já vistos, o Romano. É considerada uma língua do ramo itálico, originalmente falada no Lácio, região em que foi fundada a cidade de Roma. Foi difundida mais amplamente como língua na Europa através da expansão imperial, levada por soldados e comer-ciantes aos lugares mais distantes da Europa, à Ásia Menor e à costa do Norte da África, a antiga Mauritânia.
Atualmente, o Latim é comumente estudado, basicamente e/ou aprofun-dadamente, em alguns cursos universitários. O Latim é uma língua morta, mas não extinta, pois os conceitos linguísticos de “morto” e “extinto”, ainda que apresentem proximidade, não se confundem. O primeiro é característico àquelas línguas que não possuem uma comunidade linguística de falantes nativos de determinada língua materna, mas que há, pelo menos, registros devidamente documentados. O segundo termo, por sua vez, faz alusão àquelas línguas que não possuem comunidade linguística de falantes nativos de determinada língua materna e tampouco registros documentados.
Talvez por se tratar de língua morta, o Latim não desperte imediatamente entusiasmo para ser estudado, mas isso não é exclusivo da língua, porque o pensamento, a história e, grosso modo, toda tradição vem sendo cada vez mais substituída pelo interesse do novidadeiro. Nesse sentido, a tradição e a memória ocidental são vistas como “inúteis” ao utilitarismo da recompensa imediata.
No entanto, devemos estudar o Latim para podermos entender melhor o que ocorreu com a nossa língua vernácula.
O Latim pode ser classificado em várias categorias, por exemplo: clássico, vulgar, arcaico, imperial, cristão, tardio ou baixo-latim, escolástico, bárbaro
etc.3, sendo o “vulgar” e o “clássico” os dois mais conhecidos conceitos, quiçá por serem entendidos dicotomicamente. É importante termos em mente que não são conceitos distintos, senão duas vertentes da mesma língua.
Partindo desse binômio, vemos e não nos damos por satisfeitos com as considerações feitas em relação ao LV como, por exemplo: ser considerado uma derivação do clássico e falado apenas pelo povo e não pela elite, considerações que procuramos refutar.
No presente artigo, verificamos a origem do LV, suas nomenclaturas, suas perspectivas, suas constatações e derivações românicas, mais especificamente, no desenrolar do Império.
Para que estes pontos sejam abordados de maneira mais esclarecedora, redigimos dois capítulos, sendo o tópico principal do primeiro a decadência do império conhecido em nossa História como Império Romano; e do segundo, a noção marginalizada que muitos têm quanto ao LV.
De maneira mais específica, no capítulo introdutório, abordamos o con-ceito do léxico “decadência” através de um estudo histórico-lexical; pontuamos alguns fatos da História do Império Romano no tocante à sua vastidão e aos problemas que essa expansão territorial trouxe junto consigo.
Entrementes, uma breve explicação do que se compreende como “latim bárbaro”4; explicamos como se deu o gênesis das línguas neolatinas e, por fim, citamos o fenômeno do substrato linguístico no latim.
O segundo capítulo, por sua vez, trata das premissas da modalidade vulgar do latim, contextualizando-o com os dias atuais.
Para o desenvolvimento do mesmo, foi necessário que tivéssemos um conhecimento, mesmo que introdutório, de alguns aspectos de Filologia, o que nos proporcionou reafirmar que pouco se estuda o LV na Contemporaneidade.
Também, constatamos que o “vulgar” não é uma derivação bastarda do “clás-sico” como ainda se crê.
3 latim arcaico, aquele que se documenta desde cerca de 600 aC até cerca de 100 aC; latim imperial, aquele que foi escrito nos dois primeiros séculos da era cristã, já não clássico mas ainda de ótima qualidade, como o de Tácito, Sêneca, Plínio o Jovem, Juvenal e Quintiliano;
latim cristão, o empregado pelos escritores cristãos após o século II dC para anunciar ao povo não cristão a boa-nova de Cristo; latim tardio ou baixo-latim, o dos séc. III a VII, usado pelos monges, pautado na tradição gramatical do latim literário; latim escolástico, aquele que foi escrito pelo teólogos da Escolástica dos séc. XII e XIII; (FONSECA, 1985, pp. 31-49) 4 latim bárbaro, “conjunto de fórmulas latinas mais ou menos corretas, de mistura com vocábulos
de outras línguas [como a galaico-portuguesa] sob forma alatinada ou não, que foi legado à posteridade nos documentos notariais da Idade Média” (FURLAN, 2006, p. 33.)