CAPITULO I – LEVANTANDO AS PAREDES: UM POUCO DA
1.4. O desenho universal em contextos educacionais
A partir das discussões até aqui realizadas, pensar a inclusão escolar hoje, demanda de nós um esforço em reinventar os conceitos que nos remetem ao que compreendemos por escola e todas as nuances a eles associadas. O que é escola? Quem faz a escola? O que é currículo? Quem faz o currículo? O que é conhecimento? Como se elabora o conhecimento? Essas e outras questões são fomentadas quando entendemos ser necessário o repensar a escola em seus aspectos físicos, sociais, culturais e
pedagógicos de modo que esta possa atender, respeitando os princípios da igualdade e do respeito, a todos os que dele necessitam tendo em vista a sua formação cognitiva e cidadã.
Ao longo de sua história como locus da sistematização dos conhecimentos historicamente acumulados e construídos, a escola vem refletindo os padrões socioculturais, econômicos e políticos da sociedade na qual se encontra inserida. Assim, a educação inclusiva encontra barreiras construídas pelo estigma social e cultural inerente ao conceito de deficiência.
Entendemos, nesse sentido, que a deficiência é vista como limitações inatas, ou incapacidade, por parte de alguns sujeitos em realizar determinadas tarefas. Kranz (2015) nos traz a reflexão sobre a ideia de homem perfeito que norteia nossa sociedade, em especial, os estudos da arquitetura, presentes em Vitrúvio e Leonardo da Vince, que retomou os trabalhos de Vitrúvio.
Segundo a autora, Da Vince descreve o homem perfeito e dessa descrição demanda a organização espacial e estética para atender a esse ideal humano,
O homem vitruviano, paradigmático portanto na construção de ambientes, traz consigo uma concepção de homem normal baseada em medidas antropométricas ideais e cujas consequências estão presentes até os dias de hoje (KRANZ, 2015, p. 83).
Partindo do exposto, concordamos com Kranz (2015) quando esta nos diz que a ideia de homem padrão gerou barreiras historicamente construídas para pessoas com deficiência no que se refere a sua ambientação, locomoção e desenvolvimento, intelectual e físico.
Nesse sentido, surge a ideia de Desenho Universal que questiona a concepção de homem padrão e amplia a de acessibilidade customizada “(...) que revoluciona os processos inclusivos, uma vez que concebe o mundo como projetado a priori para as diferenças, que são parte constitutiva da humanidade” (KRANZ, 2015, p. 86-87).
Para a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (BRASIL, 2012, p. 34), “desenho universal significa a concepção de produtos, ambientes, programas e serviços a serem usados, na maior medida possível, por todas as pessoas, sem necessidade de adaptação ou projeto específico”. Colaborando com esse conceito, Pletsch; Souza; Orleans (s/d, p. 272) afirmam que esse conceito amplia a ideia de ajudas técnicas específicas, o desenho universal possibilita, em seu conceito, o “acesso e a
participação de todo as pessoas, independente de usas especificidades sensórias ou físicas, visando, assim, condições plenas à locomoção, comunicação, informação e ao conhecimento (IDEM, p. 272).
Segundo Bock, Gesse e Nuernberg (2018), o desenho universal foi idealizado
por Ronald Mace, arquiteto e diretor do Centro sobre o Desenho Universal no North
Carolina State University (NCSU), que introduziu o Desenho Universal (DU), em 1987,
na perspectiva de elaboração de produtos e de ambientes para que o maior número de pessoas pudesse fazer uso sem, necessariamente, ter que adaptar. Para os autores, no tocante à educação,
Comumente, percebe-se a ampliação dessa concepção nos produtos e nos ambientes de fato, mas, quando se trata da educação, é preciso dar uma atenção especial a outros desdobramentos do DU. Acesso universal é a meta principal de todos. No entanto, alguns princípios e algumas diretrizes enfocam na eliminação das barreiras no ambiente construído, outras focam nos ambientes e nos contextos de aprendizagem (BOCK; GESSE; NUERNBERG, 2018, p. 148).
Entendo que se faz necessária “uma discussão sobre as possibilidades de se construir um ensino que valorize as diferenças em um ambiente educacional que garanta a participação de todos os educandos na atividade de ensino e aprendizagem” (CAETANO, 2018, p. 73) Foi desenvolvido por Kranz (2015), enquanto princípio teórico e pedagógico, o Desenho Universal Pedagógico (DUP), a partir de pesquisas cujos objetivos foram “investigar e analisar as possibilidades pedagógicas e a importância dos jogos com regras, desenvolvidos, confeccionados e utilizados segundo os princípios do Desenho Universal” (KRANZ, 2015, p. 31).
Segundo Caetano (2018), Kranz investigou as possibilidades do DUP na confecção e aplicação de jogos. De acordo com o autor, Kranz (2015) acrescentou a palavra Pedagógico ao conceito de Desenho Universal intencionando a ampliação das ideias referentes ao ambiente escolar e sua oferta de “condições físicas de acesso e práticas pedagógicas que oportunizem a aprendizagem de todos os sujeitos que considerem o contexto histórico-cultural” (CAETANO, 2018, p. 64).
Para Kranz (2015), os elementos referentes às práticas pedagógicas que direcionam o desenvolvimento do DUP podem se resumir em,
Recursos pedagógicos acessíveis para todos, na maior extensão possível; Participação de todos os alunos na mesma atividade; Colaboração, interação e discussão envolvendo todos os alunos; Problematização e desafios com vistas ao desenvolvimento da criatividade e à aprendizagem; Linguagem oral e escrita
como mediadores fundamentais; Participação e intervenções do professor como o adulto experiente e responsável pela mediação pedagógica (KRANZ, 2015, p. 131).
Diante do exposto, o jogo desenvolvido na fase empírica desta pesquisa buscou assumir os princípios do Desenho Universal Pedagógico pensado por Kranz (2015) e todas as nuances a ele inerentes. A confecção de jogos ou qualquer material didático demanda planejamento, organização e recursos. Nesta pesquisa, nosso objetivo, ao elaborarmos o jogo, estava em pensar nos princípios de colaboração e mediação em uma perspectiva inclusiva, e que o jogo não deveria ser pensado apenas para os alunos com deficiência, mas para todos os envolvidos no processo educativo, valorizando a cooperação e trabalho em grupo.
CAPITULO II – O ENSINO DA MATEMÁTICA NUMA PERSPECTIVA