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CAPÍTULO III – MÉTODOS, INSTRUMENTOS E PROCEDIMENTOS DA

3.5 A primeira fase do estudo: sujeitos, métodos e procedimentos para recolha dos dados

3.5.1 O desenvolvimento das inserções na atividade formativa

No início do segundo semestre de 2017 iniciamos a pesquisa empírica com participação/mediação nos encontros promovidos na atividade de formação continuada. A metodologia de trabalho de campo foi se delineando com o decorrer dos encontros, à proporção que fomos conhecendo as características do grupo.

Conforme relatado no item anterior, no primeiro encontro foi aplicado um questionário para conhecimento dos professores, com ênfase em questões de identificação sobre os motivos

9 O coordenador pedagógico, a priori, não pertencia ao grupo de sujeito, pois, inicialmente, objetivávamos apenas

os professores. Contudo, em virtude da rede de relações estabelecida a campo, consideramos relevante a sua participação. Reforçamos, ainda, a conduta de que tanto os professores de EFI quanto o coordenador pedagógico atuaram como sujeitos da pesquisa, coparceiros da produção intelectual promovida nesta etapa do estudo.

para a escolha da profissão, as necessidades de formação percebidas e as aspirações profissionais. A análise sobre os motivos de escolha pela profissão de professor e a escolha pela atuação em Educação Física buscava informações sobre as diferentes razões e circunstâncias que influenciaram a escolha da docência como carreira.

A questão acerca dos sonhos para o futuro da profissão almejava revelar as expectativas profissionais, a fim de ajudar a conhecer o que os professores esperavam para os próximos anos de atuação na profissão. Com isso, relevaram-se as expectativas para os próximos anos de atuação na profissão, relacionadas a maiores investimentos em curso de formação continuada para suprir as necessidades de formação ou para refletir sobre as intenções de atuação e permanência (ou não) na profissão.

Os anseios de conhecimentos relativos à Educação Física, interesse de temas para estudo a partir das dificuldades encontradas no cotidiano do trabalho e as necessidades de formação percebidas foram, oriundas, por exemplo, das relações interpessoais professor-criança, dos conteúdos, da avaliação das práticas pedagógicas, etc.. A análise permitiu caracterizar os professores e ajustar os conteúdos e as atividades propostas para o desenho dos módulos seguintes da formação.

Todos os professores participaram com respostas ao questionário, o que possibilitou conhecer os seus processos de formação, as concepções em relação à profissão de professor de Educação Física e as dificuldades enfrentadas no dia a dia da escola e as expectativas para a área. Vale destacar que apenas um professor não participou de todas as ações desenvolvidas ao longo do semestre, pois no caráter de substituição, o referido professor foi contratado em outubro de 2017. Mesmo assim, se disponibilizou a responder o questionário aplicado no primeiro dia da formação, o que viabilizou a sua participação no estudo.

Para além de tratar dos conceitos envolvidos em cada tema, os encontros objetivaram a aproximação com a natureza dos seus contextos de vida pessoal e profissional. As discussões foram conduzidas de modo oportunizar conhecer os diferentes âmbitos de vida dos professores, no ambiente familiar, escolar, acadêmico, das atividades pedagógicas e das atividades físicas e de lazer. No início do primeiro módulo foi feito um levantamento das informações relacionadas à biografia de cada professor, composto por falar sobre diferentes áreas temáticas da vida e de profissão, aguçando o levantamento de informações referentes às experiências vividas. Neste momento, lançamos questões sobre o que e quem os professores brincavam quando criança, buscando resgatar as memórias da infância.

Outro levantamento correspondeu às principais recordações do período de escola (enquanto ex-aluno de Educação Física) e da graduação (enquanto estudante), das inter-relações

pessoais com os colegas de classe e com os professores. Em somatória, estiveram as questões sobre a participação em atividades físicas (esportivas e recreativas), dos episódios marcantes (lembranças positivas e negativas da vida escolar e universitária), refletindo se as experiências advindas da na Educação Básica e do ensino superior se manifestam em aprendizagens para atual condição docente.

Esta abordagem teve como objetivo suscitar reflexões introdutórias do conhecimento do sujeito da base de conhecimento para o ensino, encaminhando o contexto para discutir o problema de pesquisa. Na colocação de Marcon, Graça e Nascimento (2010), as concepções referentes à própria formação pessoal, social e intelectual das experiências como aluno auxilia o professor na compreensão das estruturantes da base de conhecimentos para o ensino. Consoante Marcelo García (1998), Tardif e Raymond (2000) e Lima e Reali (2002), conhecer diferentes esferas da vida do professor ajuda a compreender os elementos que o influenciam na estruturação da base de conhecimentos e, consequentemente, no processo de construção do conhecimento pedagógico do conteúdo.

As intervenções foram compreendidas como possibilidade de construção de relações dialógica entre professores e professores e entre eles e a pesquisadora e colaborada. Neste interim, Freire (1996) afirma que um sujeito (pesquisador) que escuta outros sujeitos (participantes) pratica o aprendizado da escuta verdadeira sobre o que o outro tem a dizer. Trata- se de não mais falar a alguém, mas sim colocar-se disponível para poder falar com alguém.

Esta postura semeia o que Oliveira (2009, p. 4) nomeia de processo de “convivência metodológica”, apontando a necessidade do convívio previsto na metodologia das pesquisas científicas em algumas áreas das Ciências Humanas. Para a autora, o termo não indica apenas um desejo ou uma opção pessoal do pesquisador, que ocorre paralelamente a pesquisa, mas representa o cerne do próprio fazer da pesquisa (OLIVEIRA, 2009). Neste viés, as intervenções possibilitaram a aproximação da pesquisadora com os professores e, consequentemente, aos seus contextos de trabalho, aproximando dos componentes da base de conhecimento para o ensino.

A partir das inserções sistemáticas foi possível estabelecer contato mais próximo com eles, o que possibilitou captar momentos de situações informais, permitindo também a obtenção de informações de modo casual, sem a utilização de meios diretivos, como roteiros e questões pré-estruturadas, conforme apontam Lakatos e Marconi (2010).

Juntamente com o levantamento destas informações, as ações direcionadas pelo primeiro módulo buscaram dialogar sobre as seguintes áreas: conhecimento sobre a criança e infâncias, linguagens, arte, expressão corporal infantil, movimento e articulação entre cuidar,

educar e brincar. Discutimos conceitos sobre a criança real, criança ideal e cultura da infância, com o apoio das obras “Diálogos com Reggio Emilia: escutar, investigar e aprender” (RINALDI, 2012), “Jogo e a Educação da Infância: muito prazer em aprender” (SOMMERHALDER; ALVES, 2011) e “Memórias Inventadas: as infâncias de Manoel de Barros” (BARROS, 2008), assim como nos conhecimentos dos professores sobre os temas em relevo. Como apoio metodológico utilizamos vídeos alusivos à temática, sobretudo para despertar questões frente ser professor de crianças, como exemplo, pela apreciação de um vídeo de Rubem Alves10.

O segundo módulo estabeleceu relações entre a Cultura Corporal de Movimento e os conteúdos de ensino, tomando como base a atuação prática dos professores e o debate crítico sobre o conceito de cultura corporal como especificidade da área. Para tanto, tomamos como ponto de partida o texto intitulado “O tempo e o lugar da didática na Educação Física” (CAPARROZ; BRACHT, 2007) e os conhecimentos dos professores sobre o assunto.

Em cada encontro deste módulo estabelecemos relação sobre como a Educação Física é tratada no cotidiano das escolas, para saber das interpretações da área pelo professor e sobre como acreditam que os alunos compreendem as aulas. Foram tratadas questões sobre como compreendiam a Educação Física quando eram alunos (se participavam das aulas, quais eram os principais conteúdos e as atividades realizadas, dentre as preferidas e as que o professor exigia etc.), das relações com os colegas de classe nas aulas de Educação Física e demais espaços e, atualmente, das relações com os colegas professores.

Para o terceiro, “A organização do ensino, didática, metodologia e dilemas estruturantes da EFI”, foram tomadas como base para as discussões os trechos de documentos nacionais que sustentam o tema em voga. A título de exemplo, os PCN (BRASIL, 1997, 1998), o item Movimento do RCNEI (BRASIL, 1998), as DCNEI (BRASIL, 2009a) e a BNCC (BRASIL, 2017), relevando discussões acerca da compreensão sobre os Campos de experiências na Educação Infantil e as competências específicas de ensino para o Ensino Fundamental 1 (proposição dos conteúdos).

Tal como empregado no primeiro módulo, somaram-se às nossas estratégias metodológicas nos módulos subsequentes, os vídeos explicativos para auxílio da compreensão

10 Vídeo: A Escola Ideal> o papel do professor. Link Para acesso:

https://www.youtube.com/watch?v=qjyNv42g2XU&t=314s

O vídeo disponibilizado no youtube no ano de 2011 apresenta a fala do psicanalista, educador, teólogo e escritor brasileiro Rubem Alves. O vídeo trata da postura ideal do professor, que se configura por despertar na criança o gosto e a curiosidade pela aprendizagem antes do início de uma prática educativa.

de como os normativos nacionais podem ser transpostas ao cotidiano escolar. Ao final dos encontros do módulo III solicitamos a construção de esquemas/esboços em papel sobre o que é diariamente realizado por cada professor em aulas de EFI.

No último módulo, acerca da estruturação da proposta curricular do município, buscamos aguçar a reflexão sobre viabilidade da tessitura de novas propostas para o currículo, com o objetivo de refletir e planejar as ações de ensino. Nestes encontros a participação do coordenador pedagógico foi assídua, disponibilizando, a posteriori, o plano de Educação Física para os anos iniciais do Ensino Fundamental vigente no município.

A atividade de finalização da formação, realizada no último encontro, ocorreu com a proposição da transcrição de ideias sobre os caminhos trilhados na profissão e nos últimos meses de participação na atividade, com base na questão inspiradora “Onde estava antes e onde

estou agora?”. A atividade consistiu em conhecer as interpretações dos professores sobre as

possíveis mudanças verificadas após a finalização do curso. Consistiu, ainda, no compartilhamento das principais aprendizagens consideradas por cada professor ao longo dos encontros, refletindo sobre as percepções acerca do curso como um todo e as expectativas/sugestões para ofertas futuras.

Vale destacar que além dos temas eleitos e das estratégias metodológicas utilizadas, alguns assuntos, tais como, processos de desenvolvimento e aprendizagem na infância, brincadeiras, brinquedos, jogos, movimentos expressivos das crianças, relação com corpo, planejamento de ações pedagógicas, atividades lúdicas e livres, frequentemente estiveram presentes nas falas dos professores. Do mesmo modo, enredos sobre o estatuto socioprofissional do professor, com ênfase no desprestígio social e financeiro que circunda a Educação Física, de alguma forma, estiveram presentes nas dicussões.

Juntamente com o desenvolvimento dos conteúdos apresentados nos quatro módulos, as intervenções objetivaram levantar dados para compreensão das quatro integrantes da base de conhecimentos, por meio do incentivo do diálogo pautado em referenciais científicos e na socialização dos conhecimentos e saberes entre os pares e com a pesquisadora.

As informações obtidas nos questionários e as características pessoais e profissionais dos professores reveladas na convivência metodológica com a pesquisadora, em diálogo à luz do referencial teórico consultado nesta pesquisa, culminou na identificação de elementos iniciais para a caracterização da prática pedagógica destes professores, a partir de relatos individuais da percepção sobre o quanto conhecem sobre os alunos, os conteúdos, o contexto em que trabalham e as condições atinentes ao pedagógico geral.

Em acordo com o processo previsto para as inserções na atividade de formação, definiram-se como estratégias de coleta de dados para as inserções as técnicas de observação qualitativas descritas em diários de campo, com observação sistemática dos encontros, somada a gravação e transcrição de relatos orais em momentos oportunos, perfazendo a escrita de todo o processo desenvolvido e observado, conforme esmiuçado no item a seguir.