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5. CONCEPÇÃO E PROCESSO PROJETUAL

5.1. O DESENVOLVIMENTO DO CONCEITO

Segundo Mahfuz (1995), o processo projetual realmente só se inicia quando o arquiteto dispõe das informações básicas do problema para, a partir de então, começar a interpretar e organizar estes dados em uma escala de prioridades definida pelo próprio arquiteto. Nesta fase nada objetiva, na qual a personalidade e a bagagem cultural do arquiteto possuem um papel muito importante, um fator subjetivo de suma importância entra em cena, e agindo como um catalizador, vai auxiliar na personalização e interpretação do programa: o todo conceitual do projeto. Esse projetar com imagens conceituais torna possível a passagem do pensamento pragmático para o criativo, e se concentra mais na síntese e menos na análise.

Para o arquiteto, é muito importante a escolha de um conceito, uma base ideológica a qual todos os outros elementos ficarão subordinados, delimitando as inúmeras possibilidades disponíveis e fazendo com que sejamos mais objetivos nas nossas escolhas a partir de então. Ainda segundo Mahfuz (1995), se o processo projetual é somente regido de forma tecnológica e normativa, o resultado estará fadado a ser um formalismo pragmático. E caso o processo projetual estivesse sendo desenvolvido livre de quaisquer restrições projetuais, como as características do terreno ou as leis e códigos vigentes, o resultado seria uma aberração formal desenfreada. Assim, quando um projeto se inicia com um conceito, este forma um princípio básico, em torno do qual o todo é organizado.

Assim, orientado pelas professoras responsáveis pela disciplina de atelier Integrado de Projeto II, foi desenvolvido um trabalho com o objetivo de conceituar o futuro projeto com uma ou mais palavras chaves. Nesta fase inicial do processo de projeto, a ideia mais presente era a hierarquização dos espaços segundo o seu grau de privacidade e a palavra-chave escolhida para sintetizar essa característica foi o núcleo atômico, em torno do qual partem diversas camadas concêntricas. Entretanto, durantes as discussões em sala de aula com os outros discentes e professores, foi percebido um excesso de pragmatismo na ideia inicial do núcleo atômico. Assim, a palavra-chave foi gerada em um brainstorm bastante informal e despretensioso, onde a palavra inicial foi evoluindo por meios mais poéticos e se chegou à palavra chave que me pareceu mais apropriada para representar a ideia central da minha proposta: uma colmeia.

Entre as muitas curiosidades da colmeia, a sua capacidade de termorregulação foi a que me chamou mais a atenção. De acordo com Domingo e Gonçalves (2014) o seu interior deve ser mantido entre 34 a 35 graus Celsius, temperatura ideal para o desenvolvimento das larvas. A variação na temperatura pode ser fatal para as larvas ou desencadear problemas de ordem física nas operárias; assim, as abelhas possuem mecanismos termorreguladores para não deixar isso acontecer. No inverno, para aumentar a temperatura no interior da colmeia, as abelhas se aglomeram em “cachos” e aumentando o seu metabolismo através de vibrações, elas conseguem produzir esse calor necessário. Enquanto que no verão, para diminuir a temperatura no interior da colmeia, as abelhas se distanciam das larvas e se aglomeram do lado de fora, movimentando suas asas para direcionar o vento para o interior da colmeia. Essa corrente de ar, além de resfriar o seu interior, auxilia na evaporação da umidade do néctar, transformando-o em mel.

As abelhas são insetos sociais por natureza e sua estrutura social hierarquizada é o segredo por trás de tamanha organização. Sob um olhar bastante utópico, independente de orientação política, pode-se imaginar uma cidade altamente organizada e funcional. Jürgen Tautz, em seu recente livro “The buzz about bees –

biology of a super organismo20”, fala que a colmeia é muito mais do que uma

sociedade perfeita; é um superorganismo vivo, onde cada abelha é responsável por

20 O fenômeno das abelhas é o título do livro em português, que foi publicado pela primeira vez

uma função e o conjunto de todas funções dá vida a um organismo vivo, chamado colmeia. A analogia entre a colmeia e o edifício de habitações compartilhadas vai poetizar a vida social dos estudantes e servir de inspiração para os muitos aspectos programáticos do futuro projeto.

De acordo com Lawson (2015), em geral, existem 03 fontes geradoras dessa ideia principal: o próprio programa em termos das restrições radicais, toda restrição externa também pode influenciar o arquiteto ou, então, os “princípios condutores” do próprio projetista, que podem estar relacionados à forma, estrutura ou funcionalidade. E são estas restrições que irão nortear a construção do volume, assim como a implantação no lote. Essas primeiras fases de projeto se caracterizam como uma análise pela síntese, onde o importante não são suas minúcias e detalhes, mas o todo, em busca de identificar os problemas mais significativos para o desenvolvimento da forma. Na fase seguinte, o projetista segue o seu faro com o conceito adotado e no decorrer do processo vai averiguando se a forma adotada atende às restrições e verifica também a existência de falhas. A menos que o projeto consiga atender a todas as restrições e condicionantes, essa fase do projeto se interrompe por duas razões: a forma adotada não consegue solucionar significativamente os problemas envolvidos ou a forma inicial é abandonada pela sua total inadequação. E assim uma nova ideia geradora será desenvolvida, aproveitando a experiência adquirida no processo, para solucionar o problema por um novo ângulo.

A criação de conceitos a partir dos aspectos mais importantes do problema ajuda a descobrir a natureza do objeto antes de lidar com a sua realidade física. Assim, pode-se dizer que o conceito é a fase embrionária do partido. Mahfuz (1995) esclarece que essa passagem do conceito para o partido não acontece de forma direta, pois existe um estágio intermediário, onde se desenvolve o todo conceitual. Desta forma, o partido nada mais é do que a organização planimétrica e volumétrica da concepção básica de um projeto, a sua essência, assim como a sua estrutura e a sua relação com o contexto. É a materialização através do repertório formal, compositivo e construtivo da arquitetura.