3 RECONHECIMENTO E REDISTRIBUIÇÃO: UM IDEAL DE JUSTIÇA DE
3.1 A CRIAÇÃO DOS JOGOS PARALÍMPICOS COMO PRIMEIRO PASSO RUMO À
3.1.1 O desenvolvimento do esporte paralímpico no Brasil
Como vimos, a passagem do esporte como ferramenta de reabilitação para elemento de ressocialização e resgate de identidade de pessoas com deficiência fez com que o esporte paralímpico nascesse para o mundo. No Brasil, o desenvolvimento do esporte só foi acelerado após a criação de instituições e organizações específicas de representação dos atletas com deficiência. Foram esses movimentos que passaram a encampar a luta por reconhecimento de uma categoria que até então não encontrava amparo no poder público. Essas instituições funcionam, até hoje, como organismos responsáveis pelo processo burocrático de organização dos eventos esportivos. Também representam os atletas no que diz respeito à padronização, fiscalização e organização de regras, de modo a instituir o esporte. Morgan (2002) também aponta que outra função dessas entidades é distribuir recursos – recebidos de fontes públicas ou privadas – a seus associados de forma a garantir a continuação do esporte.
De uma forma geral, as chamadas entidades de organização esportiva para pessoas com deficiência (IOSD) são classificadas como monoesportivas e poliesportivas. Essas últimas, segundo Marques (2010), funcionam como um órgão nacional de regulamentação do esporte, oferecendo treinamentos em várias modalidades para pessoas com deficiência. As monoesportivas, por sua vez, representam atletas com deficiências distintas que praticam a mesma modalidade esportiva. O autor delimita que o Movimento Paralímpico Brasileiro tem pelo menos três estágios importantes em sua história: o primeiro deles foi veio com a fundação dos clubes específicos para os atletas paralímpicos; o segundo é marcado pela criação das comissões e do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) e o terceiro pela instituição da Lei Agnelo Piva ou Lei de Incentivo ao Esporte, da qual falaremos melhor adiante.
Os registros mostram que o esporte paralímpico desembarcou no país em 1957, quando Robson Sampaio e Sérgio Del Grande fundaram o Clube do Otimismo, no Rio de Janeiro, e o Clube dos Paraplégicos, em São Paulo, após um período de reabilitação que passaram nos Estados Unidos (MIRANDA, 2011). Na época, os dois participaram da apresentação da equipe de basquete em cadeira de rodas “Pan Jets”, que inspirou, dois anos
depois, o primeiro jogo da modalidade disputado entre dois clubes no país (MARQUES, 2010). Em 1960, o Clube dos Paraplégicos de São Paulo fazia sua estreia no I Campeonato Mundial de Basquetebol em cadeira de rodas (ARAÚJO, 1998a).
Após várias excursões de clubes para dentro e fora do país, em 1975, ficou evidenciada a necessidade da criação de uma entidade que reunisse os atletas paralímpicos brasileiros. Segundo relata Miranda (2011), nos Jogos Parapan-Americanos daquele ano, no México, o Brasil levou duas delegações distintas para a disputa das competições no país. Tudo por falta de comunicação entre as entidades paralímpicas da época. Dessa forma, foi fundada, primeiramente, a Associação Nacional de Desporto de Excepcionais (ANDE) (CIDADE E FREITAS, 2002). O desenvolvimento do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), no entanto, só ocorre 20 anos depois, quando o Comitê Paralímpico Internacional pede aos países membros a criação de entidades nacionais para atuar na organização das competições locais:
Buscando atender essa solicitação cria-se no segundo semestre de 1994, nas dependências da Secretaria de Desportos do Ministério da Educação e Cultura – MEC, uma Comissão Provisória, da qual participavam os representantes da ABDC, ABDA, ANDE, ABRADECAR e CBDS para a elaboração de uma minuta estatutária visando a fundação do Comitê Paralímpico Brasileiro, fato que se concretiza no dia 09 de fevereiro de 1995 (...), em reunião realizada no Instituto Benjamim Constant, no Rio de Janeiro (MIRANDA, 2011, p. 34).
Hoje, a entidade que representa institucionalmente os atletas paralímpicos no país é o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), um dos objetos desta pesquisa. Essa representação se dá não só oficial e institucionalmetne – já que é por meio do CPB que as federações estaduais recebem as verbas federais –, mas, também, por meio do advocacy. Mafra (2014) explica que a noção deste conceito tem ganhado forma na democracia contemporânea, tanto porque representa determinadas práticas de grupos que lutam por causas sociais, quanto porque fala direto aos próprios grupos que atribuem a si mesmos a missão de advogar em favor de “sujeitos sem voz e vez nas arenas políticas formais, em condições de violação de direitos, de sofrimento moral e/ou de invisibilidade na cena pública” (MAFRA, 2014, p. 182). Miguel (2014, p. 213) também caminha nesse sentido ao definir os advocates como porta-vozes atribuídos por si mesmos como representantes de indivíduos ou grupos. O autor atenta, no entanto, para o fato de que as “formas de representação como advocacy, embora possam
trazer benefícios em curto prazo para integrantes de um ou outro grupo social, não estimulam o exercício dessas autonomias”.
Blauwet e Willick (2012, p. 852) afirmam que o Comitê Paralímpico Internacional (IPC) foi criado em 1989 justamente com o objetivo de se tornar uma voz coletiva de movimento advocacy que visava a apoiar o crescimento dos esportes paralímpicos no mundo. A partir da criação do IPC e da integração da entidade com o Comitê Olímpico Internacional (COI) é que medidas como a realização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos ficou estabelecida na mesma cidade-sede. A entidade oficial passou a ganhar o reforço de outros movimentos a partir do momento em que as modalidades do esporte paralímpico aumentaram e trouxeram consigo a valorização da prática esportiva como sendo fundamental para os ideais de inclusão, acesso à comunidade e igualdade de oportunidades.
Assim, podemos entender que, além de ser um representante institucional dos atletas paralímpicos no Brasil, o CPB trabalha no sentido de representá-los socialmente, como um advocate. Essa representação é, no entanto, também institucional – e permeada de interesses próprios. Como veremos, a entidade que representa os atletas paralímpicos no país parece não encorajá-los completamente em sua busca por paridade de participação, na medida em que não menciona, pelo menos nos limites do Twitter, qualquer dimensão da luta por redistribuição desses atores.
Na próxima seção, vamos expor importância histórica do CPB para a gênese da profissionalização do atleta paralímpico. No nosso entendimento, a evolução desse processo evolutivo de profissionalização é o ponto de partida que pavimenta o caminho da busca por paridade de participação dos atletas paralímpicos no ambiente esportivo.