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Pensamento que vem de fora e pensa que vem de dentro, pensamento que expectora o que no meu peito penso.

Pensamento a mil por hora, tormento a todo momento.

Por que é que eu penso agora sem o meu consentimento?

Arnaldo Antunes e Arnaldo Brandão (Pensamento)

Vigotski dedica-se a um profundo estudo sobre a relação entre o pensamento e a linguagem, especialmente em sua obra A construção do pensamento e da linguagem25. O autor entende que a relação entre pensamento e linguagem é o cerne da teoria da consciência, mostrando que tal relação tem origem e desenvolvimento calcados na atividade prática humana

As teses anteriores a Vigotski oscilavam entre dois extremos: por um lado, apontava-se para uma plena identificação e fusão do pensamento com a linguagem e por outro lado, para a plena separação e dissociação entre eles, que teriam apenas uma ligação mecânica externa. Para Vigotski, tanto uma como outra fecham o caminho para abordar a relação entre pensamento e linguagem, ao partirem de um método de análise equivocado: o da decomposição da totalidade psicológica em elementos. Ao buscar compreender a relação entre pensamento e linguagem, os adeptos desse método decompõem essa totalidade nos elementos pensamento e linguagem. Com isso, perdem-se as propriedades da totalidade, já que esta não é a simples soma de processos isolados. A analogia usada pelo autor soviético é a da análise química da água. Sua fórmula é H2O (dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio). É essa totalidade que guarda as propriedades explicativas do que seja água. Ao dividir essa totalidade em hidrogênio e oxigênio, perde-se suas propriedades inerentes como totalidade, já que, por exemplo, a propriedade da água de apagar o fogo não se explica ao verificar que o hidrogênio é autocombustível e o

25 Esse é o título da tradução para o português direto do russo pela Editora Martins Fontes publicada em 2001. O título original é Pensamento e Linguagem.

oxigênio conserva a combustão. O pesquisador não conseguiria explicar a relação entre eles. (VIGOTSKI, 2001a, p. 5-6)

Em contraposição, Vigotski propõe que o estudo seja feito através da decomposição da totalidade complexa em unidades de análise constituídas de partes vivas e indecomponíveis da unidade. Essa unidade mantém as propriedades do todo e é produto da própria análise. No caso da relação entre pensamento e linguagem, a unidade será o significado da palavra.

No entanto, para melhor compreender como o autor chega no significado como unidade de análise, é importante refazer a trajetória seguida pelo pensamento e pela linguagem no desenvolvimento humano.

No percurso da filogênese, percebe-se que o pensamento e a linguagem têm diferentes raízes genéticas e desenvolvem-se por linhas diferentes e independentes, estabelecendo uma relação não constante e desigual. Os clássicos estudos de Köhler com antropóides mostram que esses animais possuem um tipo de intelecto independente da linguagem, no emprego de instrumentos em sua atividade, e uma linguagem independente do intelecto, na expressão de estados emocionais e rudimentos de função social. É possível identificar uma fase pré-verbal no intelecto e uma fase pré-intelectual na fala. (VIGOTSKI, 2001a, p. 128).

Na ontogênese, percebem-se algumas semelhanças no início do desenvolvimento da criança, mas que a partir de sua inserção na cultura e nas relações sociais, tem o percurso de seu desenvolvimento alterado. Há também no desenvolvimento humano individual, diferentes raízes do pensamento e da fala. O emprego simples de instrumentos ocorre antes do desenvolvimento da linguagem.

Na fase pré-verbal do pensamento, a criança pequena possui uma inteligência prática que lhe permite fazer uso de instrumentos; na fase pré-intelectual da fala, a linguagem (gritos, balbucios, primeiras palavras) cumpre a função de descarga emocional e do início de um contato social.

Num determinado momento do desenvolvimento, as linhas do pensamento e da linguagem se cruzam e dão origem ao pensamento verbal e à linguagem intelectual. A partir daí, os processos constituem-se sobre novos patamares: em uma unidade, a linguagem passa a organizar o pensamento e o pensamento a planejar a linguagem. (VIGOTSKI, 2001a, p. 133).

Ao remontar a história da humanidade, constata-se que a linguagem surge da necessidade de comunicação no processo de trabalho. Não sendo possível a

comunicação direta entre duas consciências, os seres humanos desenvolvem mediações para a comunicação. Comunicação pressupõe generalização e desenvolvimento do significado da palavra, ou seja, a generalização se torna possível se há desenvolvimento da comunicação. Por exemplo, para comunicar que estou com frio, posso fazer gestos e movimentos expressivos, mas a verdadeira compreensão e comunicação se dá quando realizo um movimento de generalização e nomeio o que estou vivenciando. Assim, situo o frio sentido por mim, em uma classe de estados conhecidos pelo interlocutor e trago novas possibilidades para o desenvolvimento da consciência.

A linguagem26 é reconhecida pela psicologia sócio-histórica como uma das funções mais importantes no desenvolvimento cultural da criança. Ao apropriar-se da linguagem, a criança se insere em um nível de práticas sociais que lhe possibilita alçar-se a novas dimensões do desenvolvimento do gênero humano.

No desenvolvimento do bebê, a linguagem desenvolve-se baseada em algumas reações inatas No bebê, a reação vocal é o sintoma de uma reação emocional geral que expressa a existência ou a perturbação do equilíbrio da criança com o meio, ou seja, constitui-se como uma reação inata, um reflexo incondicionado.

Nos termos de Vigotski, é ainda uma linguagem pré-intelectual, ou uma linguagem em si.

Nas primeiras semanas, passa a cumprir a função não só de expressão emocional, mas de contato social, transformando-se em reflexos vocais condicionados. Já nas primeiras palavras do bebê se produz o maior drama do desenvolvimento humano: o choque entre o natural e o histórico-social. (VYGOTSKI, 2000b, p. 169-171; 305). Começa, então, a se constituir como linguagem para outros.

O desenvolvimento do pensamento e da linguagem no homem não é a simples continuação do desenvolvimento animal, mas ocorre uma mudança no tipo de desenvolvimento: do biológico para o histórico-social. Tal mudança, reafirmamos,

26 Ao investigar as raízes genéticas da linguagem, Vigotski refere-se a uma fase pré-intelectual da linguagem, presente tanto na filogênese quanto na ontogênese. Isso quer dizer que há certo tipo de linguagem não-intelectual, nos animais e nos bebês, que tem um desenvolvimento independente do pensamento. No chimpanzé e em outras espécies animais, por exemplo, “A linguagem não é só uma reação expressivo-emocional mas também um meio de contato psicológico com seus semelhantes.”

(VIGOTSKI, 2001a, p. 127). No entanto, quando falamos do papel central da linguagem para as funções psicológicas superiores, referimo-nos, assim como Vigotski, à linguagem em unidade com o pensamento, à linguagem intelectual, fruto do desenvolvimento histórico-social e que se desenvolve nos indivíduos por sua mediação com o meio social.

fundamenta-se no desenvolvimento do trabalho. Também as formas de pensar e falar são social e historicamente determinadas.

Se retomarmos a lei genética do desenvolvimento cultural, temos que as relações entre as funções psicológicas superiores foram anteriormente relações reais entre os homens. A função primária da linguagem é comunicar, ou seja, é originariamente social. No desenvolvimento da criança, a linguagem passa a ter duas funções: comunicativa e egocêntrica. Embora ambas tenham uma aparência social, são diferentemente dirigidas, uma vez que a fala comunicativa é dirigida ao outro e a fala egocêntrica é dirigida a si mesmo. A fala egocêntrica é considerada por Vigotski uma forma transitória entre a linguagem exterior e a interior, que faz a mediação do social para o individual. Caracteriza-se pela fase em que a criança fala em voz alta para orientar sua conduta, como se falasse consigo mesma.27 (VIGOTSKI, 2001a, p. 64-65) Através da fala egocêntrica a criança começa a apropriar-se de formas sociais de pensamento. O desenvolvimento do pensamento da criança depende de seu grau de domínio dos meios sociais de pensamento - a linguagem. (VIGOTSKI, 2001a, p. 149).

A manifestação da linguagem egocêntrica é como a da fala social, externa;

mas em termos funcionais e estruturais se distingue da social. Embora tenha semelhanças com a social – apresenta características de transição: ilusão de compreensão, aparente fragmentação, abreviação -, serve para orientar a própria atividade da criança. Percebe-se, por exemplo, que o coeficiente de linguagem egocêntrica aumenta muito com o aumento da dificuldade da atividade infantil. A linguagem egocêntrica prepara a passagem para outra forma de linguagem para si:

a linguagem interior. (VIGOTSKI, 2001a, p. 427-438)

A linguagem interior não é simplesmente fala menos som, mas surge com uma função específica e original, na unidade com o pensamento. Tem uma sintaxe específica, pois tende a abreviar, omitindo o sujeito da frase, que já lhe é conhecido, e mantendo o predicado. A linguagem internalizada dá origem ao pensamento verbal e passa a assumir para a criança outras funções, relacionadas ao pensamento, como a de generalização.

27 Piaget foi o primeiro pesquisador a identificar e nomear a fala egocêntrica. No entanto, o autor suíço pensa que a fala segue a trajetória da fala interior à fala egocêntrica, que se constituiria como expressão do egocentrismo infantil, que quando se extingue dá lugar à fala socializada ou exterior.

Vigotski inverte essa trajetória mostrando que a fala egocêntrica é uma linguagem para si, assim como a interior, mas ainda com aspectos da linguagem social. (VIGOTSKI, 2001a, p. 46; 57; 426;

431)

Enquanto a linguagem exterior é, em sua maioria, dialógica; a linguagem interior é monológica. A discussão, que ocorre socialmente, com duas ou mais pessoas, internaliza-se na forma de reflexão, que nada mais é que uma discussão interna ou uma discussão consigo mesmo. A relação entre pensamento e palavra é um movimento do pensamento à palavra e um movimento da palavra ao pensamento. (VIGOTSKI, 2001a).