CAPÍTULO 2 A MEDIAÇÃO INTRASSUBJETIVA E INTERSUBJETIVA EM VIGOTSKI
2.2 A mediação intersubjetiva e a aprendizagem escolar das crianças
2.2.2 O desenvolvimento dos conceitos científicos na criança
Do ponto de vista do pensamento, o cruzamento das duas curvas, da linguagem não intelectual e do pensamento pré-fala, corresponde à passagem do pensamento por "imagens sincréticas" ao "pensamento por complexos". Para Vigotski, o pensamento por complexos representaria, portanto, um 2º grande estágio do pensamento da criança e representaria a possibilidade de transição ao 3º grande estágio de desenvolvimento, correspondente ao do "pensamento por conceitos"41.
41 O esquema vigotskiano (VIGOTSKI, 1934/2009) de estágios e fases do desenvolvimento dos conceitos científicos na criança pode ser assim resumido:
1º estágio (pensamento sincrético): 1ª fase: período de provas e erros; 2ª fase: orientação conforme
vínculos subjetivos da percepção; 3ª fase: atribuição de um único significado para representantes de diferentes grupos de objetos.
2º estágio (pensamento por complexos): 1ª fase: tipo associativo, vinculação sempre concreta entre
objetos; 2ª fase: complexo-coleções; 3ª fase: combinação dinâmica e temporal de objetos; 4ª fase: o próprio traço, generalizações difusas entre os objetos; 5ª fase: pseudo-conceito, externamente um conceito e internamente um complexo.
3º estágio (pensamento por conceitos): 1ª fase: próxima ao pseudo-conceito, abstração de outros
traços dos objetos e atenção direcionada a um desses traços; 2ª fase: conceitos potenciais, grupo de objetos reunidos conforme um atributo comum; 3ª fase: conceito na verdadeira acepção do termo, generalização abstrata.
Ao pensamento por complexos corresponderia a formação dos conceitos espontâneos, advindos da experiência imediata do sujeito, através da internalização dos signos verbais socialmente dados. Ao pensamento por conceitos, por sua vez, corresponderiam a formação e desenvolvimento dos conceitos científicos, que são aqueles que tomariam por base não a realidade e a experiência imediata do sujeito, mas se baseariam nos pré-conceitos desenvolvidos até então, constituindo uma representação de segunda ordem, ou uma "generalização das generalizações"42, nas palavras de Vigotski (1934/2009, p.370). Assim, ele esclarece acerca de seu modelo lógico do desenvolvimento psicológico:
Para efeito de clareza, poderíamos conceber esquematicamente o caminho do desenvolvimento dos conceitos espontâneos e científicos da criança sob a forma de duas linhas de sentidos opostos, uma das quais se projetando de cima para baixo, atingindo um determinado nível no ponto em que a outra se aproxima ao fazer o movimento de baixo para cima. (VIGOTSKI, 1934/2009, p. 347).
Se o cruzamento das curvas do pensamento pré-fala e da linguagem pré- intelectual se deram em um ponto determinado, as linhas do conceito espontâneo e do conceito científico se vinculam em uma determinada zona de aproximação, ou já referida
zona de desenvolvimento proximal:
O vínculo entre o desenvolvimento dessas duas linhas diametralmente opostas [de desenvolvimento dos conceitos espontâneos e dos conceitos científicos] revela indiscutivelmente a sua verdadeira natureza: é o vínculo da zona de desenvolvimento imediato e do nível atual de desenvolvimento. (Idem, Ibidem, p. 350).
Deste modo, Vigotski relaciona os conceitos espontâneos aprendidos, muitas vezes, fora da escola e através da experiência da criança e dos processos de aprendizagem da fala, com seu nível de desenvolvimento atual, e relaciona-os com o desenvolvimento dos conceitos científicos a partir da aprendizagem escolar. Seria a aprendizagem escolar a que permitiria não apenas a apropriação de um conjunto de conteúdos novos e específicos das matérias escolares, mas a que impulsionaria o próprio desenvolvimento das estruturas de generalização da criança.
42 Davydov (1988) discute sobre o problema da concepção do conceito como generalização abstrata para a psicologia histórico-cultural, problematizando a perspectiva da lógica formal à ele subjacente.
Assim, enquanto a aprendizagem da fala seria o fator determinante ao cruzamento das curvas do desenvolvimento da linguagem e do pensamento, num primeiro momento da vida da criança, promovendo a passagem do pensamento sincrético ao pensamento por complexos, num segundo momento seria a aprendizagem da escrita (como "disciplina formal" central na escola) o ponto convergente da passagem do pensamento por complexos ao pensamento por conceitos.
Em ambos os casos, é a aprendizagem da linguagem (ora falada, ora escrita) que promoveria o desenvolvimento e o trânsito de uma forma de pensamento à outra (ora do sincrético ao por complexos, ora do pensamento por complexos ao por conceitos científicos). Vigotski assim destaca a importância da aprendizagem da escrita para o desenvolvimento das funções psicológicas superiores.
A aprendizagem escolar, em geral, e da escrita, em particular, seriam responsáveis por desencadear todo o processo de desenvolvimento dos conceitos científicos no estudante. O pensamento por conceitos é o que corresponderia, como já vimos, ao desenvolvimento maduro das estruturas psicológicas de generalização e à constituição de todo um sistema de conceitos - deixando o pensamento de ser "por complexos", nos quais os vínculos entre as representações dos objetos são predominantemente, segundo Vigotski, contextuais e de nível de generalidade inferior ao do pensamento "por conceitos".
Com o "pensamento por conceitos", é que, para Vigotski, se desencadearia o
automovimento real dos conceitos, que corresponderia ao momento em que os conceitos
passariam a mediar o desenvolvimento dos próprios conceitos. Neste sentido, o autor afirma que:
Os conceitos científicos - com sua relação inteiramente distinta com o objeto -, mediados por outros conceitos - com seu sistema hierárquico interior de inter-relações -, são o campo em que a tomada de consciência dos conceitos, ou melhor, a sua generalização e a sua apreensão parecem surgir antes de qualquer coisa. (Idem, Ibidem, p. 290)
Vigotski esclarece que esse automovimento dos conceitos se dá no interior de determinada estrutura de generalização e desenvolvimento alcançados e, portanto, não corresponderia à um autodesenvolvimento em geral dos conceitos, mas apenas ao movimento "latitudinal" de inter-relação entre os conceitos no interior de determinado
sistema conceitual ou de determinada estrutura da generalização (ou seja, no interior de determinada "longitude" variando-se apenas os pontos da latitude, na analogia que estabelece com essas convenções geográficas).
Tal inter-relação entre os conceitos de mesma relação de generalidade são possíveis, segundo Vigotski, devido à "Lei de equivalência dos conceitos". A este respeito, Vigotski salienta que esta surge apenas nas fases superiores de desenvolvimento dos conceitos e se define pelo fato de que "todo conceito pode ser designado por uma infinidade de meios por intermédio de outros conceitos." (VIGOTSKI, 1934/2009, p.364).
Para que a afirmação de que "todo conceito pode ser designado por uma
infinidade de meios" não corresponda, de modo tão direto, ao "reino da linguagem", ou em
um círculo hermenêutico onde os conceitos podem definir-se a si mesmos, Vigotski estabelece o limite: o desenvolvimento psicológico, isto é, o trânsito de uma estrutura de generalização à outra. Assim, a passagem à sistemas mais amplos de generalização conceitual, continuaria sempre dependente de novas aprendizagens. A relação entre as estruturas da generalização e o automovimento dos conceitos é assim exposta pelo autor:
Verificou-se que a nova estrutura da generalização, à qual a criança chega no processo de aprendizagem, cria a possibilidade para que os seus pensamentos passem a um plano novo e mais elevado de operações lógicas. Ao serem incorporados a essas operações de pensamento de tipo superior em comparação com o anterior, os velhos conceitos se modificam por si mesmos em sua estrutura. (VIGOTSKI, 1934/2009, p.375).
Assim, a tomada de consciência corresponderia, justamente, à generalização dos próprios processos psíquicos e seria o ponto máximo formal da possibilidade de controle arbitrário sobre o próprio pensamento e do processo consciente de reflexão conceitual. É quando a criança/adolescente, é capaz não só de apreender determinado conceito, como também, de vinculá-los arbitrariamente a outros, manejá-los:
(...) a formação de conceitos é um meio específico e original de pensamento, e o fator imediato que determina para o desenvolvimento desse novo modo de pensar (...) é o emprego funcional do signo ou da palavra como meio através do qual o adolescente subordina ao seu poder as suas próprias operações psicológicas (...) e lhes orienta a atividade no sentido de resolver os problemas que tem pela frente." (VIGOTSKI, 1934/2009, p. 169, grifos nossos).
Na citação acima, mais uma vez Vigotski enfatiza o papel da palavra, ou melhor de um novo emprego funcional da palavra, como mediador do desenvolvimento de um "novo modo de pensar". Assim, para Vigotski, a aprendizagem desse novo emprego da
palavra é a causa imediata do desenvolvimento psicológico da criança:
O novo emprego significativo da palavra, ou seja, o seu emprego como meio de formação de conceitos é a causa psicológica imediata da transformação intelectual que se realiza no limiar entre a infância e a adolescência. (Idem, Ibidem, p. 172).
A nosso ver, poderíamos sistematizar a ontogênese da linguagem e do pensamento, na teoria de Vigotski, da seguinte maneira:
1. O pensamento pré-fala e a fala pré-intelectual seriam dois fenômenos que, ao se cruzarem, o que corresponderia à aprendizagem da fala, expressariam um processo imediato, ou uma generalização de primeira ordem.
2. O pensamento por imagens sincréticas, produzido quando da fala inicial do sujeito, seria determinado pela comunicação verbal, pela experiência direta, imediata, do sujeito, e produziria os conceitos espontâneos.
3. O conceito espontâneo se desenvolve de baixo para cima (do particular ao geral), e o conceito científico de cima para baixo (do geral ao particular); o espaço de aproximação entre essas duas linhas opostas seria a zona de desenvolvimento proximal; o encontro dessas duas linhas é mediado pela aprendizagem escolar, particularmente pela aprendizagem da linguagem escrita (generalização de segunda ordem);
4. Tendo os conceitos espontâneos como base, a aprendizagem da escrita - a partir da nova estrutura da generalização e abstração que esta propicia -, mediaria a constituição dos conceitos científicos;
5. Apreendido determinado sistema de conceitos, os conceitos passariam a mediar-se a si mesmos, possibilitando assim seu automovimento real, desde que dentro de determinada estrutura da generalização.
Assim, podemos concluir, no que concerne nosso objeto de estudo, que para Vigotski: a) a aprendizagem escolar da escrita mediaria a passagem do pensamento por complexos ao pensamento por conceitos; b) quando o adolescente desenvolve o pensamento por conceitos, atuando arbitrariamente com o seu sistema conceitual, é a
linguagem interior, e não a exterior, que passa a ser determinante/predominante na mediação e no desenvolvimento do conceito pelo sujeito.
2.3 O desenvolvimento do pensamento mediado por instrumentos