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/ O desenvolvimento individual e profissional

No documento 20 anos em cena: Núcleo de Teatro da UFPel (páginas 51-54)

Sou formada em Música, mas a área que mais gosto de trabalhar é com o Teatro, na época que estudei não tinha o curso de Teatro que agora tem. Sempre gostei muito de trabalhar com teatro, sou professora do Estado do Paraná, trabalho com turmas do ensino Fundamental e Médio. Costumo sempre encaixar teatro em algum bimestre e o resultado é muito bom. Também trabalho em uma escola especial e lá só trabalho com o teatro. (Marciela Masken)

As marcas e reverberações deixadas pelo trabalho realizado junto ao Núcleo de Te- atro sempre ultrapassaram o de mero entretenimento ou da aquisição de uma satisfação momentânea. Nos seus anos iniciais, o programa foi a uma das formas mais aprofun- dadas do exercício da atividade teatral dentro da UFPel. Para pessoas como Marciela, foi oportunidade não apenas de um desenvolvimento pessoal, mas de abertura de novas possibilidades de desenvolvimento profissional, de acordo com suas tendências e desejos.

Como observa Viviane da Costa, “tudo que você faz contribui de alguma forma na vida da gente”. A grande diferença está na qualidade e na profundidade das experiências vividas. No caso dela, o trabalho no Núcleo possibilitou que se tornasse “uma pessoa mais espontânea”, que agora já consegue proferir uma palestra em público, “o que pra mim era uma dificuldade (...). O atuar me ajudou muito”. A experiência resultou em “um aprendi- zado para minha vida inteira”. Como ela, Carlos Prado também percebe a profundidade da transformação e a sua evolução no tempo que integrou o programa: “quando eu estava no Núcleo, eu sinto que evoluí muito mais enquanto profissional e como pessoa”.

A possibilidade de experimentar-se diante de um grupo de pessoas e de exercitar uma possibilidade de comunicação com o outro que transcende a racionalidade que nos é ordinariamente colocada como o caminho a ser seguido na nossa vida em sociedade, marca a passagem de quase todos os integrantes do Núcleo. Essa transcendência é sentida em momentos especiais, que marcam a trajetória pessoal do estudante-artista.

Diz Paula Luersen:

Lembro especialmente de uma noite que pareceu marcar o grupo como um todo, quando em meio a temporada, conseguimos um nível de concentração que final- mente nos levou a nos desligarmos das linhas de ação e alcançar uma sensação de liberdade criadora em cena.

Há estes momentos, que são representativos do significado da arte teatral, em que público e atores conseguem uma sintonia e uma comunhão que foge ao ordinário. Falando sobre as apresentações do monólogo “Borboletas”, Carlos Prado conta de uma apresentação que o marcou mais do que outras e Raíssa Bandeira se lembra da primeira vez que apresentou seu monólogo:

Carlos: Fui apresentar para um grupo de EJA, à noite, numa escola periférica. O espaço era uma sala de aula cheia de grades nas janelas, com classes antigas e sujas. A apresentação foi cheia de significado e com um público extremamente simpático e atento, que desejava tanto ver aquilo como eu desejava que vissem. Criamos, naquela apresentação, uma atmosfera diferente de todas as outras vezes que me apresentei. Acho que foi o momento mais marcante pra mim.

Raíssa: Mas a lembrança mais marcante é uma noite fria, o gosto de café amargo e pessoas entrando e se amontoando em uma sala pequena. A primeira vez que apresentei “Os Dragões não Conhecem o Paraíso”. Eu nunca havia apresentado nada sozinha, com tanto texto. Foi prazeroso ver pessoas olhando nos meus olhos enquanto eu contava a história do dragão que morava comigo, tinha gente ali que mostrava com os olhos estarem interessadas no que eu dizia a elas. Mesmo eu tendo dificuldade de ficar sempre concentrada, tive em vários momentos a sensação de estar ali presente, junco com eles.

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Há uma entrega e uma imersão nesta forma intensa de fazer teatro que deixa marcas duradouras. A imersão no trabalho também alterou a forma como os seus in- tegrantes percebiam e experimentavam a vida escolar. Para Paula Luersen, “o Núcleo abriu as portas para que eu vivesse a experiência na Universidade de forma mais intensa, pulsante, comprometida, transbordando para fora da própria Universidade de maneira mais rica que a outros projetos dos quais fiz parte”. Este comprometimento talvez resulte da autonomia que sempre foi incentivada pelos coordenadores do Núcleo, autonomia normalmente conseguida à custa de avanços e retrocessos, de idas e vindas, de um duro aprendizado do que seja “autogerir-se”.

A relação entre o que está na base de uma formação humanística, que centra seus aspectos nas relações de ética, de respeito ao outro e aos acordos intergrupais, de dedi- cação ao trabalho proposto pelo grupo, e a formação profissional, centrada nos aspec- tos técnicos da linguagem teatral e no desenvolvimento das competências individuais, sempre esteve presente no trabalho desenvolvido pelo Núcleo. Assim, Marciela Masken guarda, do período em que esteve no Núcleo, “os sentimentos de: respeito, organização, amor, dedicação, profissionalismo, competência, igualdade, harmonia, estudo....”

Em termos profissionais, quase todos os ex-integrantes do Núcleo apontam a experi- ência vivida como o “início”, daquilo que continuam a desenvolver hoje em dia, seja como professores, seja como pesquisadores, “fixando bases que foram essenciais” (Maurício Me- zzomo) para a visão que possuem do teatro hoje e possibilitando um desenvolvimento crítico e um crescimento pessoal e artístico enquanto artista-docente (Carlos Prado). Para Elias Pintanel “o que faço hoje é a partir das pesquisas e das práticas que eu realizei no Núcleo de Teatro”, ressaltando ainda que as experimentações cênicas e o trabalho realizado no Núcleo foram cruciais para a sua formação. Segundo Maurício Mezzomo:

Os caminhos que os atores e atrizes seguiram depois de terem trabalhado no Nú- cleo provam como um lugar de experimentação teatral, que tem como base a pesquisa em teatro, não é só um lugar de criação cênica, mas extremamente peda- gógico com reverberações que vão além de uma formação acadêmica e profissional.

No processo do fazer teatro, dentro de uma metodologia de trabalho que envolve tanto a pesquisa artística quanto o rigor ético e estético, o resultado que se espera não é apenas um aprimoramento das qualidades técnicas do discente-artista-pesquisador. A formação profissional e a formação enquanto ser humano encontram-se não só interligadas. São inseparáveis, pois o artista e o professor de teatro não apenas encontram-se inseridos dentro de um meio social e partem dele, da sua inserção na sociedade, para construir suas aulas e apresentações, seus trabalhos pedagógicos e artísticos; ao lidar com processos subjetivos, ao tratar de afetos e de relações pessoais, da maneira como as pessoas se expressam e se relacionam, tratam do ser humano como um todo, como pessoa que tem necessidades e

desejos, que aspira a construir uma vida e se inserir em um meio social, que aspira a desenvolver-se e transformar-se, afetando e sendo afetado por aqueles que o cercam.

Quando eu fiz parte do Núcleo queria me desnudar, me abrir e entrar até o máximo que podia dentro de mim. Para que ali, naquele lugar desconfortável, de pura vulnerabilidade, de outro tipo de precariedade, mais humana, para que ali pudesse me comunicar com o outro. Para dividirmos o que eu estava aprendendo e o que agia dentro de nosso trabalho, naquele espaço para mim sagrado. Sagrado no sentido de respeitado. E que este perdure. (Elias Pintanel)

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No documento 20 anos em cena: Núcleo de Teatro da UFPel (páginas 51-54)