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A CIDADE DO RECIFE

4.2 O DESENVOLVIMENTO URBANO E AS CENTRALIDADES

Em 1537, uma colônia de pescadores se instalou no nordeste do Brasil, em uma península constituída por uma estreita faixa de terras, com 7km de comprimento por 0,5km de largura, entre os rios Capibaribe, Beberibe e o Oceano Atlântico, ligada por um istmo a Olinda, em frente a um porto natural formado por arrecifes de corais, onde hoje existe o bairro do Recife (Almeida, 2001). Em pouco tempo, o povoado ganhou importância econômica em função das atividades portuárias desenvolvidas, principalmente com o transporte do açúcar produzido pelos engenhos instalados às margens dos rios supracitados, que chegava ao porto por via fluvial41. A localização destes engenhos teve influência decisiva na configuração espacial da cidade e representaram o embrião de alguns bairros, que assumiram os seus nomes de origem, como Casa Forte, Monteiro, Apipucos, Torre, Madalena, Jiquiá, Caxangá, etc. Durante a

41 A cultura de cana-de-açúcar, introduzida no Brasil no século XVI, teve seu primeiro surto no nordeste, e particularmente em Pernambuco, em função das vantagens oferecidas, na época, pelo comércio exterior do açúcar, aliadas às condições

invasão holandesa, entre os anos de 163042 e 1654, Recife se tornou sede da administração flamenga. Neste período, foi executado o primeiro plano urbanístico do pequeno aglomerado urbano, durante o governo de João Maurício de Nassau43, que construiu palácios, canais, fortes, diques, praças, mercados e pontes44,realizou aterros e pavimentou ruas, elevando o número de prédios de 130 para 300. Após a expulsão dos holandeses, a sede do governo voltou para Olinda e Recife passou por um período de estagnação45, que teve reflexo no seu desenvolvimento urbano. Somente em 1709 o povoado foi elevado à categoria de Vila, em 1823 assumiu a condição de cidade e desde 1827 é a capital de Pernambuco46. Em 1830, durante o governo de Francisco Rego Barros – o Conde da Boa Vista –, foram incrementadas as condições de infra-estrutura, construíram-se inúmeros edifícios públicos, o comércio expandiu-se para os bairros de São José e Santo Antônio e a cidade integrou-se ao setor rural através de rodovias e ferrovias. Mesmo assim, até 1844, as áreas povoadas limitavam-se aos bairros do Recife, Santo Amaro e São José e, em 1870, existia uma ocupação suburbana rarefeita, partindo do núcleo principal e com adensamento às margens das principais vias de acesso (Paiva, 1996).

Na segunda metade do século XIX, surge o mercado de terras, através do loteamento de antigas propriedades canavieiras (Melo, 1990). Foi iniciado o processo de expansão, de forma radial, partindo do Centro Principal em cinco direções: no sentido oeste, à margem esquerda do Rio Capibaribe, situaram-se os bairros das Graças, Aflitos, Casa Amarela, Casa Forte, Apipucos e Dois Irmãos; à margem direita, localizaram-se os bairros de Madalena, Iputinga, Torre, Caxangá e Várzea. Na direção noroeste, surgiram os bairros do Espinheiro, Encruzilhada, Água Fria e Beberibe, em função do curso do Rio Beberibe. A sudoeste, acompanhando os riachos Tejipió e Jiquiá, nasceram os bairros de Afogados, Areias e Tejipió. Ao norte, ficaram os bairros de Santo Amaro, Campo Grande, Tacaruna e Peixinhos e, por fim, ao sul, acompanhando a costa marítima, desenvolveram-se os bairros do Pina e Boa Viagem (Paiva,1996). Entre o final da primeira década do século XIX e o início do século

42 Nesta época já existiam 16 engenhos de cana-de-açúcar, ao longo da margens dos rios Capibaribe e Beberibe (Melo, 1990).

43 Conde alemão, a serviço do governo holandês, governou Pernambuco no período de 1637 a 1644. Seu grande espítiro administrativo e sensibilidade artístico-cultural, aliados à experiência militar, resultou no primeiro plano urbanístico em 1639, com a criação da cidade Maurícia, onde hoje existe o Bairro de Santo Antônio e, em seguida, expandiu o projeto para a Nova Maurícia, onde atualmente existe o bairro de São José (Almeida, 2001).

44 Construiu a primeira ponte do Brasil em 1643, que foi substituída pela atual ponte Maurício de Nassau.

45 A partir do final do século XVII, a região, que detinha o monopólio mundial de exportação do açúcar, foi marcada pela crise da economia açucareira (Paiva,1996).

XX, houve um aumento da população de quase 8 vezes, passando de 26.000 para 200.000 habitantes. Nessa época, o espaço urbano já se encontrava compactamente adensado nos bairros do Recife, Santo Antônio e São José e, em áreas menores e esparsas, nos bairros da Boa Vista e Santo Amaro, e nos núcleos suburbanos de Afogados, Monteiro e Caxangá (Melo,1990).

A população do Recife não parava de crescer. Em 1940 já atingia 348.000 habitantes. Esta forte expansão demográfica se deu em função do fluxo migratório, na sua maioria formado por famílias de baixo poder aquisitivo, que vinham atraídas pelas oportunidades oferecidas pela “cidade grande”. Tendo em vista a incipiente economia urbana do Recife, estas famílias não tinham condições de acesso a uma moradia digna e habitavam em mocambos, construídos em terras que invadiam, nos morros e nas margens dos rios e alagados. O Censo Demográfico de 1940 indica que 73% da população é considerada como pobre. Entre 1940 e 1960 a população aumentou para 797.000 habitantes, o que representou um incremento de mais de 100%. O elevado crescimento populacional veio acarretar a expansão do espaço urbano e produzir modificações substanciais na configuração da cidade. Continuavam os loteamentos dos antigos engenhos, as áreas sob as influências das principais vias de circulação foram se tornando mais largas, os nódulos periféricos foram se dilatando e se unindo aos bairros e subúrbios que, por sua vez, foram se unindo ao centro da cidade (Melo, 1990).

Após 1960, a elevada taxa migratória e a alocação de investimentos industriais47 nos municípios periféricos contribuíram para que o espaço urbano do Recife se estendesse gradativamente na direção dos mesmos, que juntos formaram a Região Metropolitana do Recife (RMR), composta, naquela época, por Recife, Jaboatão dos Guararapes, Olinda, Paulista, Moreno, Cabo de Santo Agostinho, Itamaracá, Igarassu e São Lourenço da Mata.

O fenômeno migratório se evidencia pelo aumento da participação da RMR em relação à população do Estado de Pernambuco, que passa de 25.80% em 1960, para 38% em 1980, como pode-se observar na figura 4.1.

Figura 4.1

População da RMR em relação à população de Pernambuco Anos : 1960, 1970 e 1980.

25,80%

31,60%

38%

1960 1970 1980

Fonte: IBGE - Censos demográficos

Na segunda metade dos anos 60 cresce a importância da indústria habitacional no Recife, tendo como causa principal a instituição do SFH, em 1964, com reflexos significativos nos hábitos e na configuração espacial da cidade. Na década 60 existia o mercado rentista, isto é, a produção da habitação com fins de locação, onde a maior parte dos domicílios eram alugados e a classe média tinha o hábito de residir em habitações unifamiliares. A partir da criação do SFH, a proporção de domicílios próprios supera os alugados e inicia-se o processo de verticalização da cidade. Em função da escassez de áreas disponíveis e da maximização do lucro pretendida pelos empresários da construção civil, as casas unifamiliares foram dando lugar a edifícios de apartamentos, onde os terrenos eram aproveitados, geralmente, com a sua taxa máxima de utilização48.

A indústria habitacional continua a se desenvolver durante as décadas de 80 e 90, com grande número de unidades construídas com recursos do SFH, sobretudo no bairro de Boa Viagem, pela maior demanda em função da proximidade da praia e também pelas vantagens oferecidas pela Lei de Uso e Ocupação do Solo da época, que facilitava a construção com coeficientes de utilização bastante atrativos. No início da década de 80, instalou-se, em Boa Viagem, o Shopping Center Recife, um dos maiores da América Latina, e muitos investimentos em infra-estrutura foram realizados no local, com recursos do projeto de CURA (Complementação Urbana de Recuperação Acelerada), tornando-se o bairro mais populoso da

48 Em determinada zonas, como por exemplo, Boa Viagem, o coeficiente de utilização permitia a construção de um edifício com área construída igual a quatro vezes a área do terreno.

cidade, com vida própria, representando um novo símbolo de centralidade para o Recife. Desta forma, pode-se resumir a seguinte dinâmica na centralidade do Recife: até o século XIX, havia um núcleo principal, correspondente ao “Bairro do Porto”, atual Bairro do Recife, que se expandiu em direção ao oeste; nos primórdios do século XX, o centro de negócios passa a englobar os bairros de Santo Antônio e São José; entre 1920 e 1950, o bairro de Santo Antônio se consolida como “Centro da Cidade”, passando a ser alvo de grandes reformas urbanas; no período de 70 a 90, destaca-se a expansão urbana no sentido sul e a definição de uma nova centralidade - o Bairro de Boa Viagem - com implantação do Shopping Center Recife (Santana, 1998).