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4.4 SURGIMENTO E DESENVOLVIMENTO DO CAMPO

4.4.2 O papel dos desfiles

4.4.2.1 O desfile como ritual

Em sua pesquisa, baseada, entre outros, em Claude Lévi-Strauss e Roland Barthes, Morelli (2006, p. 82) encara o ritual como “[...] uma manifestação simbólica onde a intenção é atribuir sentido ao desconhecido e incompreensível, misturar o tempo coletivo ao tempo individual e manifestar ações simbólicas”. Segundo a autora, todas as etapas de um ritual são compostas por elementos que ganham significado próprio naquele momento e a relação entre ritual e mito, para Morelli (2006, p. 83) é íntima, pois: “O ritual propõe um modelo, um hábito, um exemplo a ser seguido a partir do mito”.

No que tange especificamente aos desfiles, Morelli (2006, p. 91-92) afirma que:

São diversos os elementos percebidos no evento de moda que o caracterizam um ritual. Em primeiro lugar, os desfiles, de maneira geral, possuem mecanismos que são recorrentes em quase todos eles: a existência de um local específico que, na maioria das vezes, é composto por um local onde os espectadores são posicionados e

de onde podem visualizar uma passarela – espaço a ser percorrido pelos modelos para apresentar os trajes de uma coleção.

A apresentação de uma nova coleção desenvolvida pelo criador será tomada como referência para a formação da moda nos próximos meses, pois propõe um novo modelo de vestuário, um modelo de comportamento, de atitude e que pode descartar o modelo vigente. O desfile também pode acontecer com a finalidade de apresentar uma nova linha de uma empresa, o novo criador ou mesmo despertar a atenção da mídia para àquela marca. O fato é que, independente do objetivo do desfile, ele manterá as mesmas características.

A autora relaciona o desfile ao ritual de passagem, o qual permite perceber uma transformação, afirmando que o desfile pode ser dividido em três fases, bem como sugerem os autores: i) fase de separação, quando a coleção é preparada; ii) fase de margem ou liminaridade, caracterizada pelo momento do ritual, que é momento da transformação, e iii) fase de agregação, quando se consuma a passagem realizada através do ritual.

A fase de separação, segundo Morelli (2006, p. 92):

É o período onde é concebida a coleção, baseada nas pesquisas de mercado, de consumidor, de comportamento e também quando são buscadas as referências artísticas e tecnológicas que vão compôr a nova coleção. A nova coleção vai retratar a visão de mundo daquele estilista e propôr um novo modelo que pretende substituir o modelo anterior, sugerindo o novo, sem descaracterizar seu estilo, os elementos freqüentes do seu trabalho.

Já a fase de liminaridade, de acordo com as análises feitas pela autora, abrange especificamente a exposição desta nova coleção ao público:

Nesse período, os objetos que compõem o ritual, os gestos, as atitudes, o cenário, os espectadores ostentam uma linguagem própria. Estes elementos, no contexto do ritual, ganham novos sentidos. A composição desses elementos reunidos tem uma função ritual específica: despertar o desejo, manifestar ações simbólicas, representar a visão de mundo do criador e, ao mesmo tempo, misturar o tempo coletivo ao tempo individual (MORELLI, 2006, p. 93).

Por fim, a fase de agregação, conforme observa Morelli (2006, p. 97), “[...] caracteriza-se pela absorção das informações trazidas pelo desfile e a leitura desses novos modelos, dessas novas propostas pelo indivíduo e pela sociedade. Desta última etapa do ritual, leva-se a experiência e as mudanças trazidas pela passagem”.

Segundo a autora, a forma de apresentação das coleções acontece sempre de maneira similar, de modo que é possível destacar nos desfiles elementos que o caracterizam como ritual: existe um momento específico para que ele aconteça, bem como uma preparação para o acontecimento. Além disso, Morelli (2006, p. 95-96) destaca ainda a existência de uma ambientação específica para o acontecimento, o posicionamento de participantes e

espectadores, o tempo de duração e o formato da apresentação: “[...] em geral sobre uma passarela, com modelos indo e vindo, procurando encarnar um personagem proposto pelo estilista, para que a alma da coleção seja aflorada e compreendida pelos espectadores naquele momento, no intuito de buscar uma identificação”.

Além de um ritual, o desfile de moda pode ser considerado como uma forma de comunicação ao se considerar a comunicação conforme definida por Díaz Bordenave (2004, p. 39): “[...] interação social através de mensagens”, tendo como característica, segundo o autor, “contribuir para a modificação dos significados que as pessoas atribuem às coisas”, colaborando, desta forma “na transformação das crenças, dos valores e dos comportamentos” (DIAZ BORDENAVE, 2004, p.38). Castilho e Garcia (2006, p. 86-87, grifos das autoras) analisam o feito da comunicação que se realiza através dos desfiles:

Essas construções de significação [dos desfiles de moda] [...] são transplantadas para as mídias de massa com a repercussão do desfile na imprensa.

O consumidor passa a querer usar para poder ser, já que somente aderindo à proposta de elegância embutida neste look expandido receberá o reconhecimento social por ‘estar na moda’. Num planeta onde a única inequívoca certeza é a mudança, o evento retém num só tempo e espaço até o mais frágil desejo de porvir, convertendo-se num poderoso coadjuvante do consumo.

Sobre o desfile de moda como ferramenta para a construção desta imagem de marca que induz ao consumo pela atribuição de significados, De Carli (2002) observa a mesclagem de linguagens artísticas de que o evento se utiliza para transmitir sua mensagem, juntamente com a artificialização do local de acontecimento deste evento, através de recursos tecnológicos e conceituais que provocam apelos sensoriais dos mais variados tipos. Esta mescla de linguagens artísticas, unida aos múltiplos apelos sensoriais oferecidos, transformam o desfile num show onde o prazer dos sentidos é aflorado e sublimado no desfrute em comum. Garcia e Miranda consideram que, por sua atual característica de ferramenta publicitária, as grifes de moda utilizam-se do desfile como peça-chave não só para geração de estímulos à compra de seus produtos, mas também para criar uma aproximação entre as grifes, de um modo institucional, e o consumidor. Por consequência, a concepção dos desfiles, que as autoras chamam de shows, é elaborada pelos estilistas hoje com foco maior na exposição de ideias que de roupas propriamente ditas. De acordo com sua análise, esta vontade de mostrar mais ideias que roupas é resultado da entrada, entre outros, dos jornalistas e fotógrafos como convidados dessas apresentações exclusivas:

A entrada em cena desses intermediários entre o consumidor final e os looks apresentados no desfile tem séria consequência midiática, pois propiciou o surgimento de outros produtos de moda, como o registro fotográfico exibido pelas revistas ou a redação crítica impressa nos jornais diários, por exemplo, que engendram efeitos de sentidos diversos daqueles produzidos com ato (GARCIA; MIRANDA, 2005, p. 93).

A conexão entre os desfiles de moda, a mídia e o mercado pode ser elucidada a partir das observações de Palomino (2003). A autora destaca que, no tocante à imprensa, é no desfile que todo um processo se inicia, pois a partir dele serão concebidas as reportagens e editoriais referentes aos valores de cada temporada. Além disso, o destaque dado aos produtos nesses editoriais é muito importante para as marcas, já que é comum ver clientes chegarem às lojas procurando por peças específicas vistas em determinada revista. Desse modo, quanto maior o prestígio da publicação, maior será a influência e a importância do look apresentado e, consequentemente, maiores as chances de geração de vendas.

Hinerasky (2006) corrobora essa afirmação ao destacar a importância do mercado editorial e audiovisual para o campo da moda, através dos profissionais que concedem significados às coleções, aos estilistas e suas intenções e à moda como um todo, através das interpretações, seleção das pautas, fotografias e edição de imagens que realizam para a produção de programas ou matérias jornalísticas sobre o tema. Entende-se que tal concessão de significados se dá através da produção de moda, de modo que sua função é a de, por sugestão, instruir o público quanto ao que determinados objetos representam em determinado momento, auxiliando o indivíduo na construção de sua identidade a partir da moda. Do lado dos criadores e marcas de moda, a produção de moda atua visando a expressão de suas propostas e colaborando para sua diferenciação perante os demais. Assim, contextualiza-se e discute-se, a seguir, o papel da produção de moda, especificamente no que tange à elaboração das imagens dos desfiles.