CAPÍTULO 3 – A ILUSÃO DOS AMPUTADOS: ANAMORFOSE E UNHEIMLICH
3.1.2 O desnivelamento estrutural entre Moi e Je
(...) basta dois espelhos opostos para se criar um
labirinto (BORGES, 1980/ 2011, p. 112).
A equiparação entre as categorias sujeito e eu é um equívoco do qual, de antemão, precisamos estar prevenidos. Contudo, escapar dessa tendência aproximativa entre elas pode simplesmente ser a manutenção, pela via da oposição, de uma correspondência inicial no estabelecimento de uma mesma superfície. Portanto, apenas afirmar que o sujeito não é o eu não institui em si o desnivelamento fundamental entre o Je e o moi. Há naquilo que Lacan nomeou como a subversão do sujeito uma abertura de um outro lugar, uma outra zona, um outro nível onde funciona toda uma economia que escapa ao terreno imaginário do eu.
Freud descreveu o eu como uma projeção de superfície e o eu ideal resultante de uma série de identificações ao objeto. A identificação ao objeto foi bastante trabalhada como princípio do luto, pois, é por uma identificação ao objeto que o Eu pode esvair-se juntamente como o objeto perdido, tal como ocorre na melancolia, pela regressão do amor à identificação. “Regressão em que o a continua a ser, o que é, instrumento. Assim, temos como modelo do processo em jogo no luto uma passagem por esse investimento no objeto e, então, a separação do Eu, numa diferenciação entre ser e ter. “É com o que somos que podemos ter ou não (...)” (LACAN, p. 132).
Ao avançar em sua produção teórica, Freud percebe a dificuldade de equiparar a consciência com o eu. Persiste em seus estudos até poder formular o “insituável” da consciência. Reposiciona, então, os termos de sua teoria numa revolução coperniciana que, pela descentralização do eu, realoca seu modelo na dialética entre Sujeito e Eu. Por consequência, será à excentricidade do sujeito e não ao eixo da “aretê de sua espécie” ou “um
aretê individual” que a psicanálise dedicará seus estudos. Não estamos, portanto, nem no plano
dos filósofos, tampouco dos moralistas (LACAN, 1954-55/1985, p. 18-19).
A frase do poeta Rimbaud a que Lacan recorre na formulação de um axioma “Je est un
autre”, o [Eu] é um outro, transmite-nos justamente que há uma outra ordenação de planos e
que esta tem como consequência a extimidade do sujeito num outro eixo.
Uma imagem estudada pela óptica é utilizada por Lacan para situar o equívoco que estava presente, por exemplo, na psicologia do ego em que Hartmann, por acreditar na tendência que todos temos de que nós somos nós, criou uma “entificação” do indivíduo. Nessa perspectiva, ou como Lacan diz, nessa “loucura bastante comum” ignoramos a separação entre planos introduzida pela psicanálise entre Sujeito e Eu, (ibid). Quanto ao fenômeno óptico trata- se, então, da diplopia, onde temos a criação de duas imagens a partir de um único objeto ou, ainda, como no experimento que ao se colocar duas imagens muito próximas, elas são acopladas até tornarem-se, ilusoriamente, uma.
No modelo do “ego autônomo” o que vem estremecer, irromper e instaurar essa zaragata, neste ponto de uma suposta unidade do Eu, é a libido. Nessa constituição da imagem narcísica onde o Eu se reconhece como “Eu sou isso”, há uma ação psíquica que instaura pela via do narcisismo secundário um contorno imaginário. Freud traz em seu texto Além do
princípio do prazer, justamente o conceito que instaura o lugar do furo, da castração, trata-se
do conceito de pulsão de morte. Conceito que instaurou “uma fissura, uma perturbação na relação vital” do homem (ibid, p. 56). Há aqui o resgate do dualismo onde podemos identificar
a “autonomia do simbólico” que permite uma formulação mais sofisticada acerca da função simbólica enquanto “presença na ausência e a ausência na presença”.
Podemos falar da ambiguidade do Eu que precisa ser considerado como função, mas também como símbolo: “O eu, função imaginária, só intervém na vida psíquica como símbolo”. Lacan propôs para estudar este descentramento do Eu uma leitura sobre seu “valor funcional” (p. 25) para o advento do Sujeito. Um Eu que, enquanto função imaginária intervém na vida psíquica como símbolo: “O Bororo diz [eu] sou um papagaio, nós dizemos [eu] sou um eu” (p. 59).
Partindo, então, da premissa de que “a realidade axial do sujeito não está no seu eu” é que buscamos situar o campo de intervenção psicanalítica. Diferente das neurociências que vêem na consciência o seu grande enigma e objeto, a psicanálise não se d/etém no que o Eu conhece de si, mas justamente sobre o que se desconhece. Aparentemente estamos nos deslocando para um paradoxo ilógico porque rigorosamente o lugar de encontro desse Sujeito não é outro senão o da fala. Seguimos advertidos de que a fala não é sem o Eu.
Daí a importância de sustentarmos esse paradoxo, pois supor um descentramento permite escutar o inconsciente em sua aparição na fala por seus lapsos, atos falhos, sonhos. A condição contingencial do sujeito que surge na hiância, no tropeço, no furo da linguagem situa o Eu na condição de objeto que preenche a função imaginária. Há na equivocidade da fala o encontro com a fala plena (LACAN, 1954/1998).
Lacan descreve o estádio do espelho como o modelo de “uma identificação por se referir à transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem” (1949/1989, p.97). Uma transformação produzida no sujeito que é derivada da constituição da imagem na qual o bebê, ainda muito precocemente, ainda aquém do chimpanzé no campo da inteligência, se antecipa e se fixa.
A assunção jubilatória de sua imagem especular por esse ser ainda mergulhado na impotência motora e na dependência da amamentação que é o filhote do homem nesse estágio de infans parecer-nos-á manifestar, numa situação exemplar, a matriz simbólica em que o [eu] se precipita numa forma primordial, antes de se objetivar na dialética da identificação com o outro e antes que a linguagem lhe restitua, no universal, sua função de sujeito (LACAN, 1966, p. 97).