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O destruidor que constrói: Bakunin e a Internacional

3. A SEMENTE LIBERTÁRIA

3.3 O destruidor que constrói: Bakunin e a Internacional

Diferente dos outros grandes nomes do anarquismo mundial – Godwin, Proudhon, Max Stirner, Piotr Kropotkin e Leon Tolstoi –, Mikhail Bakunin não é conhecido por seu legado escrito, mas por suas ações que agitaram toda Europa na segunda metade do século XIX e por sua oratória que conquistava adeptos por onde

passava. Mas a história de Bakunin no anarquismo não pode ser contata sem introduzir seu grande palco: a Associação Internacional dos Trabalhadores, conhecida simplesmente por Internacional.

A ideia de criar uma organização internacional de trabalhadores não era nova quando a Primeira Internacional foi fundada em Londres, em setembro de 1864, mas o crédito pela iniciativa que deu o primeiro resultado efetivo para tal sonho é atribuída por diversos autores (COSTA, 1996, p. 66; NETTLAU, 2008, p. 141; WOODCOCK, 2006, p. 9) para um grupo de artesões mutualistas proudhonianos que viajaram algumas vezes para a capital inglesa entre 1862 e 1864 e estabeleceram contatos com trade unionistas34 ingleses e outros refugiados europeus. As primeiras duas viagens dos mutualistas tiveram motivos diversos da organização internacional. Na primeira, em 1862, os mutualistas chegaram à capital inglesa em meio a um grupo de artesões franceses enviados com apoio de Napoleão III para a Mostra Internacional de Londres. Durante a estada na capital, os mutualistas estabeleceram os primeiros contatos com os sindicalistas ingleses e um grupo de alemães liderados por Karl Marx. Deste contato inicial surgiu o convite do Conselho de Comércio local para que três dos líderes franceses - Henry Tolain, Charles Limousin e Perrachon – regressarem à Londres, em julho do ano seguinte, para um encontro em prol da causa polonesa, oportunidade na qual foram discutidas as ideias da criação de uma organização internacional dos trabalhadores.

Tal proposta viria a tornar-se realidade em setembro de 1864, quando uma delegação francesa composta por três proudhonianos - Tolain, Limousin e. C. Fribourg – e um anarquista de outra corrente – Eugène Varlin – desembarcaram em Londres para uma reunião no St. Martin´s Hall com os sindicalistas ingleses e outros refugiados, entre os quais estava novamente Karl Marx. A ideia para a Associação Internacional dos Trabalhadores desenhada pelos mutualistas franceses era muito próxima do Banco do Povo criado por Proudhon quase duas décadas antes: “uma instituição pública, autônoma, incluída em Constituição, uma espécie de banco de crédito popular que instituiria o crédito gratuito concedendo aos produtores (individuais ou em grupo) adiantamentos de capital livre de interesses” (COSTA, 1996, p. 67). Crendo na família, na propriedade individual e no trabalhador como bases para uma mudança no sistema

34 Trade Union é a versão dos sindicatos originária da Inglaterra no século XIX. Sua organização não pressupõe, necessariamente, uma revolução social, mas busca negociar melhorias nas condições de vida e trabalho de seus associados.

vigente, os mutualistas esperavam, com apoio dos trade unionistas britânicos, que a Internacional tivesse como base os sindicatos operários e não partidos políticos.

Esta opção dos anarquistas pela ação econômica marca a cisão fundamental pela qual a corrente autoritária, na figura de Marx e seus discípulos, e os libertários nunca se conciliariam na Internacional até sua extinção em 1872. A cúpula da associação sediada em Londres manteve-se principalmente na mão de sindicalistas ingleses, Marx e seus seguidores, mas nos congressos os anarquistas franceses e belgas eram maioria, mesmo sem obter uma predominância. Desta forma, aponta Nettlau:

Nos congressos da Internacional, a elaboração das ideias foi das mais lentas, pois não se queria divulgar teorias que teriam podido desagradar uma parte importante da associação. Houve a tendência socialista autoritária do Conselho Geral, atenuada em consideração de seus aderentes ingleses; a tendência dos proudhonianos anticoletivistas de Paris, e a mutualista-coletivista de De Paepe, que se beneficiava da simpatia dos suíços de vanguarda (Jura etc.) e, pouco a pouco, daquela de uma parte dos delegados franceses. No que concerne às questões de liberdade e, inclusive, de antinacionalismo, Paris e Bruxelas estavam unidas contra Londres; em relação ao socialismo e ao coletivismo, Bruxelas e Londres estavam unidas contra Paris (NETTLAU, 2008, p. 150).

Foi neste palco criado por anarquistas, sindicalistas e autoritários de esquerda que o russo Mikhail Bakunin obteve seu maior sucesso e pode sair das sombras das barricadas e inúmeras insurreições fracassadas para um local de destaque na história do anarquismo. Diferente de Proudhon, Bakunin nasceu em uma família nobre na província de Tver, na Rússia, filho de um pai liberal e doutor em filosofia. Esses fatores permitiram ao jovem Bakunin uma educação completa, incluindo o aprendizado do francês, inglês, alemão e italiano, e uma carreira militar – abortada ainda na Escola de Artilharia de São Petersburgo usando uma doença falsa como desculpa.

O início da conversão de Bakunin em um revolucionário viria somente após deixar a Rússia rumo à Alemanha, onde conheceu a obra do filósofo hegeliano Arnold Ruge e o socialismo de Fourier e Proudhon. Foi também nessa época que Bakunin escreveu um de seus mais importantes ensaios, A reação na Alemanha, apresentando pela primeira vez a paixão pela destruição que marcaria sua vida como revolucionário e libertário ao concluir com a célebre frase: “Confiemos no eterno espírito que destrói e aniquila apenas porque é a inexplorada e eternamente criativa origem de toda a vida. A ânsia de destruir é também uma ânsia criativa” (Bakunin apud WOODCOCK, 2006, p. 168). Da Alemanha, Bakunin mudou para Paris, onde manteve contato com outros

revolucionários, tais quais Marx, Lelewel, George Sand, Pierre Leroux, Cabet, Lamennais e Proudhon, porém ainda distante do anarquismo, dedicando-se até 1863 a causa pan-eslava e polonesa.

Após uma nova e fracassada incursão pela libertação polonesa, Bakunin deixou Londres em 1863 rumo à Itália já desacreditado na causa pan-eslava. Instalado em Florença e com recomendações de Giuseppe Garibaldi, Bakunin torna-se centro de um movimento revolucionário, fundando sua primeira organização secreta com vistas ao internacionalismo. Essa primeira organização bakuninista daria forma a mais bem sucedida organização criada por Bakunin, a Confraria Internacional, fundada em Nápoles, em 1866, e que, segundo Woodcock (2006, p. 179), dariam origem ao movimento anarquista.

Outro grande passo de Bakunin foi a fundação da Aliança Internacional da Democracia Social, em 1868, que aprofundou as visões anarquistas do grupo liderado pelo militante russo, apresentando uma descentralização em grupos autônomos reunidos nacionalmente em um escritório internacional. A Aliança, que tinha como propostas centrais a extinção de governos nacionais e sua substituição por associações livres, visando a igualdade política, econômica e social, teve papel central na expansão do anarquismo pela Europa, com seções na Itália, França, Espanha e Portugal, além da Comissão Central, sediada em Genebra e foi dissolvida em 1869, para que suas seções pudessem integrar a Internacional.

Além do impacto de suas organizações, dentro da Internacional, Bakunin construiu sua imagem nos confrontos com a corrente autoritária da associação. Apesar da clássica divisão entre a ação política ou econômica e a manutenção ou não do Estado, a cisão entre a corrente bakuninista e autoritária veio de uma das proposições básicas da extinta Aliança: a herança. Bakunin defendia com veemência a extinção do direito à herança, enquanto Marx, por meio de seus porta-vozes, propunha o aumento de impostos sobre a herança, ao lado da socialização dos meios de produção. Bakunin obteve uma vitória numérica, mas como as abstenções contavam como votos contrários, sua proposta não entrou no programa da Internacional. A partir desse momento, aqueles dois líderes que lutavam, cada um à sua maneira, pela emancipação dos oprimidos disputaram de modo frenético o controle da Internacional, em uma briga que ia além do controle puro e simples da organização, mas era fundada em profundas diferenças ideológicas.

Marx era autoritário; Bakunin, liberal. Marx era centralista; Bakunin, federalista. Marx defendia a participação política dos operários e planejava conquistar o Estado; Bakunin se opunha à ação política e buscava destruir o Estado. Marx defendia o que agora chamamos de nacionalização dos meios de produção; Bakunin, o controle exercido pelo operariado. Na verdade, o conflito se concentrava - como tem ocorrido desde então entre anarquistas e marxistas - na questão do período de transição entre a ordem social vigente e futura. Os marxistas prestavam uma homenagem ao ideal anarquista ao concordarem que o objetivo principal do socialismo e do comunismo deve ser a extinção do Estado, mas afirmavam que durante o período de transição o Estado deveria ser mantido sob a forma de uma ditadura do proletariado. Bakunin, que tinha abandonado as ideias de uma ditadura revolucionária, exigia a extinção do Estado tão logo isso fosse possível, mesmo correndo o risco de um caos temporário, que considerava menos perigoso do que os males dos quais nenhuma forma de governo conseguiria evitar (WOODCOCK, 2006, p. 191). Essas diferenças foram levadas a cabo durante os anos finais da Internacional. Após a não realização do congresso da Internacional de 1870, o Conselho Geral convocou uma conferência especial em Londres no ano seguinte, excluindo os bakuninistas do Jura devido sua separação da Federação Romana. Na conferência, da qual também se ausentaram os italianos, foi aprovada uma série de resoluções contra Bakunin e seus discípulos. Contra estas resoluções, foi realizada no Jura uma conferência organizada pelos bakuninistas exigindo uma nova plenária da Internacional, o fim do centralismo da Internacional e a sua constituição como federação livre, proposta que obteve apoio dos italianos, espanhóis e belgas.

O Conselho Geral organizou prontamente o congresso, propondo sua realização na cidade de Haia, nos Países Baixos, o que dificultou a participação dos delegados latinos e de Bakunin. Mesmo assim, Marx não teve vida fácil, com oposição de bakuninistas espanhóis e suíços, além de libertários holandeses e belgas e sindicalistas ingleses. Ao fim do congresso, Marx conseguiu vitórias contra as propostas dos anarquistas, a expulsão de Bakunin e James Guillaume e na ideia de levar o Conselho Geral de Londres para a Nova Iorque, onde a Internacional encontraria seu melancólico fim anos depois.

Com a expulsão da Internacional, Bakunin voltou para a Itália e diminuiu sua participação no movimento anarquista internacional, que começava a andar sobre os ombros de novos líderes, até falecer em Berna, em 1876, sem antes tomar parte de uma nova tentativa fracassada de um levante em Bolonha, dois anos antes.

Apesar de não deixar obras célebres como presentes para as futuras gerações de anarquistas, o legado de Bakunin não pode ser desconsiderado dentro da história do anarquismo por suas ideias e ações. Os métodos de organização anarquista propostos por Bakunin, seja através da organização secreta ou da ideia de uma elite que lideraria o proletariado à revolução, formaram a base da ação anarquista, não só na Europa, mas também na América Latina, para onde migrou junto de seus mais variados discípulos. Sua proposta coletivista também manteve-se viva entre os anarquistas até o desenvolvimento de uma nova corrente que superaria a questão da retribuição pelo trabalho: o anarcocomunismo.