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O Deus da metafísica e a consistência do Um

3.1 O PODER NORMATIVO DO UM

3.1.2 O Deus da metafísica e a consistência do Um

A metafísica, desde o seu início, lançou mão da argumentação lógica como uma espécie de “máquina de guerra racionalista” para questionar o sentido dogmático sustentado em um Deus da religião:

Como a Metafísica disso testemunha desde as suas origens, há um sentido não vivo, um sentido literal, um sentido argumentado e, sem dúvida, um sentido matemático, sentido este que rompe em profundidade com a consignação religiosa do sentido à disposição do Deus vivo (BADIOU, 1999B, p. 18).

O pensamento filosófico vai à busca do fundamento questionando o “sentido literal” dos textos, na tentativa de encontrar os princípios primeiros. A ideia é que esses princípios se sustentam em um fundamento racional, que “rompe em profundidade com a consignação religiosa do sentido”. Ora, será que esse modo de pensar não termina por instituir um novo Deus, “infinitamente mais resistente”, um “Deus que só denomina um princípio e é assim, precisamente, inacessível à morte” (BADIOU, 1999B, p. 18)?

Tal é a crítica de Heidegger conforme Badiou lê no artigo “Projectos para a história do ser enquanto metafísico12”. O título é sugestivo: a metafísica contando uma história do Ser. A metafísica simplesmente institui um Deus da razão no lugar de um Deus da religião para buscar um sentido do Ser. Com Heidegger, é possível ler a história da filosofia pelo viés metafísico enquanto história do Ser: “sem dúvida devemos a Heidegger o ter reordenado a Filosofia na questão do ser” (BADIOU, 1999B, p. 27).

Esse reordenamento heideggeriano evidencia o imperativo racionalista como norma de conduta para pronunciar o discurso sobre o Ser. Um imperativo que fixa um lugar bem definido:

O caráter distintivo da Metafísica está decidido. O Um enquanto unidade unificadora torna-se normativo para a determinação ulterior do Ser (BADIOU, 1999B, p. 28).

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Segundo Alain Badiou, esse artigo é uma compilação de notas que se encontram “traduzidas no final do tomo II do Nietzsche” (BADIOU, 1999B, p.29).

Segundo essa tese, o que distingue a metafísica enquanto posição discursiva é que nela o Um ocupa função normativa para proferir o discurso ontológico. Assim pensado, o Um é infinitamente mais resistente e ganha consistência: “existe um Ser do Um como traço distintivo da metafísica no sentido de Heidegger” (BADIOU, 2013D, p. 48).

Alain Badiou interpreta essa formulação de Heidegger do modo que lhe interessa, dizendo: “podemos então definir a Metafísica assim: inspecção do ser pelo Uno” (BADIOU, 1999B, p. 28). Ou seja, o Um consistente é um modo de “inspecionar” o Ser com vistas a obter um saber sobre o Ser. Esse saber seria obtido através da definição: “a definição estabelece na própria língua o poder normativo do Um” (BADIOU, 1999B, p. 32).

Trata-se da ideia de que seria suficiente uma definição bem precisa dos conceitos. Vejamos nessa ótica como se compreende o conceito de justiça: “com freqüência desejamos que o conceito de Justiça aja como fundamento para a consistência da união social, quando ela apenas nomeia os momentos mais extremos de inconsistência” (HALLWARD, 2005, p. 14).

Portanto, a própria ideia de justiça fica vinculada à ideia de consistência quando, de fato, é uma ideia que está do lado da inconsistência. O método da definição de conceitos implica dizer que o Um detenha um saber do que é Justiça. A verdade do que é Justiça estaria sob o poder do Um:

Se pretendermos aceder à exposição múltipla do Ser pela via de uma definição, estaremos na verdade originariamente estabelecidos no poder metafísico do Uno (BADIOU, 1999B, p. 33).

Como consequência, as considerações sobre o Ser ficam limitadas àquilo que a língua pode definir. De modo que a filosofia fica limitada a operar no interior da linguagem para elaborar questões sobre o Ser. Badiou vai apontar o problema de pretender aceder à verdade pelo recurso à definição: “o risco metafísico [... é o de] chegar à conclusão que a verdade tenha um sentido” (BADIOU, 1999B, p. 16). Essa é a questão que mais incomoda Alain Badiou: inspecionar o Ser por meio de conceitos bem definidos no interior da linguagem para aí encontrar a verdade enquanto sentido.

Heidegger desenvolve a tese do poder normativo do Um para se opor a ela. A proposição de Heidegger é bem conhecida no meio filosófico: “a linguagem é a casa do Ser. Nesta habitação do Ser mora o homem” (HEIDEGGER, 2010, p. 08). Alain Badiou rejeita essa tese por considerar que ela coloca a linguagem no lugar privilegiado para proferir o discurso ontológico. Badiou nomeia a operação heideggeriana de “ontologia poética”:

Heidegger ainda continua submetido ao que considero ser justamente a essência da metafísica, ou seja, a figura do Ser como entrega e dom, como presença e abertura, e a da ontologia como proferição de um trajeto de proximidade. Chamarei poético esse tipo de ontologia (BADIOU, 1996, p. 17).

Em que sentido ontologia poética? No sentido de que a poesia toma os termos existentes da linguagem para uma “proferição de um trajeto de proximidade” com o Ser. A linguagem poética seria um modo de aproximar-se do Ser. Alain Badiou considera que, ao mesmo tempo em que Heidegger critica o Um como linguagem racionalista para discursar sobre o Ser, ele repõe no seu lugar outra modalidade de Um, o Um como linguagem poética. Um Deus dos poetas no lugar de um Deus da metafísica. Sai um Deus e entra outro Deus.

A teoria dos três deuses é desenvolvida por Alain Badiou no texto “Deus morreu” (BADIOU, 1999B, p. 11). O nosso objetivo na leitura desse texto teve o intuito de apresentar um modo de pensar o discurso sobre o Ser a partir do poder do Um sustentado num Deus transcendente. O conceito de Deus, qualquer que seja ele, é apenas uma maneira abstrata de especular sobre o Ser:

Deus, reduzido se posso dizer à sua abstração especulativa, é um ponto do

Ser em que o Um e o infinito vêm coincidir em um regime particular de

poder (BADIOU, 2013, [grifo nosso]).

A expressão “ponto de Ser”, que aqui aparece, é utilizada com frequência por Badiou, sem que seja definida. Trata-se do modo de acessar o Ser para proferir o seu discurso. No caso citado, esse “ponto de Ser” remete a uma totalidade que se garante por se situar em um lugar de exceção. O atributo maior dessa totalidade poderosa é que esse lugar de exceção situa-se no infinito. Desse lugar podem se pronunciar três deuses, segundo o interesse daquele que defende essa ideia: O Deus da religião, o Deus da metafísica, o Deus dos poetas. O que está em jogo aqui, basicamente, é a função desempenhada pelo infinito. Inacessível

cognitivamente, Deus foi, na verdade, apenas uma abstração que oferece consistência sólida ao Um para especular sobre o Ser: o fato de ser proferido a partir de um lugar ainda desconhecido pelo homem.