3 A MORAL KANTIANA
3.4 A BOA VONTADE E O DEVER
3.4.1 O dever como sentimento de respeito
Já que um ato moral não depende dos resultados que se busca ou que se alcança, Kant (1974, p. 208) define o dever como “a necessidade de uma ação por respeito à lei”, comentando a seguir que
Pelo objeto, como efeito da ação em vista, posso eu sentir em verdade inclinação, mas nunca respeito, exatamente porque é simplesmente um efeito e não a atividade de uma vontade. De igual modo, não posso ter respeito por qualquer inclinação em geral, seja ela minha ou de outro; posso quando muito, no primeiro caso, aprová-la, e, no segundo, por vezes amá-la mesmo, isto é, considerá-la como favorável ao meu próprio interesse. Só pode ser objeto de respeito e portanto mandamento aquilo que está ligado à minha vontade somente como princípio e nunca como efeito, não aquilo que serve à minha inclinação mas o que a domina ou que, pelo menos, a exclui do cálculo de escolha, quer dizer, a simples lei por si mesma. Ora, se uma ação realizada por dever deve eliminar totalmente a influência da inclinação e com ela todo o objeto da vontade, nada mais resta à vontade que a possa determinar do que a lei objetivamente, e, subjetivamente, o puro respeito por esta lei prática, e por conseguinte a máxima que manda
obedecer a essa lei, mesmo com prejuízo de todas as minhas inclinações (1974, p. 208-209).
Nessa passagem, o filósofo mostra que um motivo para a ação moral é o respeito, que está contido da noção de dever; o respeito pela lei faz a vontade agir, e é um produto da razão, espontâneo em nós. Mas não é o respeito o fundamento da moralidade: o respeito é o meio pelo qual a lei, em relação a seres de vontade imperfeita, determina o querer.
Agir moralmente não significa apenas estar de acordo com a lei moral, mas fazer dessa lei o fundamento que determina a vontade humana, caso contrário há o legalismo. Conforme Kant afirma na Crítica da Razão Prática, é na relação entre o querer do sujeito e o princípio do querer de uma lei prática que se fundamenta a moralidade:
Objetivamente, o conceito do dever exige, pois, na acção a conformidade com a lei, mas subjectivamente, na máxima desta mesma acção, o respeito pela lei enquanto modo único de determinação da vontade pela mesma. E aí se baseia a diferença entre a consciência de ter agido em conformidade com o dever (pflichtmassing) e por dever (aus Pflicht), isto é, a partir do respeito pela lei; o primeiro caso (a legalidade) é também possível, se as inclinações tivessem sido unicamente os princípios determinantes da vontade, mas o segundo (a moralidade), o valor moral, deve exclusivamente situar-se no facto de a acção ter lugar a partir do dever, isto é, somente por mor da lei (KANT, 1989, p. 97).
O respeito é um sentimento de autocoerção, pois coíbe nosso egoísmo (amor próprio). Humilhar nossas inclinações é o lado negativo da lei, que é necessária por não termos uma vontade perfeita. Mas o respeito é o lado positivo da consciência moral (1989, p. 90-91). O respeito, contudo, ultrapassa a humilhação, pois faz emergir a dignidade da pessoa (1974, p. 209). Assim, vemos que em Kant a moral não é uma espécie de terrorismo legal, pois tem a liberdade da vontade como elemento central: a autonomia do indivíduo o fará se inclinar para a boa vontade, ou vontade moral. Vemos ainda que o respeito se dirige a pessoas, por ver nelas a mesma dignidade que o sujeito vê em si mesmo (1989, p. 92).
O respeito pela lei, segundo Kant, não é algo natural. Dito de outra maneira, o homem não é naturalmente moral, não estando sua vontade sempre
de acordo com a razão. Mas o respeito pela lei surge pela consciência da lei moral, o que revela que a moralidade no ser humano é um fato, conforme afirma Kant (1989, p. 43)
À consciência desta lei fundamental pode chamar-se um facto (faktum) da razão, porque não se pode deduzi-la com subtileza de dados anteriores da razão, por exemplo, da consciência da liberdade (porque esta não nos é dada previamente), mas porque ela se nos impõe por si mesma como proposição sintética a priori que não está fundada e nenhuma intuição, nem pura, nem empírica; seria no entanto analítica, se pressupusesse a liberdade da vontade, mas, para isso, exigir-se-ia, enquanto conceito positivo, uma intuição intelectual que aqui não é permitido admitir. No entanto, importa observar, a fim de se considerar, sem falsa interpretação, essa lei como dada, que não é um facto empírico mas o facto único da razão pura, que assim se proclama como originariamente legisladora.
A partir da passagem acima, pode-se dizer que o fato de a razão pura não ser a lei, e sim a consciência do dever, que implica respeito pela lei. Isso significa que a razão pura pode ser prática, ou seja, pode determinar a vontade sem ter que recorrer a dados empíricos. Esse fato, efeito da razão pura, não é produto de uma intuição qualquer, ou de demonstração, mas provém da análise do julgamento que os homens fazem sobre o valor das ações. Mesmo que esteja sujeito à influência das inclinações (desejos), há no homem algo incorruptível, que é a razão. A partir daí Kant (1974, p. 209) propõe o seguinte problema: “Mas que lei pode ser então essa, cuja representação, mesmo sem tomar em consideração o efeito que dela se espera, tem de determinar a vontade para que esta se possa chamar de boa absolutamente e sem restrição?”
Nessa questão, algumas idéias fundamentais de Kant emergem: a ação moral não tem seu valor no objetivo que deseja alcançar, e que a obediência à lei independe do conteúdo desta. Um ponto central do pensamento moral kantiano aparece na seguinte passagem da Fundamentação da Metafísica dos Costumes (KANT, 1974, p. 209):
Uma vez que despojei a vontade de todos os estímulos que lhe poderiam advir da obediência a qualquer lei, nada mais resta do que a conformidade a uma lei universal das ações em geral que possa servir de único princípio à vontade, isto é: devo proceder
sempre de maneira que eu possa querer também que a minha máxima se torne uma lei universal.
A passagem mostra que o princípio que deve orientar a vontade precisa ser universal. O bem moral é a lei, formal, a priori, sem nenhuma relação com algo exterior que condicione a vontade. A simples conformidade à lei constitui o princípio da boa vontade. A lei deve determinar de forma imediata a vontade (aqui se faz presente o formalismo moral kantiano). Essa lei, nós a impomos a nós mesmos, e surge aqui a idéia de liberdade, que é fundamental no pensamento kantiano.
O formalismo kantiano é uma exigência da autonomia da vontade, que decorre de uma moral a priori, portanto necessária e válida universalmente.
Essa lei moral é universal, conforme exemplo apresentado por Kant: mesmo que mentir pareça a solução mais indicada quando se está em dificuldades, isso não é prudente. Essa prudência aconselha a não mentir, uma vez que isso acarretaria conseqüências desfavoráveis ao indivíduo. Para saber se a mentira é ou não contrária ao dever, Kant diz para se perguntar o seguinte: “Ficaria eu satisfeito de ver a minha máxima (de me tirar de apuros por meio de uma promessa não verdadeira) tomar o valor de lei universal (tanto para mim como para os outros)?” (1974, p. 210). Diante disso, fica claro que não se deve universalizar a mentira, pois isso liquidaria a confiança. O mentiroso perceberia que sua máxima (mentir) valeria apenas para aquela ação particular (não universal) na qual estava em apuros. A mentira, assim, não poderia jamais se tornar uma lei universal, dada pela razão. Assim, vemos que a razão apresenta critério para distinguir se uma ação é ou não moral. Esse princípio, Kant compara a uma bússola, que está diante da razão, sabendo claramente o que está de acordo com o dever ou é contrário a ele.
Concluindo, pode-se dizer resumidamente do que foi dito até aqui: a moral kantiana é uma moral formal, que se baseia em uma vontade pura que, como razão prática, age em conformidade com leis que ela dá a si mesma, sem influência do exterior, independente do contexto no qual se encontra. Só é universalmente válida uma moral formal, fundamentada na razão pura. O dever, que contém a noção de uma boa vontade, faz-nos constatar que uma ação é moral quando é feita por dever, sendo que a intenção (querer) deve ser
o que a determina, e não um fim almejado pela ação. O dever é, ainda, a necessidade de agir por respeito à lei, sendo este respeito um sentimento moral, sentimento que não é sensível (empírico), mas conseqüência da consciência moral em nós, que implica liberdade. Revela-se aqui o fato moral;
resta agora saber o critério da moralidade.