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O dever e a modalidade sob a perspectiva da análise do discurso

CAPÍTULO 2 O Dever do Homem dos Ratos e as suas Modalidade

2.2 O dever e a modalidade sob a perspectiva da análise do discurso

Sob a perspectiva semiótica da análise do discurso encontramos na análise actancial a ideia de modalidade como conceito central. Nesse âmbito, modalidade diz respeito a “um predicado que atua sobre um outro predicado” (p.170) de maneira a modificá-lo. Em semiótica, os predicados modais possuem um número fixo sendo designados pelos verbos modais querer, dever, poder, saber e crer. Dessa forma, os predicados modais atuam sob outros predicados em uma lógica de controle, na qual a modalidade define a ação ou o estado expresso pela situação de enunciação.

Segundo Fontanille (2007, p.171), “para apreciar a natureza particular desses predicados modais, pode-se confrontá-los aos predicados que eles modificam”. Nessa perspectiva temos um predicado caracterizado pelo verbo modal e um outro modificado, ou modalizado por esse verbo. Então, em uma frase como a expressa pelo Capitão Nemeczek: “você lhe deve reembolsar”, a modalidade está se referindo ao actante 'você' (Ernst Lanzer) e ao actante 'lhe' (Tenente David), da mesma forma que modifica o estatuto de reembolsar.

A partir da perspectiva proporcionada por essa ferramenta de análise podemos constatar um sentido implícito na frase que diz respeito ao fato de termos dois sujeitos implicados em um fazer (reembolsar), mas que é modificado por uma noção de dever inerente ao primeiro sujeito. Este sujeito (Ernst Lanzer) é quem tem o “controle” da significação do dever. Ou seja, a categoria dever está implicada agora diretamente no sujeito da enunciação modulando o sentido do predicado seguinte e sendo também “modulada” pelo sujeito. Logo, quem define a divida é Lanzer e não o Tenente David, suposto credor, ou mesmo o Capitão Nemeczek que proferira a “ordem”.

Em semiótica do discurso já foi mencionado aqui como a noção de modalidade pode nos ser útil no estudo do dever, ou seja, na análise do discurso a ideia de modalidade é central para entender a situação de enunciação a medida que diz respeito a um predicado modal que modifica outros predicados dando identidade a um actante (sujeito). Para Fontanille (2007, p. 177), o aspecto modal do discurso tem “uma dimensão completa capaz de assegurar sozinha todo um ramo da significação tanto de discurso enunciado quanto do discurso em ato”. Dessa maneira, em um sentido antropológico (Fontanille & Greimas, 1993, p. 55), a noção de modalidade nos habilita a desvendar os meandros da produção de sentido. Antropológico, na medida em que não diz respeito a psique, a um Eu dividido e idiossincrático, mas de um indivíduo relativo à questões inerentes a um imaginário virtualizado e partilhado por muitos.

A modalidade exerce uma lógica de controle, tal qual a analidade, e essa intersecção podemos observar no uso linguístico do dever, bem como na relação de Ernst com suas vivências obsessivas exemplificadas pelo “Grande medo coercivo”. Nesse sentido, a partir da análise do discurso podemos constatar a importância do dever no sintoma obsessivo de Ernst Lanzer, mas avançar a análise para a noção específica do dever que ele possui e de que forma ele se relaciona com aspectos pulsionais, tais qual os

relacionados a fase anal-sádica, é uma empreitada que só poderemos ter um sucesso limitado, apoiado nas anotações clínicas de Freud e nas construções da teoria psicanalítica deixada por ele.

Para isso a ideia de pulsão é central. Conceito limite entre somático e orgânico (Freud, 1915, ESPI, vol. I, p. 148), nas palavras de Freud, se configura também em um conceito limite para entender a dinâmica do aparelho psíquico, seja a partir da primeira tópica com inconsciente, pré-consciente e consciente, seja na segunda com Id, Eu e Supereu. Isso porque, é a partir da ideia de pulsão que podemos circunscrever em psicanálise questões relativas a motivações e história de um sujeito. As pulsões são essenciais na estruturação do aparelho psíquico e o registro que ocorre neste é um registro pulsional. Supõe também uma descarga que tem intensidade e a partir de um objeto chega ao seu destino. Só é possível falar em motivação inconsciente a partir de uma perspectiva pulsional. Nesse sentido, podemos falar que a pulsão diz respeito tanto à historia, tanto à motivação do sujeito funcionando de maneira imbrincada.

Freud em o “Esboço de Psicanálise” situa a linguagem no pré-consciente (Freud, 1938, ESB, vol. XXIII, p. 176), o mesmo ocorre nos seus artigos metapsicológicos, como por exemplo, “O Inconsciente” (Freud, 1915, ESPI, vol II, p.49). Em “O recalque”, situa as moções pulsionais submetidas ao recalque no inconsciente que, a partir de um processo de deslocamento conseguem escapar da censura inconsciente e chegar à consciência (Freud, 1915, ESPI, vol I, p. 181). Lembramos que essa consciência é a qualidade e não exatamente o consciente tópico. Essa conclusão não se oporia a objeções a uma suposta fluidez entre consciente e inconsciente. Na verdade, temos a instância pré-consciente como intermediária e é justamente nela que a linguagem é situada por Freud. Nesse modelo, conteúdos inconscientes deslocados passam pela censura chegando ao pré- consciente, onde a partir da ordenação por linguagem são percebidos pela consciência. Duas conclusões são importantes a serem tiradas: a primeira é que a pulsão permeia todo o processo de troca que vem do inconsciente, passando pelo pré-consciente até chegar na consciência; e a segunda é que é a partir da linguagem que esse conteúdo pulsional, antes inconsciente, é ordenado e percebido pelo consciente de maneira censurada duplamente. Uma pela própria censura inconsciente/ pré-consciente e outra pela censura imposta a partir da limitação inerente à linguagem.

Portanto, para essa empreitada encontramos no estudo dos destinos da pulsão uma solução para a inviabilidade de uma análise somente linguística e semiótica. A semiótica do discurso nos permite chegar apenas a delimitar a dinâmica de uma trama, sem entrar a fundo na dinâmica do aparelho psíquico, ou seja, delimita uma trama em termos individuais ou coletivos. Valemo-nos aqui do termo Eu e aparelho psíquico para contrapor a noção de indivíduo componente e parte de uma coletividade. Nosso objeto de estudo é certamente um indivíduo diferente daquele proposto pelas categorias sociológicas ou antropológicas. Este é de um Eu cindido que não é estudado apenas pela perspectiva da consciência. Logo, a perspectiva psicanalista dos destinos pulsionais são de grande valor para fazer uma ponte entre linguagem e desejo, da mesma forma que a pulsão faz entre as três instancias do aparelho psíquico.